quarta-feira, 15 de março de 2017

"Aparição" de Vergílio Ferreira


Acabei de ler "Aparição" aquele que, segundo muitos, é o romance mais emblemático do importante escritor português da segunda metade do século XX: Vergílio Ferreira, prémio Camões pelo conjunto da sua obra em 1992.
A estória relata a experiência de integração social e profissional do primeiro ano de professor do beirão e recém-licenciado Alberto, colocado em Évora, uma cidade que lhe é estranha, tendo como meio o relacionamento que ele desenvolve com uma família local amiga do pai e com o grupo social das filhas. Aqui as suas reflexões e declarações existencialistas encontram eco em duas das raparigas e num aluno com impactes psicológicos que afetam os contactos entre os membros desta tertúlia, dando lugar ao aparecimento de desconfianças, receios, ciumes entre os elementos de um grupo típico de uma pequena comunidade fechada e provinciana. A situação agrava-se ainda com a ocorrência de um acidente e dos problemas individuais que conduzem à hostilização e  ostracização do estranho e culpabilização destes pelos efeitos das suas ideias referentes à importância do autoconhecimento do eu.
À semelhança de outras obras literárias até ao terceiro quartel do século XX, o cuidado pela perfeição do estilo de português na sua forma gramatical e sintática tradicional é uma marca importante do texto, onde as roturas com as regras, típicas da escrita criativa das últimas décadas em Portugal, estão ausentes. Acresce a este perfecionismo escolástico, a qualidade e a elegância de escrever de Vergílio Ferreira. Mas este romance é em simultâneo uma narrativa e um tratado de filosofia existêncialista, onde, intercalado com a narrativa dos acontecimentos e dos diálogos contidos na memória de Alberto e referentes a um ano de um passado já longínquo existem textos de pura reflexão sobre o "eu", onde as formas reflexivas do pensamento para destacar a autoindentificação no conhecer-se e no sentir-se é uma marca para estes pensamentos filosóficos e ideias que afetam todas as personagens da história: ora também em busca deste eu como em Alberto, ora como rejeição desta perturbação gerada por este tipo de análise.
Assumo que gostei do romance como história, apesar de o existencialismo ser uma forma de pensamento filosófico com a qual nunca senti  empatia e entrosamento, pelo que em determinados parágrafos fiquei mais pela apreciação da forma bela de escrever do que pelo conteúdo das ideias e para alguns leitores pode mesmo parecer partes coladas ao enredo incómodas à leitura do livro.

sexta-feira, 10 de março de 2017

"Submissão" de Michel Houellebecq


Decidi ler "Submissão", do escritor francês contemporâneo Michel Houellebecq, tendo em conta a situação eleitoral agora em curso naquele País Europeu, uma vez que este livro é um romance recente e onde se disserta sobre o futuro da França resultante de umas eleições presidenciais em 2022 cujos candidatos na segunda volta (segundo-turno no Brasil) são apenas o da extrema-direita e o de um futuro partido dos muçulmanos.
Sendo Houellebecq um escritor frequentemente polémico, esta obra também tem elementos discutíveis e ideias que pretendem mesmo agitar consciências e levar à reflexão, contudo não deixa de apresentar o risco de uma evolução distópica da atual civilização ocidental a partir de França. François, um professor universitário na Paris III - Nova Sorbonne, especialista no escritor, não fictício, francês do século XIX Huysmans (que de amigo de Zola e satanista se converteu ao catolicismo, deixando plasmado nas suas obras a sua evolução pessoal). O protagonista e narrador é um fruto típico da época ocidental atual, um niilista e hedonista que segue desinteressadamente a política do seu país sem se envolver e sem se aperceber do evoluir da situação e dos  riscos de mudança possíveis na sua terra preparadas nos bastidores pelas forças ideológicas e religiosas em presença, Num repente, o mundo em que viveu muda radicalmente, o poder é tomado por um líder forte de uma das fações da segunda-volta que negoceia e salvaguarda os interesses dos políticos adversários tradicionais fracos, comodistas e egoístas, que aceitam um conjunto de mudanças no sistema onde se retiram o atual papel da mulher na sociedade e levam uma campanha simpática de mudança de mentalidade através do ensino, que à semelhança da distopia de "O admirável mundo novo", de Aldous Huxley, pode levar a que a submissão seja entendida pelos submetidos a uma nova forma de se sentirem felizes neste mundo em que uma parte da humanidade não tem voz nem estatuto social.
Embora Houellebecq não escreva de uma forma bela, antes pelo contrário, estamos perante um texto cru e por vezes chocante, mesmo quando descreve crueldades de uma forma ardilosamente simpática, a leitura é fácil pela clareza colocada no texto. Pontualmente, na vida íntima do protagonista, o escritor não se limita a um erotismo subtil, avança para uma linguagem e pormenores que podem mesmo ferir a suscetibilidade do leitor, todavia é evidente que tal é a intenção do escritor.
Fiquei curioso por conhecer a obra de Huysmans, que também se deduz ter sido muito importante na literatura francesa do século XIX, mas cuja importância foi intencionalmente abafada por a sua evolução colidir com a estratégia em rumo de uma civilização laica onde as questões de fé são retiradas do espaço coletivo.
Como livro que fala de um futuro próximo e a partir dos dados da data da sua publicação inicial, 2015, alguns pormenores previstos em 2017 sofreram vários desvios, além de terem surgido alguns aspetos maus não considerados, mesmo assim no cerne a obra mantém-se bem atual e a sua mensagem não perdeu qualquer atualidade. 
Apesar de um futuro negro apresentado em tons cor de rosa e de algumas opções descritivas que não são do meu inteiro agrado, que considero quase pornografia na literatura, gostei mesmo muito do livro, que procura agitar e despertar consciências que vivem como sonâmbulas nesta sociedade laica, onde os valores religiosos são silenciados enquanto outros procuram impor as suas crenças e modelo sem que o cidadão comum se aperceba.

domingo, 5 de março de 2017

"A Ponte sobre o Drina" de Ivo Andric

O romance "A ponte sobre o Drina", do bósnio croata e prémio Nobel da literatura em 1961: Ivo Andric, tem como protagonista esta obra de arquitetura, ou seja, a história da sua origem, construção e posterior importância desta infraestrutura, que é Património Mundial da Humanidade, na vida da cidade de Visegrad, a qual serviu de ligação entre o mundo islâmico/turco e o mundo cristão/sérvio e entre a cultura ocidental e oriental da Europa através dos Balcãs desde meados do século XVI, até à sua primeira destruição parcial na I Grande Guerra Mundial do século XX.
À semelhança do anterior livro que li deste autor "A crónica de Travnik", o mesmo caracteriza-se por uma escrita muito elegante, rica de adjetivos e metáforas em série e por vezes prolixa de pormenores, o que dá lugar a uma narrativa que se desenrola a um ritmo lento, como a vida na província. No presente romance não há um protagonista, o narrador faz desfilar uma série de personagens desde o não ficcionado sérvio raptado pelos turcos, que ocupavam a zona no século XV, para torná-lo militar forçado ao serviço do islamismo, ou seja um janízaro, que se tornou Mehmed Paxá, com um cargo equivalente a Primeiro-ministro governando todo o vasto Império Otomano, o qual decidiu mandar contruir esta ponte na sua província natal, prosseguido com personagens reais e lendárias, bem como a origem das lendas associadas à sua construção e ao imóvel, para depois ao longo de três séculos relatar estórias relacionadas com cidadãos sérvios, bósnios e judeus desta cidade, desde as suas paixões, investimentos, desgraças, amizades e tensões entre os vários credos e com as mudanças de mão dos povos que ocuparam e lutaram pelo domínio ou independência desta zona multiétnica da antiga Jugoslávia: turcos, austríacos, sérvios e bósnios; tudo isto sempre à sombra desta imponente ponte que marcava o pulsar cultural e social de Visegrad, unia mundos tão diversos e assistiu a mudanças muito significativas no modo de viver das populações e assistiu ao nascer de novas tecnologias industriais.
Assim, numa obra única e como numa passarela desfilam aventuras de juventude, reflexões de velhice, discussões de ideias, gente ébria e sóbria, exércitos, amores, paixões, ciúmes, desconfianças, rivalidades e ódios que em momentos de paz são mutuamente toleráveis, por vezes ridículos ou causadores de incidentes divertidos, mas que em períodos de guerra atingem extremos de desumanidade que deixam marcas para sempre.
Um grande livro, que dá a conhecer a complexidade do que é a mistura multicultural da Bósnia-Herzegovina tendo como ponto de união esta ponte secular Património da Humanidade, isto num romance que é também uma obra de arte global.
Visegrad e a sua ponte (wikipedia)

quinta-feira, 2 de março de 2017

Aniversário de Geocrusoe: 2 de Março desde 2007 a 2017: Dez anos de vida deste espaço

Geólogo - pintura de Carl Spitzweg (wikipedia)
Comecei a página Geocrusoe numa experiência para verificar como funcionava isto de fazer um blogue, mesmo sem ter qualquer ideia editorial definida. Os primeiros posts foram incoerentes por falta de uma estratégia - meros frutos do acaso. Depois dei ao site um rumo com objetivos: divulgar à população em geral aspetos da geologia do Faial e um pouco também das outras ilhas dos Açores, relatar eventos culturais que me agradassem e ocorressem nesta terra ou que eu assistisse e ainda curiosidades sobre Ambiente, a área em que trabalho há décadas, sem esquecer o meu Canada natal e a minha freguesia  de residência: Ribeirinha, Horta. A paisagem destas ilhas e o seu património mereceram destaque, sobretudo naquela onde vivia e das que, entretanto, ia visitando e onde recolhia fotos, sem esquecer a respetiva geologia. Assim se passaram cerca de cinco anos após uma regularidade quase diária neste primeiro período.

Com assunto quase esgotado, no ano de 2012 Geocrusoe deu uma grande volta, já não dava mais para falar da geologia de modo menos profundo e desta terra mantendo uma forma acessível a um não especialista e em paralelo a redução da agenda cultural tão rica como então tinha acontecido no Faial, pensei em fechar o espaço, mas em boa hora optei por centrar-me no meu mundo de leituras de ficção, que por norma atinge quase meia centena de livros por ano, estes passaram a ter uma apreciação pessoal e uma resenha para eventuais interessados numa perspetiva de um simples leitor não formado em letras, mas novos leitores fixos surgiram e daqui saíram dicas que foram seguidas que me foram comunicadas, sendo que a Geologia e o Ambiente escassearam com novos posts, mas os antigos nunca saíram dos que são diariamente visitados neste blogue.

Tive o prazer em ler citações deste blogue em revistas, jornais e  rádio e em viagens conheci pessoas que me referiram o blogue como um espaço em que recolheram informações sobre o Faial, o Triângulo e outras ilhas dos Açores, descobri a pronúncia de Geocrusoe em inglês e francês e fui questionado sobre a origem do nome, explico: veio do facto de durante anos ter estado no Faial sem mais geólogos amigos para conversar sobre as Ciência da Terra, sentia-me um geólogo Robison Crusoe, isolado numa ilha que amava, mas sentia a falta de conversas sobre geologia, não apenas leituras de livros e o blogue permitiu trocar opiniões nestas áreas com o interessado comum e colegas que entretanto fui descobrindo na blogosfera, este espaço passou a ser o meu Sexta-feira.

10 anos é muito tempo a manter viva uma página sem nela falar de política ou de futebol. Foi um projeto onde já tive períodos de entusiasmo, como quando falei da história geológica do Faial e as celebrações dos 50 anos da erupção do vulcão dos Capelinhos, tive incentivo de pessoas ligadas a eventos culturais, com destaque para o extinto Faial Filmes Fest. Por aqui estabeleci novos contactos, conheci outros leitores e ouvi sugestões de escritores e obras que sem ser por esta via talvez não viesse a conhecer incluindo as do mundo da literatura lusófona.

Obrigado a todos os que de alguma forma contribuíram para que este projeto atingisse uma década.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

"O Rei Lear" de William Shakespeare


Acabei de ler a única das grandes tragédias de William Shakespeare que desconhecia o texto e o enredo: "O rei Lear", numa edição e tradução recentes que segundo os autores faz parte de um projeto em curso que pretende publicar todas as obras deste génio mundial da literatura dramática em português, tentando conciliar o estilo original do autor com uma linguagem contemporânea, respeitando a forma e a estrutura poética sempre que possível. Pelos excertos que li do texto original pela internet para comparar esta versão, penso que o objetivo está a ser conseguido, pois o tom, a cadência, o ritmo e o texto na língua de Camões fizeram-me sentir o mesmo de quando li as mesmas passagens da obra em inglês e as ideias base eram as mesmas, mostrando uma fidelidade muito boa. As notas finais permitem ainda pormenorizações sobre publicações antigas de referência da obra e algumas particularidades para as soluções encontradas neste livro.
O Rei Lear desenvolve o tema do engano e do aproveitamento da senilidade e do amor paterno por filhos interesseiros em prejuízo de honestos, não bajuladores e respeitadores dos princípios e deveres filiais.
Duas histórias correm em paralelo, a do rei Lear, que divide o seu reino pelas duas filhas mais velhas que o ludibriam, deserdando a mais nova que o admira sem mentiras, bem como o caso de um nobre, Gloucester, que se deixa levar pela intriga de um filho bastardo em prejuízo do legítimo honesto e ingénuo na maldade. O desenrolar do drama levará não só à descoberta dos erros de interpretação tanto no rei louco pela idade, como no conde, e as tentativas de repor a justiça, mas a guerra levada a cabo com os maquiavélicos traidores, como não poderia deixar de ser numa tragédia, termina com a morte de muitos dos que intervieram nesta luta entre a justiça ou o bem e a injustiça ou mal.
A obra talvez não tenha as frases isoladas fortes do texto de Hamlet, o desenlace é bem mais negro que o de Macbeth, não é o ciúme como em Otello que se deixa alimentar pela maldade mas somente a fragilidade da velhice que é vítima da ganância dos novos e nem há o romantismo de Romeu e Julieta, todavia é uma grande obra que levanta igualmente numerosas questões sobre a esperteza das trevas face à crendice das palavras de quem ama e é justo e onde, sem o conflito de gerações, ficamos perante a crueza da ingratidão filial face ao declínio físico e psíquico dos progenitores que os trouxeram à vida.
Pequena no tamanho, é uma tragédia grande em mensagem, estrutura e complexidade moral, uma obra-prima que gostei e vale a pena ler, enquanto este projeto Shakespeare, levado a cabo pelos tradutores da Universidade do Porto, motivou-me a descobrir mais obras deste génio.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

"O Clube Dumas" de Arturo Pérez-Reverte


O romance "O Clube Dumas" do escritor espanhol Pérez-Reverte é uma obra de suspense e mistério que envolve a busca de livros históricos raros, a validação de um manuscrito de Alexandre Dumas pai, aventura, ocultismo, perseguições, charadas e crimes, numa narrativa onde existe preocupações de juntar a literatura como objeto de lazer sem desvalorizar a qualidade de escrita e em paralelo fornecer informações ao nível de histórias de literatura, sobretudo, do autor que cujo nome consta no título.
Como todos os livros de suspense e aventura, este lê-se bem e desperta curiosidade para cenas futuras, algumas destas são em Portugal, o que já não é primeira vez nos livros que leio deste escritor. Uma obra sobre livros, amantes de destes e fãs de um escritor, cruza o secretismo associado a obras de ocultismo e os artifícios que os seus crentes fizeram para manter viva as suas mensagens e no desenlace Pérez-Reverte fala da importância do leitor em se deixar envolver pelo mundo das obras e o risco que quando se mistura realidade e ficção, um jogo romanceado bem feito que diverte, alimenta o gosto pela leitura e divulga factos da história de escritores e da adoração dos livros como objeto de culto. Gostei e acessível a qualquer tipo de leitor. 

sábado, 11 de fevereiro de 2017

"As Naus" de António Lobo-Antunes


O romance "As Naus", de António Lobo-Antunes, publicado em 1988 e agora reeditado na coleção Livros RTP, cruzou-se casualmente comigo numa papelaria quando estava lá por outros motivos e então despertou-me a curiosidade o modo como este original escritor lusitano trataria o cruzamento do tema das descobertas com o dos retornados após a independência das colónias portuguesas na sequência da revolução de Abril.
Num romance pouco extenso, com a escrita típica de António Lobo-Antunes, onde  se intercalam tempos diferentes, mudanças de sujeito e de espaço ao longo de longos parágrafos, o autor desfila um conjunto de personagens que no passado foram os heróis, escritores ou figuras das crónicas do período das descobertas e da expansão cultural portuguesa, nomeadamente Luís de Camões, Pedro Álvares Cabral, Diogo Cão, São Francisco Xavier e Manuel de Sousa Sepúlveda, reis de Portugal,entre outros, sem esquecer a sombra marcante de D. Sebastião e o seu mito, descrevendo muitas das dificuldades, loucuras e glórias daquela época áurea que viveram, mas que mais tarde os mesmos se tornaram colonos em Goa, Moçambique, Angola e Guiné, com todos os vícios de que são muitas vezes acusados e ainda alvo dos ódios e das bajulações dos povos indígenas e que por fim ainda passam para o papel de retornados a Portugal, expulsos dos locais onde criaram raízes, sendo mal-aceites na pátria de origem com uma organização de acolhimento viciada pela embriaguez dos conceitos de liberdade e socialismo onde neste ambiente se adaptando aos mais variados géneros de personalidades e papéis: desde o que se transforma em oportunista, às vítimas de espoliações, aos que entram no mundo negro da prostituição e dos proxenetas, aos desadaptados e às perdas de identidade onde tudo isto se vai cruzando de forma absurda ao longo da obra.
Apesar das numerosas denúncias contidas na obra, que ora se subentendem, ora são ditas de forma dura, nua e mesmo cruel, por vezes misturadas com alguns preconceitos de mentalidade da nossa sociedade, o livro consegue criar um tom irónico e divertido no seio das desgraças expostas, mas não se furta a mostrar a necessidade de os portugueses em todas estas épocas precisarem de um D. Sebastião para manter a esperança e viabilizar a sobrevivência deste Povo... apesar deste salvador sempre na sombra que no fundo dos lusitanos nunca morreu ele nunca aparece, apenas nos levou a uma derrota marcante.
Gostei do livro, mas reconheço que estou habituado à escrita de António Lobo Antunes e para quem não a entranhar este romance torna-se difícil, se não mesmo incompreensível.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

"O Sentido do Fim" de Julian Barnes


Acabei de lei o pequeno romance vencedor do prémio Man Booker Prize de 2011: "O Sentido de Fim", do escritor britânico Julian Barnes, a primeira obra que leio deste autor.
A história está dividida em duas partes: a primeira narra as memórias do protagonista do seu tempo de liceu até à universidade, a sua envolvências com os seus três amigos mais próximos, as reflexões saídas das aulas de alguns professores marcantes, a relação com a sua primeira namorada e a família desta, bem como seu fim quando foi sucedido pelo amigo que ele mais admirava pela sua inteligência, lucidez, visão de vida e o elemento mais promissor do grupo, mas que entretanto foi capaz de um ato extremo.
A segunda parte começa cerca de 40 anos depois, quando já divorciado e avô é surpreendido por uma doação em testamento da mãe da sua antiga namorada, na qual também está incluído o diário do seu admirado amigo. Começa então a tentativa de obtenção da obra e de descobertas estranhas que mostrarão como a memória de uma pessoa o pode atraiçoar sobre a realidade do foi o seu próprio passado e denunciar as suas escolhas medíocres após uma juventude onde se foi capaz de ser cruel para com aqueles que mais se amou sem se ter noção do nível a que se baixou e até à última página haverá sempre surpresas que fecham o ciclo da vida do narrador e a perspetiva deste do que é o sentido das opções de um indivíduo para os seus fins.
Destaco desde já que este romance contém um dos melhores textos literários que li até ao momento para obras do século XXI. Praticamente todos os seus parágrafos e diálogos são de uma perfeição de escrita e de uma beleza estilística clara que concilia a estética com a discussão de ideias num nível a que não estou habituado a ler em obras contemporâneas, que muitas vezes trabalham a escrita e esvaziam o conteúdo ou valorizam este e comprometem a forma de escrever. Aqui existe uma harmonia perfeita entre a reflexão e a arte de narrar, sem deixar de ser uma obra profunda e uma lição de vida cuja genialidade só se revela completa e clara nas últimas páginas do livro. Uma obra-prima!

sábado, 4 de fevereiro de 2017

"Pais e Filhos" de Ivan Turguéniev


O excelente romance"Pais e Filhos" do russo Ivan Turguéniev, escrito em meados do século XIX, além de ser um dos clássicos mais importantes da literatura deste país, é uma obra marcante na literatura mundial, pois é ele que define e cria o termo "niilismo" como forma de pensar e de ser de uma personagem que questiona e rejeita, à priori, qualquer autoridade, instituição ou  costume de modo a querer revolucionar a sociedade, tema que posteriormente será desenvolvido por Dostoievski e outros importantes escritores, com todas as suas forças e fraquezas, benefícios e perigos e ainda alvo de linhas filosóficas, nomeadamente Nietzche, aspetos que moldaram profundamente a literatura global no último século e meio.
Escrito de uma forma fácil, mas elegante, e com pormenores descritivos subtis, que não só embelezam o texto como também caracterizam situações e sentimentos; a história é essencialmente marcada pelo conflito das formas de pensar em duas gerações: a dos filhos no final da juventude, então com todo o vigor, espírito de contestação e vontade de mudar o mundo, insatisfeitos com a dos pais, onde estes com as lições da vida se tornaram já conservadores, acomodados e inseguros perante os seus descendentes, para quem vivem e a quem admiram, sem saber como gerir este desacordo geracional.
Centrado sobretudo em duas famílias diferentes mas de pais recatados e filhos de espírito revolucionários ou influenciados por estes ideais, junto com algumas personagens, incluindo femininas fortes que vão criar o choque não só entre as ideias geracionais como também com a natureza biológica da vida e dos sentimentos. A história coloca a nu o conflito geracional de séculos e as suas limitações da própria natureza e realidade que leva a que ora uns saiam vencidos pela crueza do acaso, embora com um futuro promissor e vítimas de aspetos menores do destino e outros se arrumem perante a força do mundo, tornando-se em pessoas com carreiras consideradas modelos para o comum dos mortais na sociedade em que se inserem.
Um livro não muito grande, fácil e muito rico não só em mensagens, como influente filosoficamente que marcou o futuro da literatura. Gostei muito e recomendo.

sábado, 28 de janeiro de 2017

"O leilão do lote 49" de Thomas Pynchon


A experiência de leitura deste pequeno romance "O leilão do lote 49", do norteamericano Thomas Pynchon, teve a particularidade de apesar de muitas vezes me ter feito sentir como que perdido na narrativa, ao me cruzar com personagens paranóicas, situações absurdas, uma mistura de informação científica séria com aspeto de fantástico junto com irrealidades que se parecem verdades, além de uma série de cenas cuja lógica aparentemente está ausente, levou-me a um livro que me cativou desde a primeira página. O evoluir das situações onde a coerência está como que ausente gera uma história que toma um aspeto de mistério a resolver na tentativa de decifrar um conjunto de pistas que parecem loucas.
Oedipa é informada que foi nomeada testamenteira de um ex-namorado, multimilionário e que para as suas funções poderá contar com a ajuda de um advogado de um escritório com quem o falecido trabalhava. Surpreendida parte para a localidade deste e onde ele era o maior proprietário e investidos da zona. A partir daqui as peripécias sucedem, cada uma mais estranha do que a outra, desde a interferência do seu psiquiatra que enlouquece, ao advogado com quem ela trai o marido mas que a seguir foge com uma adolescente, passando pela envolvência do esposo como homem da rádio, mas que tem alucinações com LSD, ao contacto com um grupo musical de adolescentes denominado Paranoids cujo o nome é coerente com a respetiva forma de ser, até um grupo de teatro cujo ator principal e encenador adapta uma peça antiga deixando pistas que se combinam com elementos encontrados na coleção de selos do morto, que apontam para a existência de uma rede de correios secreta instalada na sociedade para se autonomizar das redes oficiais que Oedipa tenta descobrir através de investigadores de literatura, cientistas que trabalham na entropia dos sistemas e filatelistas, levando tudo isto a uma série de situações de paródia, com informações subtis de análise social e psicológica nos Estados Unidos.
A obra parece uma evolução dos livros de Kafka, juntando cultura pop e erudita, clássica e contemporânea, além de ciências, num mundo absurdo com análises psicológicas que geram um estilo original, por alguns denominado de pós-modernista, que a mim parece-me trazer para a literatura as correntes artísticas da pintura pop-art de Warhol, do surrealismo de Dali, entre outros, mas sendo prolixa em informações como um quadro de Pieter Bruegel, gerando-se assim uma mescla onde nos enredamos que apesar de labiríntica me deu muito prazer em sentir-me perdido em situações por vezes de difícil compreensão, se não mesmo incompreensíveis.
Gostei, contudo só recomendo a quem os esforço de análise do que se está a ler e da apreciar a forma de escrita e narrativa dão prazer, mas não a um leitor que se entusiasme apenas com enredos e textos fáceis de seguir sem esforço.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

" A República dos Sonhos" de Nélida Piñon


Nélida Piñon, escritora brasileira de origem galega, galardoada pela sua obra com o prémio Príncipe das Astúrias, foi a primeira  mulher a presidir à Academia Brasileira de Letras e neste seu extenso romance (mais de 700 páginas em letra miúda) "A República dos Sonhos" faz em simultâneo uma homenagem à imigração para o Brasil das pessoas da Galiza, ressuscita a memória da sua família, bem como expõe de uma forma ora crítica, ora amarga, ora com ternura: o pensar, a cultura, a sociedade e a política deste país Sul-Americano, desde o início dos século XX até à década de 1970, destilando as virtudes, defeitos e sonhos, bem como as raízes desta mistura que originou uma mescla social única no mundo, unida pela língua Portuguesa na sua variante deste continente.
A história arranca quando Eulália decide que chegou a hora de se deixar morrer - a matriarca da família de Madruga, o imigrante pobre de 1913 e criador de um império no Rio. As memórias dos que a cercam levam então à narração de acontecimentos sem respeitar uma sequência cronológica, que vão saltando por vezes bruscamente desde o avô do protagonista, o galego que conta as estórias do seu povo para manter viva a cultura da sua nação e língua que marcou o protagonista, passando pelo sogro deste, a versão aristocrática decadente de quem marcou o passado da Galiza e de quem ficaram as histórias, passa pelo pais, filhos e a neta mais velha do herói do livro, sempre na companhia do seu amigo fiel e companheiro da viagem na primeira travessia do Atlântico, mas de comportamento oposto: Venâncio, que representa os derrotados desta imigração mas é necessário para viver os sonhos para que Madruga possa ter a frieza de vencer na vida real.
Um grupo familiar com membros tão díspares que vai do ambicioso, ao preocupado com os desfavorecidos, à mulher obediente, à que se refugia em Deus mas vê tudo em torno, passando pela serva acolhida e pela que rompe com as regras que escravizam o género feminino, sem faltar o homem cujo a importância reside na virilidade de macho, ao que os valores dos contos e das tradições são o cerne da cultura do País e das raízes ibéricas, a uma agregado que vê passar as principais figuras políticas do Brasil: como Janos, Getúlio e Juscelino, sofreu com a guerra civil de Espanha e desejou a autossustentabilidade económica brasileira, assistiu à democracia com as suas esperanças, passou pela ditadura e desilusões, medos e fugas possíveis nesta América e República de sonhos alcançados e também de falhados.
Uma obra de grande profundidade, por vezes densa e prolixa em pormenores, com dois narradores principais e outros que se escondem atrás do escritor. É um hino ao Brasil, à língua Portuguesa, à Galiza, a Espanha e um tributo aos imigrantes vencedores e louvor aos vencidos e àqueles cujo contar histórias marcam a cultura dos Povos. Grande Obra Literária.

sábado, 7 de janeiro de 2017

"Lillias Fraser" de Hélia Correia


"Lillias Fraser" da escritora portuguesa Hélia Correia, cuja obra ganhou o prémio PEN clube de Portugal em 2002, enquanto a autora foi galardoada com prémio Camões de 2015, é um romance histórico que começa na Escócia em 1746, onde a protagonista, ainda criança e antes de uma derrota dos escoceses católicos interessados em conquistar o trono protestante da Inglaterra, tem a visão da morte do pai e foge antes do morticínio da suas gentes, salva-se e é depois protegida por várias pessoas de estatuto diverso destes dois povos em conflitos. Na sequência da sua odisseia vem parar a Lisboa, prossegue a sua vida entre vários protetores, sobrevive ao terramoto de 1755, novamente devido ao seu dom de ver a morte, passando depois na sua juventude por novos tormentos resultantes desta catástrofe entre gente que a acolhe e a persegue como uma pessoa diferente: loura, de olhos e pele clara; desembocando no período da guerra dos Sete Anos, onde Portugal se alia à Inglaterra e ela volta a cruzar-se com líderes militares dos povos da sua ilha. 
O romance envolve-se no realismo mágico, tem vários acontecimentos e personagens reais: desde a batalha inicial do livro, ao terramoto, clero influente do monarca português e militares do Reino Unido, tem muitos pormenores do que terão sido as dificuldades da população após a destruição de Lisboa e o caos social de então, bem como a ação da Inquisição e de Marquês de Pombal na época, tanto nas vertentes positivas como negativas deste.
A estória surge numa sequência de cenas que por vezes fornecem pistas futuras e outras vezes recusam prosseguir, originando um tratamento do tempo em forma de peças soltas descontínuas que por vezes abrem caminhos que fecham de seguida, além de em momentos ser uma narrativa de alguém do presente que investiga o passado e noutras a ação entrar dentro das personagens como se fossem estas os autores, paralelamente a imagem sobre os Portugueses e Portugal é frequentemente depreciativa da sua cultura e mentalidade, o que me criou algum desconforto, contudo é um romance onde aprendi factos sobre acontecimentos históricos e que sem me ter entusiasmado também não desgostei de ler e penso que valeu a pena conhecer esta obra.

sábado, 31 de dezembro de 2016

"Mystic River" de Dennis Lehane



Acabei de ler "Mystic River" a minha estreia em Dennis Lehane, um escritor atual dos Estados Unidos, que trabalhou com crianças com problemas psicológicos e depois se dedicou à escrita com obras de ficção do género thriller e policial, onde se encaixa este romance.
Três crianças de 11 anos brincam na rua quando uma delas é raptada por um carro, vítima de abusos e consegue fugir. Mais de 20 anos depois, já homens quando cada um segue a sua vida e a amizade do passado esfriou, ocorre o assassínio da filha de um deles, o que os leva a uma aproximação, sendo agora um investigador policial, outro suspeito e o restante vítima da situação, decorre então o trabalho de pesquisa num bairro pobre, com problemas de violência, degradação social e sem perspetivas de futuros para os mais desfavorecidos, enquanto a área vai sendo cercada por yuppies em ascensão económica.
Neste policial somos questionados sobre os traumas da infância, a desagregação social e familiar, as dificuldades de reabilitação de quem convive com o crime e vive no meio deste, bem como reflexões de quem investiga para garantir a segurança e retirar os criminosos da sociedade, num trama onde amizade, desconfiança e obrigações profissionais se cruzam.
Contudo este romance, já adaptado ao cinema, é muito mais que uma simples estória de entretenimento, pois, além de ter uma escrita literária de qualidade, tipicamente norte-americana, junta uma análise psicológica e social profunda de um meio urbano e grupo problemático, criando personagens complexas que elevam esta obra ao nível de outros géneros literários considerados alvos de maior respeito no mundo da literatura e da cultura que um simples thriller para explorar emoções e medos. Gostei e recomendo.

sábado, 24 de dezembro de 2016

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

"Adoração" de Cristina Drios


Acabei de ler o romance "Adoração" da escritora portuguesa Cristina Drios, estreado este ano de 2016 e a primeira obra que leio desta autora que tem merecido rasgados elogios nos meios literários nacionais.
O romance decorre em três épocas diferentes, que se alternam no decorrer da narrativa: a mais antiga em torno da execução do último quadro de Caravaggio, "Adoração com São Francisco e São Lourenço", exposto na capa do livro, e cobre, sobretudo, os últimos anos da vida do pintor após um crime cometido que o tornou num artista admirado mas foragido da justiça, bem como uma recriação da do patrocinador desta obra; outra época corresponde ao tempo que antecedeu ao roubo desta pintura em 1969 na cidade de Palermo, um facto real, envolvendo um conjunto de personagens relacionadas com o furto e a máfia. O último, quase contemporâneo, envolve uma jovens nascida no dia do roubo e um comissário da política marcado pela sua luta contra o crime organizado na Sicília, período em que se unem todas as pontas deixadas em aberto nos tempos anteriores.
Esclareço desde já que no conjunto mais restrito dos meus pintores preferidos está Caravaggio e este é talvez aquele que melhor conheço e de quem mais quadros visitei, pelo que tudo o que diz respeito a ele me interessa e me cativa, sentimentos que me podem influenciar na admiração que tive por este romance.
Quando comprei o livro, vendo a nota na capa "um polícia, uma rapariga, a máfia e Caravaggio" estava à espera de um mero thriller ou de um policial... mas não é. Temos um romance culto cheio de informações do conjunto dos trabalhos do artista, com denúnica dos demónios do pintor e dos demónios na Sicília de hoje, bem como a busca da redenção de quem espera o perdão, numa obra que dá a conhecer os últimos anos desesperados e de fuga do pintor, o génio cuja moralidade não é exemplar, numa sociedade onde os que se apaixonam pela arte também podem ter muito a esconder, problemas que à sua maneira se prolongam para os dois outros dois períodos da história ficcionada e mostram como hoje os mesmos fantasmas chiaroscuri característica dos quadros do pintor se repetem, apesar da arte que tempera este mundo de sombras e luz com a beleza de obras-primas onde a alma dos artistas fica exposta. Claro que se deduz que gostei do livro que tem muita reflexão íntima da mente dos personagens incluindo Caravaggio

sábado, 17 de dezembro de 2016

"A curva do Rio" de V. S. Naipaul


Acabei de ler "A curva do Rio" do britânico de ascendência indiana, nascido em Trinidade e Tobago e prémio Nobel da literatura: V. S. Naipaul. O romance narra a experiência de vida de amadurecimento de Salim vista pelos seus próprios olhos. Nascido na costa oriental africana, de uma família antiga e influente de ascendência asiática, de tradição muçulmana que na juventude ao não ver perspetivas de futuro na sua terra natal decide adquirir uma empresa de comércio numa cidade de um País no centro de África, recentemente descolonizado, onde as características do rio permitem que o local tenha um grande potencial económico de futuro e onde se cruzam as muitas culturas que nos últimos séculos moldaram este Continente: os africanos originais de etnias variadas, os colonos, os conselheiros ocidentais pós-independência, os povos há muito radicados a sul do Sara, os missionários, gente cristã, islâmica e das religiões tradicionais, todos sob a capa de um líder carismático da nova Africa cheio de vigor para criar um futuro glorioso, mas que com o tempo vai ramificando o seu poder para controlar todo o Estado e tirar proveito de todas as divergências, incoerências sociais, preconceitos e assim dominar, desculpar-se e alimentar conflitos que degradam a socieconomia e sua população inicialmente esperançada mas que vai enfrentando a desilusão, a corrupção e as guerras ao longo dos anos.
Eis um livro poeticamente escrito e sem ser agressivo, consegue retratar a violência humana e os vícios internos de sociedades vítimas de regimes opressivos e corruptos, onde oportunistas internos e externos condenam Povos inteiros e inocentes à estagnação económica e do conhecimento, comprometendo o evoluir de pessoas inocentes e os seus sonhos e, sobretudo, o futuro de nações inteiras... neste caso um continente inteiro espelhado neste País, através desta cidade situada na curva de um rio.
Este romance é efetivamente um magnífico retrato dos problemas da África subsariana no período pós-colonial, explica muito dos problemas que afetam ainda hoje esta zona do planeta e, apesar da negritude das questões denunciadas, consegue apresentar-se num estilo literário onde a poesia da escrita traça um quadro triste num belo livro. Gostei e recomendo a quem gosta de obras que dizem muito mais nas entrelinhas através de uma estética onde fealdade não estraga a beleza do saber expor com arte.

sábado, 10 de dezembro de 2016

AMOK de Stefan Zweig


Acabei de ler o livro "Amok" do austríaco Stefan Zweig, pela sua dimensão e estrutura, 74 páginas, poderá ser qualificado como um conto.
A história refere-se a uma confidência feita numa viagem de paquete entre a Índia e a Inglaterra por um passageiro amargurado e isolado que o narrador encontrou numa hora avançada da noite e relativa ao comportamento que ele tivera como médico perante uma mulher de sociedade que o procurara numa terra colonial onde exercia a sua profissão numa aldeia afastada para este lhe prestar um serviço que ele entende não ter sido solicitado de modo adequado face à força que emana da jovem, por isso decidiu-se por um estilo de conflito mútuo, a que se seguiu um arrependimento tardio e uma tempestade de sentimento incontrolável, denominada na língua nativa de estado "amok", que o leva a agir de forma descontrolada e a procurá-la, atitude que desemboca numa tragédia e num compromisso fatal.
Escrito com uma elegância e com um ritmo que nos faz mergulhar vertiginosamente no dilema médico, ético e inclusive moral, este conto mostra uma análise profunda e densa de um drama psicológico de pessoas de classes sociais elevadas onde a imagem pública e a honra sobrepõe-se muitas vezes às questões de moral e ética privada. Gostei.