terça-feira, 15 de agosto de 2017

"Reino do Amanhã" de J. G. Ballard


Terminei a leitura do "Reino do Amanhã" do escritor inglês J. G. Ballard, uma distopia que evidencia os risco presente de escravatura e de ditadura que pode resultar da combinação do consumismo atual com o desporto interesseiramente organizado nas comunidades, neste caso a região suburbana de Heathrow - Londres, onde apenas há valores para uma sobrevivência oca e materialista sem as referências coletivas tradicionais.
Na sequência de um tiroteio num megacentro comercial em Brooklands é morto o pai de Richard Pearson, um publicitário recém-despedido e este desloca-se à periferia onde descobre um aglomerado habitacional descaracterizado cuja vida se desenrola em torno da autaestrada e das grandes superfícies comerciais: "uma estação de serviço junto a uma estrada com duas faixas de rodagem imprimia um sentido de comunidade mais profundo que qualquer igreja ou capela, uma maior consciência de cultura partilhada do que uma biblioteca ou uma galeria municipal poderiam oferecer... ...o estacionamento estava prestes a tornar-se uma das maiores necessidades espirituais da população britânica."
Na cidade, Pearson descobre o mal-estar do subúrbio, aproveitado pelo Metro-Centre com publicidade incutida à população articulada com equipas desportivas suportadas por aquele templo do consumo e geradores de uma violência oca e xenofobia em espiral crescente e onde o pai ora pareceu uma vítima ora uma peça eliminada quem fomentava uma revolução e guerrilha em Brooklands.
Pearson decide mudar-se e investigar o fenómeno e a morte, alia-se tacitamente ao Metro-Centre e, numa evolução do vazio, a loucura da ditadura consumista instala-se como uma nova religião, extrema-se em revolta com exércitos civis em defesa do seu deus comercial e um Estado sujo que procura conter uma situação descontrolada.
A obra evolui para uma tensão extrema e denuncia a violência das periferias urbanas, torna-se sombria e repetitiva na demonstração exaustiva da semelhança entre os crentes desta nova religião do consumo com o desporto organizado através dos seus símbolos e ritos paralelos às fés tradicionais... mas "As pessoas são capazes da mais maravilhosa demência." uma obra atual da sociedade numa evolução mais sombria que a do "Admirável mundo novo" de Huxley. Um romance, com uma escrita crua, por vezes ácida, que incomoda pela denúncia do caminho que estamos a seguir. Um alerta contra a alienação em que o ocidente consumista está a cair.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

O Mendel dos Livros e A viagem ao Passado de Stefan Zweig


Acabei de ler os dois contos O Mendel dos Livros e A viagem ao Passado, publicados no mesmo livro, de Stefan Zweig, um escritor de origem austríaca, mas que passou os seus últimos dias no Brasil.
O primeiro conto de algumas dezenas de páginas é relativo à vida de um alfarrabista (sebo): Mendel, que era capaz de se isolar do mundo para viver apenas para os seus livros, que fazia a sua vida profissional centrada num café barulhento sem se aperceber do que se passava à sua volta, inclusive este alheamento levou-o a cometer infantilidades em momento de guerra só compreensíveis a quem ama os seus alfarrábio mais que tudo. É uma estória lindíssima. Uma narrativa que vale não só pela forma de escrita, cheia de adjetivos, poesia e beleza , mas também por ser uma grande homenagem a este grupo de pessoas capaz de encontrar pérolas para os bibliófilos, mas vistos muitas vezes apenas como uns comerciantes de obras usadas, quando podem ser os maiores peritos no tema com que nos cruzamos.
O segundo conto, também de dezenas de páginas "A viagem ao passado", que praticamente termina com dois versos de Verlaine, é um puro Zweig, onde as paixões extremadas são exploradas como tema, as quais se confrontam com situações que levam a uma mudança brusca e à tomada de atitudes que no futuro levarão a um outro choque e possíveis remorsos sobre o passado. Neste caso um amor que a carreira e a guerra separou, mas depois dá-se o reencontro quando já tudo é diferente desse tempo anterior.
Gostei muito dos dois, mas o primeiro marca qualquer bibliófilo a que acresce a beleza da escrita e o valor da homenagem efetuada. Recomendo a todos que gostam de beleza literária em ficções curtas.

domingo, 6 de agosto de 2017

Festa do Livro 2017 na cidade da Horta

Não há Semana do Mar na Horta sem Festa do Livro, em 2017 a boa tradição repete-se.
Já fiz a minha visita e recomendo: Diversidade de livros, ficção, ensaio, divulgação científica, análises política, história, religião, new wave e outras ondas, boas e más nos seus géneros.
Fui com a minha lista de obras a comprar, mas como quando a escolha de livros é grande, lá chegou à dúzia e com apenas dois da seleção levada.
Se passar pela Horta aproveite esta oportunidade.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

"Bombaim - a um mundo de distância" de Thrity Umrigar



Acabei de ler "Bombaim a um mundo de distância" da escritora indiana Thrity Umrigar, um romance com ma escrita simpática, agradável e cheia de sentimentos, sem ser "meladamente" sentimental, que narra a vida de duas mulheres já no final da vida adulta, de condições sociais distantes mas cuja vida foi durante muitos anos próximas. A obra recorre a frequentes memórias de cenas passadas por cada uma delas, dando assim saltos no tempo que permite conhecer o que foi a vida delas e as feridas e cicatrizes que se vão abrindo com problemas do presente.
Uma das mulheres é pobre, hindu, residente num bairro de lata, trabalhadora incansável e uma mãe coragem perante as adversidades dos desprotegidos intocáveis; a outra é de uma família culta, instruída, parsi (seita zoroastriana), com uma vida não menos sofrida psicologicamente que teve a primeira como criada durante décadas e de quem se sente amiga com todas as barreiras que as separações por castas, religiões e preconceitos impõem. A primeira enfrenta a gravidez imprevista da neta orfã e por ela acolhida na sua miséria. A segunda alegra-se com a gravidez de um casamento de sonho da filha, mas só que este momento de infelicidade e felicidade pela vinda de um filho a cada um destes lares vai ser razão para se abrirem ainda mais divisões e virem mais injustiças a nu típicas da sociedade de Bombaim.
Gostei, o texto é de fácil leitura e mesmo sem ser de uma genialidade literária que mereça neste campo outros encómios é uma história de denúncia social bem narrada e por vezes de elevada tensão. Recomendo a quem quer conhecer melhor a sociedade indiana e muitos dos seus problemas estruturais geradores de divisões, desconfianças e injustiças que distanciam pessoas aparentemente próximas.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

"A Brecha" de João Pedro Porto


Acabei de ler o romance "A Brecha" de João Pedro Porto, um jovem escritor Português e Açoriano, mas este livro não é uma obra de cariz regionalista.
O romance apresenta uma trama cuja forma de narrar é mais complexa do que a própria estória em si. Numa noite escura e a ameaçar tormenta, um Homem ascende das arribas do cabo na sutura dos mares (deduz-se São Vicente), surpreende os deuses do Tempo e do Amor em adultério à da História/Memória, foge e é acolhido num tasco de um casal parricida de onde conseguirá levar companheiros para a sua ventura de encontrar o Apocalipse no sul. Em paralelo, um Homem em tédio num quarto reflete sobre a banalidade do seu tempo quando uma brecha se abre e decide por ela percorrer os caminhos da memória. Assim arrancam aventuras que afinal são a mesma. Por sua vez, os donos da taberna decidem contactar os deuses e tramar o seu abate, permitindo apreciar os efeitos da sua existência ou morte no destino dos Homens.
O romance não só apresenta vários estilos de escrita, como várias formas de narrativa. Predomina, no primeiro caso, a redação floreada numa recriação barroca a lembrar Fernão Mendes Pinto e António Vieira, com um vocabulário muito rebuscado, com termos técnicos, arcaismos e raridades da língua que os dicionários nem sempre registam. O autor optou pela designação grega dos deuses, a que por norma somos mais estranhos e ainda com variantes menos comuns, e contém referências a várias histórias mitológicas que revelam um grande estudo da cultura clássica. 
A narrativa ora se desenrola em prosa, sobretudo na vertente das aventuras dos homens, onde surgem mitos da época das descobertas e sebastiânicos, misturados com factos históricos da época do declínio de Portugal; ora se desenvolve em teatro aquando da temática do abate dos deuses; e ainda poesia, soneto ou verso livre, que fazem contrapontos à narrativa ou o resumo da aventura humana no final, uma espécie de epopeia camoniana para os heróis corajosamente vencidos nas suas aventuras.
Esta é uma obra densa de mensagens soltas e pistas de reflexão, cuja repetição de leituras permitem conclusões por vezes distintas, apesar de estar subjacente a ideia central de que para se viver há que arriscar, mesmo que depois se seja derrotado e sujeitos ao remorso, mas quem não se aventura, como Dom Sebastião, dificilmente vive. Paralelamente há a discussão do papel do(s) deus(es) na nossa vida ser mínimo e que podemos bem viver sem ele(s), tendo em consideração a hipótese de ser(em) nossa criação, onde se deduz que o Homem é o dono das suas decisões e responsável por ela sozinho.
Estamos sem dúvida perante um grande livro, mas uma obra difícil. Um desafio para quem gosta de ler, mas aprecia a escrita, discute o conteúdo e a forma da trama e por isso, talvez, inacessível a quem procura romances como meros objetos passatempos para momentos de lazer. "A Brecha" é para muito mais do que isto. É literatura no que esta pertence ao mundo da Arte. Gostei e muito. 

quinta-feira, 27 de julho de 2017

"A mixture of Frailties" de Robertson Davies



Terminei a leitura do terceiro livro da trilogia de Salterton de Robertson Davies: "A mixture of frailties". O romance começa pouco após o casamento entre os jovens filhos de professores universitários rivais cujo falso anúncio permitira a trama do anterior livro exposto neste neste post. Um momento em que ocorre a morte da viúva mãe do noivo, uma mulher egoísta que emocionalmente escravizava o filho, que por retaliação à desfeita pela escolha da mulher filha do rival deixa em testamento cláusulas de gestão de todos seus bens incluindo sua fortuna enorme, cujo próprio descendente na sua submissão desconhecia existir, a um fundo de gestão por uma comissão cujos membros já eram conhecidos das anteriores histórias, destinado à educação na Europa de uma mulher da cidade no mundo da música a escolher pelos gestores segundo critérios rígidos, com possibilidade de repetição após a conclusão dos estudos até que haja um novo herdeiro masculino na família, enquanto o casal se limita ao usufruto da vivenda da mãe para residência, mas sem auferir rendimentos da fortuna e sem beneficiar da possibilidade de venda de propriedades pertencentes ao fundo.
A partir desta situação complexa e humilhante para o casal, Davies desenvolve o que de melhor sabe fazer nos seus romances: criar com elegância e humor uma trama em que explora o amadurecimento de uma forma de arte num potencial artista. Neste caso, como se transforma a voz de alguém dotado, mas sem cultura musical, numa artista e soprano de primeira grandeza no mundo da ópera, associado às peripécias que se geram em torno de uma jovem bela, imatura, vinda de uma cidade rural que vê de repente a possibilidade do seu sonho realizar-se, embora caída na teia de artistas e das suas rivalidades, com toda a astúcia possível desenvolvida no seio de Londres. Como sempre neste género literário, Robertson Davies cria uma delícia de obra culta com referências à história da música e uma argúcia de análise social divertida e muito anglo-saxónica.
Nas várias trilogias, uma característica a que se associam os romances deste escritor canadiano, este conseguiu cobrir e dar a conhecer através da literatura vários mundos da cultura e da arte, nomeadamente: festivais de cinema, a criatividade na pintura e na música (composição e ópera), a representação em teatro e a vida em circo, bem como as tensões que caracterizam os meios universitários, sempre com ironia e análise social que evidenciam um conhecimento dos meios culturais de uma forma difícil de se observar noutros escritores, além de que o facto de ter lecionado em várias Universidades lhe garantiu a bagagem para poder explorar repetidamente as tensões nos meios académicos. Gostei e muito e continuo a considerar no estilo mais clássico anglo-saxónico de romance o maior escritor do Canada da segunda metade do século XX

domingo, 16 de julho de 2017

"Leaven of Malice" da Trilogia de Salterton de Robertson Davies


O segundo livro da Trilogia de Salterton, situa-se na mesma cidade universitária de Salterton, imaginada por Robertson Davies, que se deduz situar-se no sudoeste de Ontário, "Leaven of Malice", decorre cerca de dois anos após a trama do primeiro romance desta série que falei aqui, repetindo algumas das personagens, introduzindo outras novas e é despoletado por um acontecimento completamente diferente: um anúncio falso de noivado e próximo casamento entre dois jovens filhos de famílias com passados litigiosos, onde a rivalidade se manteve e até cresceu, mas de forma uma discreta e oculta à sociedade, publicado num jornal da cidade.
O falso anúncio não só abrirá uma ameaça judicial ao diretor do"Evening Bellman", como levará com grande humor e ironia ao desencadear de atitudes de investigação amadora, desajeitada e desastrada sobre quem terá estado na origem da notícia que porão a nu não só os ódios, as invejas, os ciumes e as paixões, mas também as incertezas e as ambições pessoais inerentes ao despertar da vida juvenil para adulta familiar e profissional e ainda o mundo em torno de um jornal local, a sua redação e papel social, tudo isto irá desembocar num final onde tudo se explica e fará que relações impossíveis se tornam viáveis.

Robertson Davies é de facto um genial analista e relator da realidade social explora todos os tipos de virtudes e defeitos individuais das mais variadas personalidades que compõem uma sociedade fechada e conservadora e este livro que ganhou o prémio literário canadiano de humor Leacock em 1954 é um excelente exemplo do que seria a vida no Canada, numa cidade média e académica ainda fortemente influenciada pelos costumes e subserviências típicas da Inglaterra vitoriana num grupo de pessoas que se sente defensor dessa sociedade e sua religião oficial. Um romance brilhante satírico  não acessível a quem apenas lê em Português.




sábado, 1 de julho de 2017

CANADA Day - Celebração dos 150 anos do CANADA: 1867-2017

Hoje o CANADA, o meu país natal e do qual sou um orgulhoso cidadão celebra 150 anos como País com a proclamação da Confederação Canadiana a 1 de julho de 1867 destaco o acordo de John A MacDonald, de língua inglesa, e George-Étienne Cartier, de língua francesa, na liderança do entendimento de um Estado com várias nações.

Inicialmente composto apenas pelas atuais províncias do Ontario, Quebec, Nova Scotia e New Brunswuick por adesão voluntária de colónias britânicas na América do Norte estendeu-se do Atlântico ao Pacífico e chegou ao Polo Norte, sendo a província que mais recente aderiu a New Foundland and Labrador (Terra Nova e Labrador) já após a segunda-guerra mundial em 31 de março de 1949 .


Apesar do vermelho ser  desde o início a cor da Confederação e a folha de ácer o principal símbolo das antigas províncias do Alto e Baixo Canada, só passado um século da criação deste País foi adotada a atual bandeira oficial do Canada já sem qualquer referência à Union Jack que caracteriza muitos Estados da Commonwealth, apesar da minha memória apenas se lembrar daquela que me comove: a Maple Leaf.


Não sei o que define uma nação, mas na pluralidade de culturas na origem do Canada, na diversidade de línguas maternas, para além das oficiais da federação ou ainda de outras de determinadas províncias ou territórios e na multiplicidade de religiões, mesmo reconhecendo que certos nacionalismos por vezes mais dividem do que unem os povos que se juntaram para formar um País e o Povo Canadiano; a verdade é que sempre me senti Canadiano sem qualquer conflito com também me sentir Português e ter como língua materna a de Pessoa e Camões e é por este orgulho de ser Canadiano, sempre ligado à minha Pátria natal e continuar ativamente a colaborar com a representação do Canada em Portugal que há muito decidira neste dia Celebrar os 150 anos do Canada na minha cidade natal, Galt e hoje Cambridge, Ontario, na antiga província do Alto Canada.


Happy Canada Day
Bonne Fête du Canada
Feliz Dia do Canadá


PROUD DO BE CANDIAN!

FIER D'ÊTRE CANADIEN!

ORGULHOSO DE SER CANADIANO


quarta-feira, 28 de junho de 2017

Tempest-tost da Salterton Trilogy de Robertson Davies





Acabado de ler o primeiro romance desta trilogia, uma trama sem protagonistas definidos, muito britânica como habitual no autor. Por meio de algumas táticas o grupo de teatro 🎭 amador de Salterton obtém autorização para levar a cabo uma representação e encenação de "A tempestade" de Shakespeare nos jardins duma família rica e influente da cidade universitária (ficticia), só que nada será simples até à estreia de verão, paixões, ciúmes choque entre a encenadora profissional e atores com várias personalidades e interesses diversos, além de tiques e bajulaçoes à filha do anfitrião  e atriz convidada de forma interesseira pelo grupo, encaminham o conjunto dos intervenientes para uma tempestade perfeita. Divertido, elegante, bem escrito, satírico e análises sociais são características deste primeiro livro da trilogia.
Gostei e já entrei no segundo da série como leitura de avião ✈ a caminho da terra de Robertson Davies.
(texto republicado do meu comentário à obra em facebook)

terça-feira, 20 de junho de 2017

Livros sobre a cidade da Horta, o Faial e inclusive outras ilhas dos Açores

No verão a Horta recebe muitos turistas e descendentes das nossas comunidades de emigrantes pelo mundo fora, perguntam-me por vezes onde podem encontrar livros sobre a história desta terra. A receção da biblioteca pública regional João José da Graça, no edifício situado no extremo sul do largo Duque d'Ávila e Bolama, a mesma praça onde se encontra a Matriz e o Museu, é talvez o local mais adequado a este objetivo.


Na minha opinião a maior produção de publicações sobre o Faial, a sua cidade da Horta e outras ilhas relacionadas com esta relacionada tem sido fruto do trabalho do Núcleo Cultural da Horta através de investigadores por cá residentes ou por cooperação com professores de outras instituições, com destaque para a Universidade dos Açores.

Nas fotos alguns dos títulos disponíveis neste local e editados pelo Núcleo Cultural da Horta cujas obras podem também ser encomendadas pela internet através deste site do NCH.

Boas opções que recomendo

terça-feira, 13 de junho de 2017

"As Regras da Casa da Sidra" de John Irving


O romance do norte-americano John Irving "As regras da Casa da Sidra" que acabei de ler, não sei se intencional ou não, apresenta um resumo, tanto no site onde comprei o livro, como no verso da capa deste, que se desvia em muito do cerne da questão principal levantada pela obra: o aborto pela livre escolha da mulher. Não importa se o leitor deste post é a favor da questão ou não, mas os vários episódios principais que marcam as personagens de um modo ou outro encaminham sempre o problema para esta questão ética.
Wilbur Larch jovem do Maine decide seguir medicina, na sua fase de viragem a adulto é-lhe ofertada pelo pai uma noite com uma acompanhante mais velha, depois conhece a filha, mais tarde já como médico e perante uma gravidez indesejada desta, ele recusa-se à interrupção, o que a conduz indiretamente à morte. Uma marca deixada pela mãe e o fim da filha levam-no a recolher-se num orfanato onde se torna no médico residente, viciado em éter, que estabelece uma rotina com os acolhidos e de onde dá plena liberdade às grávidas que ali se dirigem para estas criarem um novo órfão, a acolher na instituição para adoção, ou de evitar um filho indesejado. Uma prática então ilegal, este agir leva a que o estabelecimento seja visitado por muitas mulheres e entre os bebés que acolhe afeiçoa-se a um: Homer, cujas peripécias o impediram de ser adotado. Wilbur ensina-lhe a sua profissão e torna-o num obstreta dotado de prática exemplar, mas que recusa o papel de Deus na decisão de uma vida. Um casal jovem, bonito e rico vai ao orfanato e recebe o jovem de igual idade para a sua quinta de maçãs e sidra. Começa então uma relação amorosa a três que mistura admiração mútua, desejo, respeito e transgressões, com tempo este órfão torna-se central na empresa, mas à distância o médico velho prepara o seu sucessor e sabe que só o seu educando pode ocupar aquele local e monta uma estratégia para o seu trabalho continuar.
A obra está escrita por vezes de uma forma crua, com  tons científicos de práticas médicas, noutros está cheia de ternura, numa mostra de relações humanas onde se cruzam questões éticas e os instintos íntimos, redigido de uma forma elegante. Para mim a personagem principal da obra não é o protagonista Homer, mas sim quem o criou.
Sim, gostei muito do romance, que até no amor entre personagens principais cria situações incómodas para os princípios éticos de uma relação familiar, de amizade e amorosa, além de outras situações que perturbam o leitor, é sem dúvida um grande romance, inclusive no tamanho (750 páginas), bem escrito, com ironia e amargura temperada com questões de ética, carinho e paixão, que recomendo a quem o preconceito não se sobrepõe à questão ética que a obra aborda.

sábado, 3 de junho de 2017

Os dias de Charlie nas Western Islands


Fui ao lançamento de mais um livro editado pelo Núcleo Cultural da Horta que tem em cooperação com vários historiadores publicado um conjunto de obras sobre o passado do Faial e várias outras ilhas dos Açores.
Desta vez temos uma edição epistolar bilingue, português e com o textos originais em inglês na segunda parte, com várias imagens da Horta do século XIX. 
"Os dias de Charlie nas Western Islands" tem como subtítulo " As ilhas do Faial e Pico na visão de um turista americano a meados do século XIX" corresponde a uma coletânea de cartas de um jovem americano que saiu de Havard para combater na guerra civil da América, onde se feriu e desenvolveu febre tifóide, pelo que a família, de estrato social elevado de Boston, o mandou para a Horta a fim de se reabilitar fora dos rigores do inverno na Nova Inglaterra.
Durante a sua estada no Faial escreveu diversas cartas aos familiares, onde não só narra a sua visão da vida de então no Faial e Pico, como os seus contactos com algumas das pessoas de maior craveira intelectual e social da cidade de acolhimento, nomeadamente o clã do Cônsul Dabney e elementos Arriagas, de onde saiu poucas décadas depois o primeiro presidente da república eleito de Portugal.
Assim, num trabalho de Ricardo Madruga da Costa, Carlos Riley e Isabel Albergaria, mais um livro acessível a quem domina apenas o Português ou o Inglês com um retrato destas ilhas quando o cosmopolitismo internacional era uma marca fortíssima que marcava a cidade da Horta.
O livro pode ser adquirido diretamente no Núcleo Cultural da Horta, a funcionar na Biblioteca Pública João José da Graça, ou através da internet no site deste núcleo aqui 

sábado, 27 de maio de 2017

Elegia para um Americano - de Siri Hustvedt

Nunca ouvira falar de Siri Hustvedt, mas ao ver elogios ao seu romance: "Elegia para um Americano", por gente que reconheço como exigente e apreciadora de boa literatura, esta escritora, cujo nome não soa a americano (descende de imigrantes da Noruega) e mulher do famoso Paul Auster, despertou-me curiosidade suficiente para ler esta obra e deparei -me com uma boa e original obra literária.
Erik, um psiquiatra de Brooklin a sair de uma situação de divórcio, após a morte do pai, de origem norueguesa, numa pequena cidade no Minnesota, descobre junto com a irmã notas e um diário deste; papeis que servirão para o conhecer melhor e deparam-se com a existência de um segredo antigo que com sua irmã tentarão descobrir. No regresso à NY, Erik na sua solidão recente,  aluga um anexo a sua casa a uma mãe jamaicana por quem começa a sentir-se atraído, esta tem uma criança que se aproxima dele, mas todos ficam sob pressão do pai de sua filha um artista fotógrafo.
A partir deste início há uma série de textos e análises psicológicas (não há capítulos) que ora são transcrições do diário (em nota final descobre-se serem mesmo reais e pertencentes ao pai da escritora recentemente falecido); ora são reflexões e descrições de aproximação à hóspede e das ameaça do fotógrafo; ora narrativas de situações sobre a instabilidade emocional da irmã: viúva de um escritor famoso e alvo de pressão com a descoberta de uma passada relação extraconjugal deste e existência de pessoas a pretender tirar proveito, enquanto, como mãe, tenta poupar a filha, uma adolescente que desperta para o mundo adulto e suas contradições; incluindo ainda exposições dos casos dos doentes psiquiátricos de Erik e dos aconselhamentos com colegas de profissão sobre a sua situação e ainda outros relacionados com a investigação do segredo guardado pelo pai.
Assim, em vez de uma trama linear, Siri Hustvedt cria uma árvore com múltiplas raízes e ramos que constroem uma unidade completa e onde se aborda os problemas da solidão urbana, das relações pais, filhos, esposos e complexos de culpa que se criam nestas uniões e desuniões; bem como as dores de crescimento humano que dão um retrato profundo da alma social e das pessoas.
Sou de opinião que só um excelente escritor consegue criar uma personagem completa e credível de sexo diferente do seu, mais ainda, como homem, sinto mais habilitado a reconhecer esta capacidade se estamos perante uma autora que cria um protagonista masculino com pormenores suficientes para o termos não só na imagem de macho em sociedade, mas o conhecimento do seu íntimo. Siri faz isto com uma perfeição e elegância a que não estou habituado, evidenciando que tem grandes méritos que fazem com que o dom literário se deva à sua genialidade e não à sombra da notoriedade do marido.
Não se trata de uma construção literária alegre, o próprio título em português e em inglês "The sorrows of an American" denunciam isso: a solidão individual atravessa toda a obra, bem como as dificuldades no relacionamento entre as pessoas e a compreensão do comportamento do outro, mas é uma magnífica peça literária cheia de conteúdo introspectivo sem facilitismos comerciais. Recomendo a quem gosta de um bom livro pelo seu valor literário.

sábado, 20 de maio de 2017

"A Falha" de Luís Carmelo


O romance "A Falha", do escritor Português Luís Carmelo, tem a particularidade de ser um livro onde o autor coloca na obra o seu saber profissional como professor de escrita criativa. Este livro, no interior de cada um dos seus capítulos, expõe estilos onde se descreve a ação na perspetiva de um observador exterior a esta, reflexões íntimas das personagens envolvidas na estória, com formas distintas em função da psicologia destas, abordagens críticas de um narrador conhecedor do pensamento das pessoas que integram a trama e ainda a textos que mostram formas de outras entidades apresentarem o que se passa na trama. Criando assim uma panóplia diversificada de géneros de escrita que enriquece a obra.
No que se refere à trama, esta começa com a apresentação e encaminhamento de sete personagens que se dirigem para Elvas para um jantar de colegas de liceu de há 25 anos atrás que se reúnem habitualmente a cada cinco anos e onde cada uma tem não só evoluções pessoais e marcas diversificadas em função do relacionamento com os seus companheiros de adolescência, amores, desconfianças, descobertas origens sociais distintas e evoluções de vida diferentes, bem como fruto do 25 de Abril, o que confere a cada uma um carácter muito próprio. Segue-se o encontro e refeição onde as tensões entre estas estão presentes e disfarçadas pelas regras de relacionamento social impostas na vida adulta complementada com uma atividade lúdica de uma prova de vinho e visita a uma pedreira onde um acidente os deixa encerrados no interior de uma caverna cuja necessidade de convívio numa situação extrema se torna numa abordagem psicológica intensa e acompanhada da incerteza de salvamento. Após o resgate bem descrito desenvolve-se uma análise temporal dos efeitos da crise em cada um deles e o modo como estes ultrapassam melhor ou pior aquele tenso momento.
A escrita mesmo diversificada é fácil, embora, por vezes, a mudança de momento, estilo e perspetiva da narrativa perturbe o leitor, mas mesmo sem considerar estilos de um génio literário, o livro vale não só por essa riqueza de formas, como o romance, além de momentos de elevada tensão, tem uma multiplicidade de características que alimentam o suspense que nos prende à leitura. A obra tem cenas muito cinematográficas que até levaram à sua adaptação a um filme dirigido por João Mário Grilo. Apesar de não ser uma obra premiada, considero-a de nível não inferior a muitas outras nacionais cujas críticas e as editoras publicitam com louvores intensos. Gostei.

domingo, 14 de maio de 2017

"Rebecca" de Daphne du Maurier


Li Rebecca", da escritora inglesa Daphne du Maurier, sobretudo para conhecer o livro que esteve na base do filme homónimo e uma da obras mais empolgantes do realizador Alfred Hitchcook que eu vira no cinema há umas décadas atrás e sabia muito ter gostado, mas já com poucas memórias da história. Algumas passagens do romance recordaram-me cenas do filme e inclusive certas memórias revelavam-me o evoluir de alguns momentos da narrativa, todavia, felizmente, nunca o desenlace final, o que permitiu manter o suspense até à última página.
A protagonista narra o modo de como jovem de companhia de uma velha rica e presunçosa conheceu num hotel de verão em Monte Carlo um inglês mais idoso, senhor de uma importante mansão e viúvo de Rebecca, uma mulher admirada pela sua beleza e vida social que morrera recentemente num acidente. O encontro entre os dois conduziu a um casamento repentino e ao choque da sua entrada numa nova vida na imponente residência de Manderley cheia de memórias da anterior mulher e onde a mordoma que criara e se afeiçoara à anterior dona alimenta um ódio à nova senhora sentindo-a como intrusa e usurpadora sem o nível da anterior. No seio destas dificuldades e insegurança da segunda Mrs. de Winter, narradas no início a um ritmo lento e nostálgico, um incidente traz ao de cima com grande violência e perigo dúvidas sobre as causas da morte de Rebecca que colocam em ameaça uma relação ainda cheia de incertezas de ser fruto de um amor correspondido e onde o fantasma da falecida parece vir vingar-se ao longo de uma investigação policial cheia de suspense até ao final.
O romance apresenta uma escrita muito feminina, cheia de sentimentos e pormenores dos espaços percorridos e situações narradas por um coração de mulher e essa forma sente-se não só na sensação de insegurança e lentidão de adaptação social na primeira metade da obra, como na força do companheirismo e do amor com que a ansiedade do suspense é combatida na segunda metade da obra face a todos os perigos que colocam em risco um amor que se descobre ser forte, apesar de uma sombra do passado que afinal era uma ameaça mas por razões bem díspares dos receios da segunda Mrs. de Winter.
Uma obra que junta romantismo, literatura policial e suspense brilhantemente escrita e estruturada, com um grande tempero feminino. Gostei e recomendo.

sábado, 6 de maio de 2017

"A Vegetariana" de Han Kang


Acabei de ler "A vegetariana" da escritora sul coreana Han Kang, romance vencedor do Man Booker Internacional Prize de 2016 onde na lista final também se encontrava o livro de expressão original portuguesa "Teoria Geral do Esquecimento" de J E Agualusa aqui abordado.
Estamos perante um romance que narra três episódios em torno de Yeong-hye, uma mulher sem nada de excecional que leva a sua pacata vida de casada numa normalidade obscura que de repente decide rejeitar comer qualquer alimento de origem animal, impondo tal disciplina em casa e encontra uma grande oposição de toda a sua família.
No primeiro relato, esta mudança de comportamento é vista pelo lado do marido que pede auxílio aos parentes da esposa para enfrentar a situação. O segundo relato decorre após o termo do primeiro e conta na primeira pessoa a atração e relação desencadeada no cunhado, artista que pinta flores em corpos nus com cobertura video desse trabalho, para com a figura central do livro, desenvolvendo-se então uma história em simultâneo erótica, sexual, imoral e também inocente. A terceira parte é a exposição da irmã que tenta salvar recém-convertida ao vegetarianismo, aquela analisa o que foi a vida desta, as atitudes de sobrevivência de ambas, o choque do comportamento do marido e a opção pelo tratamento psiquiátrico de Yeong-hye, com todas as consequências que daí resultarão face a uma mudança cada vez mais radical desta de unir-se ao mundo vegetal.
Não conheço a língua coreana para analisar como terá sido a escrita original de Han Kang, o romance resulta da tradução a partir da versão inglesa e em português transformou-se num texto claro, com frases elegantes e com um recurso escasso a floreados, apesar das flores serem muito importantes na obra. O início da obra é literariamente deslumbrante, depois perde alguma beleza face a uma violência psicológica e física que me surpreendeu, depois na segunda parte há uma conciliação entre beleza de escrita, erotismo, imoralidade e crueldade, sem o texto perder o seu carácter de obra de arte não pornográfica.
A terceira parte é uma narrativa deprimente de onde resultam mais questões do que ideias da escritora. Quais os limites das opções individuais sobre o uso do seu corpo e das atitudes de cada um? Pode um percurso imoral e de rejeição social ser o caminho para a salvação de alguém? Teremos o direito de comprometer o futuro de uma pessoa em nome dessa ética perante atitudes que não prejudicam terceiros? Gostei do romance, embora não seja uma obra que me tenha marcado especialmente, pois apenas levanta questões sem deixar mensagens claras. A opção do júri para dar a vitória a esta obra em detrimento da de Agualusa levanta-me dúvidas, embora a prefira a este livro de Ferrante que também gostei mas perdeu igualmente para "A vegetariana".

segunda-feira, 1 de maio de 2017

"A verdadeira vida de Sebastian Knight" de Vladimir Nabokov


O romance "A Verdadeira vida de Sebastian Knight" foi o primeiro livro deste famoso escritor e crítico literário russo: Vladimir Nabokov, que se exilou nos Estados Unidos após a revolução bolchevique, sendo este o primeiro livro que escreveu originalmente em inglês, idioma que adotou em definitivo para a sua obra posterior.
Sebastian Knight (SK) é um escritor de qualidade, de origem russa e radicado nesta cultura, mas depois naturalizado inglês pela origem materna e cuja língua seleciona para a sua escrita morre ainda jovem, então o seu meio-irmão do lado paterno, decide conhecer e fazer um livro sobre a sua vida, tendo em conta uma biografia publicada na qual ele deteta grandes discrepância face ao que conhece dele apesar de distante nos últimos anos.
Assim, inicia-se o relato da investigação sobre SK desde o seu afastamento, com as suas paixões, viagens e estilos de vida, tendo como fonte o conteúdo da sua obra, cujos enredos e estilo se vai expondo, e também fruto das memórias do irmão e de colegas, amigos e amantes que partilharam os anos da sua carreira na Inglaterra. Num jogo de espelhos entre o próprio Nabokov e SK, a obra evidencia o esforço perfecionista do escritor narrado e a busca de perfeição do real autor do livro, inclusive os paralelismos das dificuldades de alguém criado numa língua que quer ser perfeito noutra adotada, Vamos conhecendo personagens da bibliografia ficcionada de SK, as suas estórias, enquanto as fontes após uma aproximação que evidencia que se vai descobrir algo de importante sobre o falecido, depois, por um falso pudor intencional, não nos é revelado, deixando um conjunto de questões sobre quem foi de facto Sebastian Knight.
Nabokov é de facto um escritor dotado de uma magnífica escrita e busca a perfeição plena na construção do texto. No romance disserta sobre este objetivo e vês que quis edificar uma obra de arte literária e neste encontro entre a perfeição da escrita, da narração e da estrutura do romance edifica uma obra que é isso mesmo e quase se esgota neste domínio. A beleza está quase em exclusivo na forma, anulando-se na comunicação de ideias ou de outras questões para além do abstrato da arte de escrever. Gostei e para quem aprecia análise literária é uma pérola ficcionada no género.