sábado, 18 de novembro de 2017

"Não digam que não temos Nada" de Madeleine Thien


"Não digam que não temos nada" de Madeleine Thien, é um livro que se arrisca a ser para mim o melhor romance contemporâneo que li ao longo do ano, dada a trama, o retrato histórico, a interligação com outras formas de arte como a poesia, a música e a caligrafia chinesa, e ainda pela elegante e bela escrita.
Este romance foi vencedor dos prémios literários: Governor General Prize 2016 (o mais reconhecido no Canada), Giller Prize 2016 e Edward Stanford Travel Writing 2017, e esteve na lista final do Man Booker Prize 2016, o que evidencia a excelência da obra desta escritora chino-canadiana.
O romance começa com as memórias de Marie do tempo da fuga do pai, em 1989, de casa em Vancouver, um importante pianista chinês e seu posterior suicídio. Prossegue com o pedido de acolhimento da uma refugiada Ai-ming após a revolta da praça Tianamen em Pequim. Então com as desconfianças entre a criança e a jovem, começa a descoberta do passado que as une, pela leitura do capítulo 17 do Livro dos Registos: obra do tio sonhador desta que narra de forma livre, romanceada e em volumes soltos, a história do seu amor e das dificuldades e aventuras da família desde a segunda guerra mundial até ao presente passando pelas várias revoltas na China. Assim, descobrimos que o pianista foi aluno e admirador do famoso compositor pai de Ai-ming e colega da violinista Zhulli filha do sonhador; um grupo unido pelo amor à música, à literatura e de livre pensamento com os riscos que daí decorrem no regime chinês.
Recorrendo à intercalações de momentos no presente e em vários do passado, assiste-se à saga de três gerações de músicos e amantes de livros e seus amigos face às perseguições injustificáveis na implantação do comunismo, depois nos loucos abusos da revolução cultural e, por fim, na revolta do sonho estudantil em Tianamen, sempre a abrir feridas com as mudanças do mesmo tema: simbolizado pelas Variações de Goldberg de Bach e onde depois de rearranjos a ária inicial volta como um fadado regresso ao passado.
O romance está cheio de citações de poetas chineses, de referências a obras musicais do ocidente com destaque para Bach, Chostakovitch, Prokofiev, Tchaikovsky e Ravel, entre outros e a atmosfera de ternura e da importância da arte, incluindo a caligrafia do chinesa, atravessa toda a obra mesmo nos períodos mais duros desta história. Magnífico romance, com um relato de 70 anos da história da China embora possa ser um pouco difícil para quem não conheça as características das peças musicais tão abundantemente citadas, como esta do vídeo e com a referência precisa desta gravação.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

"A Mãe" de Maksim Gorki


"A Mãe" de Gorki é um romance que tem como inspiração uma perseguição real movida aos organizadores de uma manifestação do 1.º de Maio ainda na Rússia czarista no início do século XX e julgamento dos seus líderes, para assim apresentar o movimento clandestino de divulgação das ideias de luta de classes no seio dos operários fabris e dos agricultores (mujiques) através de uma rede de fornecimento de livros e jornais proibidos.
A obra centra-se numa mulher de meia-idade que depois de uma vida vítima de violência doméstica por marido alcoólico e frustrado devido ao trabalho, fica viúva e descobre no filho uma conversão à leitura, aos ideais revolucionários e participação num célula clandestina que progressivamente ela vai conhecendo e aderindo para se tornar numa importante ativista, onde descobre um conjunto de pessoas exemplares que agem na sombra ou até são presas sem nunca desistir.
A obra é marcadamente ideológica, raramente esta é dita de socialista e nunca comunista, a ideia é apresentada como a "verdade" e ou se está com esta ou com as forças opressoras que defendem os ricos capazes de tudo para a posse de bens.
O romance está bem escrito por vezes com uma frieza narrativa temperada de metáforas do neorrealismo e da propaganda. Há momentos onde as emoções da grande dureza das forças do Estado e o sacrifício dos oprimidos é intensamente explorada em contrapeso com o facto de no grupo os sentimentos serem abandonados em prol da causa que defendem, onde não pode haver sujeição ao amor, nem ao familiar.
Sendo uma obra anterior à instalação do comunismo na Rússia não se pode dizer que a esperança assumida pelo romance nesta causa que leva a justiça aos mais fracos omitiu o que de negro possa ter havido quando o regime foi depois posto em prática, revolução que faz hoje, por coincidência, precisamente 100 anos. Apesar do carácter propagandista gostei do romance e é de muito fácil leitura.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

"História do Mundo" de Andrew Marr



Eis um livro fora do campo da ficção, área que tem prevalecido neste blogue. "História do Mundo" de Andrew Marr é uma exposição da evolução da humanidade.
Começa com aquela Eva (não a bíblica, embora também aqui se especule) que acompanhou a primeira migração da humanidade para fora do berço africano que levou à expansão da espécie com os genes daquela mãe por todos os continentes da Terra.
Prossegue com o surgir da agricultura, das primeiras cidades como sociedades  organizadas e o surgir de civilizações em todos os cantos do planeta, descreve muitas suas características marcantes.
A seguir entra-se mais num rol de líderes de povos que foram desde heróis humanitários até agentes de terror, mas que moldaram o mundo global atual e termina com pormenores menos conhecidos do próprio século XX e volta a especular a partir de tendências de hoje em dia.
Não é um livro só com uma visão ocidentalista da história global. Nós somos frutos da miscigenação das culturas asiática, médio oriente e mediterrâneo, como Chinesa, Mongol, Indiana, Egípcia, Judia, Fenícia, Grega, Romana, Portuguesa, Espanhola Inglesa e Holandesa, etc. que deixaram marcas muito fortes à escala planetária, mas também somos resultado de civilizações quase esquecidas:  Etíope, Mali, Inca, Azteca e até de Aborígenes.
Houve guerreiros heróis pelas suas vitórias que espalharam o terror como Gengis Khan, Ivan o Terrível e derrotados que estiveram mais próximo de vencer do que de perder: Napoleão ou Hítler, mas é deste resultado final que se fala, mas também há heróis que venceram pela paz como Ghandi
Houve revoluções que para semear a justiça que cultivaram a injustiça e povos que se fecharam ao mundo e depois se abriram como o Japão que influencia o presente à escala global.
Houve gente que lutou pela igualdade e outros que apostaram na escravatura, mas que deu melhores condições que alguns que usaram pessoas livres na revolução industrial e neste confronto houve nações que o mundo ostracizou como o Haiti e outras que foram espoliadas de todo.
Há líderes megalómanos por orgulho e por amor, pessoas de onde brotaram religiões que ora libertam, ora escravizam e por vezes semeiam o amor, noutros o ódio.
O livro é uma história do mundo cheia de pessoas, informações, curiosidades, acidentes e incidentes que moldaram a Humanidade para quem gosta de saber como chegámos até ao presente não se limitando a uma visão ocidental.

sábado, 28 de outubro de 2017

" Grandes Esperanças" de Charles Dickens


O livro de Charles Dickens "Grandes Esperanças" que acabei de ler é considerado por muitos especialistas literários como a sua melhor obra, embora não seja a mais famosa, assim parti para o meu segundo livro deste escritor inglês do século XIX com grandes perspetivas, aliás este poderia ser a tradução do título original "Great Expectations". Como a maioria dos romances de Dickens, este também foi publicado inicialmente em folhetins nos jornais da época.
O romance narra na primeira pessoa vida do protagonista, Pip, órfão e criado desde muito novo com a irmã que o desrespeita e o seu marido ferreiro que lhe dá um grande carinho. Ainda criança cruza-se com um prisioneiro em fuga que o ameaça de morte e lhe pede comida e ele atende roubando em casa, aquele depois é preso mas fica-lhe na memória. Mais tarde é contratado para fazer momentos de companhia numa casa da cidade próxima, onde uma mulher rica, amargurada e isolada o deseja para divertimentos e onde conhece uma adotada de grande beleza, Estela. Na adolescência inicia a vida de aprendiz de ferreiro quando lhe é comunicado que alguém decidiu legar-lhe uma fortuna da qual ele só poderá aceder quando o seu benfeitor se apresentasse e interditando-o de investigar quem seria, mas teria de levar uma vida de rico e culto em Londres. A mudança alimenta as elevadas perspetivas que tinha desde criança, afasta-se dos seus bons benfeitores, inicia uma nova vida com novos conhecidos urbanos, ricos e pobre, cria novos amigos e mantém contacto com a família da amada até  conhecer quem sustentou a sua vida de fidalgo e então tudo muda, dá-se uma revolução de sentimentos com desprezo, ingratidão, amor e remorsos.
A obra está bem escrita e estruturada, é narrada ao estilo de cativar o maior número de leitores que compravam o jornal, recorre a técnicas que ainda hoje são comuns nas séries televisivas que rendem a história, com momentos de clímax de sentimentos, suspense policial, crítica social e moral, amores e ódios, é de fácil leitura, mas extensa para a complexidade da trama. Gostei, mas confesso que aprendi e vibrei mais com este livro que antes lera de Dickens.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

"JUDAS" de Amos Oz


Acabei de ler o segundo livro do escritor israelita Amos Oz e o meu primeiro romance dele: "Judas".
O romance passa-se em Jerusalém no inverno de 1959, onde um jovem, tímido e sentimental, a fazer uma tese de doutoramento sobre Jesus visto pelos judeus ao longo dos tempos, por motivo de desalento com o fim do namoro e dificuldades financeiras, decide abandonar a investigação e encontra um emprego de companhia numa casa com um idoso tagarela e uma viúva por quem se sente atraído mas inacessível. Neste trabalho Samuel terá tempo para refletir sobre o que o seu povo disse do que teria sido Jesus, mas também questionar-se sobre Judas, talvez o primeiro cristão de fé cujo seu papel na crucifixão teria sido para a glória do seu mestre e da qual saiu desiludido tornando-se conhecido como um traidor e ainda um peso para os judeus.
A intercalar as reflexões históricas e religiosas está o fio condutor da narrativa com a vida naquele inverno do jovem e as suas descobertas sobre o passado recente: o comportamento desastrado dele na sua atração por Atália, o jogo desta, as descobertas das perspetivas distintas em torno da criação de Israel pelo velho, o defunto marido e o pai da viúva e as desconfianças e ameaças árabes vistas no contexto da época mas que ainda hoje são atuais. Estes dois tempos entrecruzados no romance são sempre contados de uma forma introspetiva e serena, por vezes com um humor requintado e abordagens naturais a situações de algum anormalidade e com uma excelente escrita. Gostei muito mas não é um livro que desperte vibrações e emoções fortes ou suspense, pois reina ao longo de toda a obra uma calma e uma interioridade na forma de expor os acontecimentos e as reflexões mas que dá prazer apreciar o texto. 

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

"Os mandriões do vale fértil" de Albert Cossery


O romance "Os mandriões do vale fértil" do egípcio francófono Albert Cossery narra de forma irónica e sarcástica o estilo de vida de uma família que vive numa povoação dos subúrbios de uma cidade cujo pai incutiu nos três filhos o orgulho de ser de classe burguesa sem necessidade de trabalhar e a virtude que é passar o tempo a dormir sem necessidade de se misturar com a restante sociedade onde imperam os perigos daqueles que têm de trabalhar para sobreviver.
Assim conheceremos o filho que apenas acorda para comer e outras funções biológicas que ainda por vezes pede ajuda para não ter de sair da cama, o outro que desistiu do amor para que o descanso não fosse perturbado pela obrigação de chefe de família do terceiro que visita uma fábrica inacabada para justificar a impossibilidade de satisfazer a sua vontade de arranjar trabalho e as estratégias para impedir que o pai velho volte a casar devido às perturbações que tal traria ao ócio, bem como as pessoas que circundam este núcleo.
À semelhança dos dois anteriores que li, eis outra pérola literária, uma pequena obra com uma ironia requintada e inteligente onde a preguiça é elevada a um estatuto social só acessível a alguns perante a banalidade dos desprezíveis e perigosos humanos que têm de trabalhar. A obra ainda toca de forma sarcástica noutros comportamentos que a sociedade do politicamente correto contemporâneo sacraliza, tudo isto feito com um humor e qualidade de escrita e se percebe o grande prémio literário da francofonia pelo conjunto da obra atribuído pela França a este egípcio que preguiçosamente se estabeleceu por décadas num hotel de Paris. Adorei e não conseguia parar.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

"Humilhados e Ofendidos" de Fiódor Dostoiévski


Na generalidade as obras do escritor Fiódor Dostoiévski denunciam a injustiça social no mundo russo do século XIX através de uma reflexão e confronto entre modelos políticos de valores e ética tradicionais e outros revolucionários hedonistas de corte com o passado e ainda com a dialética filosófica entre crentes e ateus, criando narrativas tensas onde a maldade ou o oportunismo de alguns gera vítimas inocentes arreigadas aos seus princípios, sendo tudo isto temperado com dramas românticos com paixão não dominadas em personagens exemplares que ficam reféns de maquiavélicas conjuras. Assim estas obras  tornam-se manifestos e apelos de conversão da sociedade a um mundo mais justo e pleno moral.
"Humilhados e Ofendidos" é uma narrativa de um escritor prometedor em início de carreira e por isso tem algo de autobiográfico e é um romance que não se envolve em ideias políticas ou discussões religiosas que mais tarde caracterizam Dostoiévski, mas mantém a estrutura e o estilo básico dos maiores clássicos deste escritor, mostrando quão maus podem alguns ser, semeando dor, injustiça e destruição de paixões por mero egoísmo sobre outros mais fracos e honestos e quanto orgulho e os princípios de honra podem ainda ampliar estes efeitos nefastos em quem é ofendido e humilhado pelo mais forte e sem escrúpulos.
Assim, Humilhados e Ofendidos, sem deixar de ser um magnífico romance típico de Dostoiévski, é mais acessível ao leitor que se sente perdido em discussões filosóficas e ideológicas de outras grandes obras deste escritor, mas preserva o essencial: a luta entre o bem o mal que importa para tornar o mundo melhor.
Gostei muito e para quem nunca leu este autor e teme a complexidade dos conteúdos, este romance pode ser uma obra de entrada para abrir portas às maiores obras da literatura mundial escritas por Dostoiévski de quem sou um admirador convicto.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

"A Mulher-sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado" de Gonçalo M. Tavares


Acabei de ler o pequeno romance de personagens e acontecimentos do domínio do fantástico e dos mitos "A Mulher-sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado" de Gonçalo M. Tavares. Uma obra que ao longo de cerca de 150 páginas que encadeia personagens e situações irrealistas descritas como normais, mesmo que absurdas, deixando-nos como se estivéssemos numa banda-desenhada ou num sonho e onde os heróis não são necessariamente benéficos nem a sobrevivência ao serviço do bem. a
Alguns relatos com um toque de terror puro mas de tal forma estranho que se torna cómico são expostos de forma fria sem sentimentos mas narrados com uma naturalidade como se vivêssemos numa sociedade apática incapaz de se chocar e onde se cruza o mundo da tecnologia, as revoltas sociais e mesmo factos históricos
Escrita é perfeita, cheia de ritmo e da frieza que caracteriza Gonçalo M. Tavares nos seus livros negros, o que me desperta um prazer de leitura que pouco escritores nacionais são capazes de conseguir, embora a obra tenha soltas pistas de reflexão não é uma obra com mensagem para além do papel lúdico e da capacidade de expor a fealdade de situações com uma beleza estilística inigualável. Gostei, mas será uma obra estranha aos olhos de muitos leitores e como se assistíssemos por dentro a uma luta de anti-heróis num pesadelo que não assusta.

domingo, 1 de outubro de 2017

"O Colecionador de Mundos" de Ilija Trojanow

O livro "O Colecionador de Mundos", do Búlgaro refugiado na Alemanha que viveu na Jugoslávia, Itália, Índia e Quénia e presentemente na Austria e escreve em alemão: Ilija Trojanow, narra de modo romanceado três importantes ações da vida do militar, aventureiro, espião e diplomata inglês do século XIX: Sir Richard Francis Burton.
Como todas as obras históricas, o romance está amarrado no essencial aos factos então ocorridos, mas vale pela forma de os narrar e os floreados à sua volta, criando uma obra original, criativa, com a análise social do encontro de culturas (indiana hindu e muçulmana, árabe e africana) e juntando ficção à realidade dos acontecimentos.
O livro é composto por três momentos da vida de Burton, cada um exposto com uma dupla visão que se intercalam e se completam: primeiro o serviço na Índia com a descoberta do hinduísmo, do islão, o choque de culturas e a desconfiança entre povos e onde se conhecem as impressões do protagonista e a versão do chefe de criadagem, um natural local; depois a sua peregrinação a Medina e a Meca, haje ou hadj, disfarçado de muçulmano indiano e integrado numa caravana de povos a partir do Cairo, neste feito que chocou o islão vemos o relato de Burton e uma recolha de testemunhos de companheiros crentes na tentativa de julgar o sacrilégio do infiel; e por fim a expedição a partir do Zanzibar que levou à descoberta do lago Vitória e da nascente do Nilo narrada por ele e um escravo local libertado guia dos ocidentais.
Assim se revela a vida de uma lenda que até à sua morte levantou especulação de qual a sua verdadeira fé, o seu modo de ver o mundo, os povos e as religiões. Um livro muito interessante, cheio de ensinamentos culturais, história, aventura e excelentemente escrito. Recomendo.



quinta-feira, 14 de setembro de 2017

"A morte de Ivan Ilitch" de Lev Tolstoi


Não sei se "A morte de Ivan Ilitch" de Lev Tolstói é um grande conto, uma novela ou um pequeno romance, mas é uma excelente narrativa com uma magnífica reflexão sobre a vida que a generalidade das pessoas anseia levar.
No início sabemos da morte de Ivan com a leitura do jornal pelos seus colegas de trabalho no Tribunal e vemos a importunação que o facto provoca nos pretensos amigos, o incómodo de praticar certos atos sociais para o momento e o início da competição para tirar da situação oportunidades de carreira ou vaga para familiares. Depois, vem o enfado de visita fúnebre onde cada um tem uma estratégia para se libertar da situação e, perante o corpo de Ivan entramos na terceira parte do livro: o relato e reflexão na primeira pessoa do que foi a vida do morto, as ambições, as  hipocrisias sociais, os subterfúgios para ascensão na carreira, o pisar os outros até ao declínio final e a chegada do medo da aproximação da morte e a sensação de incómodo e desprezo dos mais próximos.
Ivan descobre no exame à sua vida aquilo que parece comuns a todos os humanos: a aparente subida na vida é uma descida cada vez mais vertiginosa, mas todos à volta caem neste engano e só descobrem isso tarde.
Apesar da hipocrisia social desnudada nas primeiras páginas e da descoberta da ilusão do que foram as conquistas da vida na segunda parte, a obra além de pequena, não é triste e a narrativa é de uma enorme beleza e sensibilidade ou não estivéssemos perante um dos maiores vultos da literatura mundial. Gostei muitíssimo e recomendo a qualquer leitor esta curta obra-prima.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

"Ao arrepio" de Joris-Karl Huysmans


O romance "Ao arrepio", por vezes traduzido por "Às avessas", é considerado a obra-prima literária de Joris-Karl Huysmans e a mais importante do estilo decandentista surgido em França no final do século XIX e terá influenciado Wilde para Dorian Gray. Apesar de revolucionário no estilo, é uma obra algo difícil pelo grande número de géneros culturais tratados e referências a autores e seus trabalhos.
Des Esseintes é o herdeiro de uma família nobre e heróis de França, mas de uma fragilidade oposta à dos antepassados Após o colégio religioso de classe entra numa vida de prazeres à sombra da riqueza, desfrutando tudo o que a sociedade lhe pode oferecer, até sentir o declínio do mundo que o cerca. Decide então afastar-se e criar numa casa o seu mundo-museu, cerca-se de tudo o que admira para fugir à realidade e entrar no ideal que lhe traga as recordações que valoriza e admira. Assim, desde o estudo das cores dos aposentos, complementada com gemas numa tartaruga para efeitos de luz; passando pela dissertação da biblioteca de clássicos da Roma decadente; continua pela descrição de quadros e de artistas contidos nas divisões; analisa a adequação das flores do jardim para criar cenários idealizados; ensaia  aromas que geram atmosferas e lembranças; disserta sobre músicas de excelência da história e critica os escritores seus contemporâneos. Tudo isto sempre com profundidade, algum sarcasmo e indolência final. Existem momentos de uma riqueza descritiva geniais e outros surpreendentes que se arrastam até um final não menos imprevisto.
Após o romance um prefácio do autor escrito 20 anos depois, onde disserta sobre o conteúdo do romance, o seu impacte no meio cultural de Paris, até o conflito que gerou com Zola, e aponta as sementes que o levaram em seguida não só à sua conversão ao catolicismo, como os pontos desenvolvidos nos seus posteriores romances, como a personagem Durtal de "Além" que aqui falei.
Apesar de por vezes ser fastidioso nas descrições e da letargia com que Des Esseintes se reveste, gostei muito da obra, contudo a bagagem informativa e os aspetos culturais focados não a tornam fácil a um leitor ávido de desenrolares rápidos e narrativas simples dos momentos, um livro diferente entre tudo o que já li.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

"O Homem Domesticado" de Nuno Gomes Garcia


"O homem domesticado" do português Nuno Gomes Garcia mostra uma distopia que veio instalar na Europa, mais intensamente em França, após uma catástrofe "O Grande Flagelo" que matou a maioria dos homens e em menor escala as mulheres, só que as deixou na generalidade inférteis, e com chegada à Presidência de Marine (suspeito que este e outros nomes não são casuais na obra) onde se construiu uma sociedade com reprodução humana artificial, não uterina e com a geração de machos homogeneizados, submissos ao domínio absoluto da mulher. Após se compreender o modelo social, um acontecimento violento transforma transforma a narrativa quase num policial, onde deduções certas e erradas da estória e justificação política terão a explicação até ao final.
Ao contrário de outras distopias recentes, onde pelo exagero se denunciam tendência e riscos em que a sociedade pode cair, casos de "Submissão" de Houellebecq ou de "Oryx e Crake" de Atwood; Gomes Garcia cria uma realidade distinta da atual, embora sem ignorar ideias atuais, como considerar estereótipos de género não naturais certas características de feminilidade ou masculinidade, preconceitos de que a violência social com origem só no homem, optando assim por um estilo muito mais próximo de Huxley em O Admirável Mundo Novo ou "A Ilha". 
Contudo, ao contrário de muitas distopias que li, onde é evidente a mensagem subjacente, a ideia a passar em "O Homem Domesticado" é algo dúbia. Tanto pode chocar para levar à reflexão sobre certos preconceitos machistas através destes machos completamente submissos onde o papel na sociedade se limita ao estereótipo ultrapassado da mulher como mera serva do homem e até publicamente oculta através com a burka, aqui na versão cache-tout para os machos; como pode ser o de satirizar a ideia supremacista da superioridade da raça branca, loura e de olhos azuis aqui bem degenerada; ou de evidenciar que os atuais defeitos da sociedade não resultam da predominância do homem nos lugares de poder, pois a mulher é bem capaz de criar um sistema opressivo, violento e ditatorial onde a justiça é subjugada ao objetivo político ou até denunciar tiques másculos de extrema-direita em Marine Le Pen. Quem sabe se não será tudo isto em simultâneo?
A escrita é clara, com poucos floreados poéticos como em muitas distopias, sem excluir algum recurso a metáforas e comparações estilísticas para a embelezar literariamente. Um livro fácil de se ler, para alguns terá momentos chocantes, mas não me marcou com a intensidade dos romances do mesmo género e acima citados.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

"Três Tristes Tigres" de Guillermo Cabrera Infante


Há livros que são uma biblioteca e o romance "Três Tristes Tigres" de Guillermo Cabrera Infante é de facto uma louca adição de estórias, textos de géneros distintos, miscelânea de línguas, charadas de palavras, experiências de escrita e dissecação de vocábulos e pronúncias, mecanismos de destravamento ou travamento linguístico e tal como explicado inicialmente, o bom seria ler em voz alta para melhor entender toda a riqueza fonética ali contida. Tudo isto tem como pano de fundo a vida noctívaga de Havana no tempo de Batista pouco antes da revolução cubana sem qualquer preocupação ou censura moral.
A obra é narrada essencialmente a partir de três personagens maiores: um fotógrafo, um ator radiofónico e um escritor, com a ensombração de um poeta prestidigitador das palavras e de uma cantora cuja a voz e o corpo formariam um monumento gigante, devidamente secundado por toda a panóplia de personalidades que animam a noite boémia: músicos, coristas, prostitutas, homossexuais pessoal de bares, cabarés e restaurantes numa promiscuidade cujas combinações são impossíveis de quantificar, a que se associa de forma intercalada uma voz singular perante o seu psiquiátrica.
Os Três Tristes Tigres são uma enciclopédia da cultura ocidental: tanto musical erudita e popular latinoamericana; literária com citações e deformações e reescritas dos mais diversos escritores e provérbios universais e do saber dos filósofos, havendo uma parte onde se destacam autores cubanos e ainda ao nível do cinema norteamericano sobretudo das décadas 1930/40 e 50, todavia a obra não tem uma linha continuada da estória.
Após uma apresentação dos debutantes que serão reexpostos depois no livro que poderemos redescobrir a quem correspondem, acompanharemos a vertiginosa vida de um fotógrafo encantado com uma cantora, assistiremos períodos de engates entre o ator radiofónico na companhia dos seus amigos escritores e músicos, como veremos em imitações de escritores cubanos várias versões em torno da morte de Trotsky, para passar por um período louco de palíndromes, jogos numéricos, dissecações e transformações de um poeta cuja "deficiência" do cérebro descoberta em necropsia justifica a causa da genialidade de deformação das palavras e da linguagem, para se avançar para um dia louco de reflexões existenciais que se prolonga por numerosas páginas até um epílogo que mais não é que outro trabalho de escrita.
Um livro único do mesmo ano de "Cem anos de solidão", que por vezes com tanto exercícios de escrita pode cansar, noutros divertir o leitor, mas sobretudo é um trabalho que prova que já tudo parece ter sido inventado antes de Saramago, Llosa e outros revolucionários da escrita e da loucura narrativa terem transformado a literatura contemporânea.
Apesar de tudo, para quem não se deixa entusiasmar por estes ensaios de escrita, Três Tristes Tigres pode ser uma obra fastidiosa, ininteligível e desesperante, mas é uma obra-prima para quem gosta mesmo de literatura como arte de saber trabalhar as línguas, as letras, a sintaxe e os sons que a escrita tentam transpor para o papel e sendo um castelhano, suponho que grande parte da dinâmica linguística pode ser bem aproveitada pelo tradutor que seguramente se viu perante um trabalho hercúleo para colocar tal monumento em Português.

sábado, 26 de agosto de 2017

"O Ruído do Tempo" de Julian Barnes


Acabei de ler o "O Ruído do Tempo" do escritor inglês Julian Barnes. Um romance que tenta expor os prováveis receios e complexos de consciência da vida da personagem histórica Shostakovitch (Chostakovitch), o compositor erudito mais famoso que viveu e compôs sempre sob o regime soviético sem nunca tentar fugir do País e alvo de enormes pressões para que as suas obras obedecessem às diretrizes do PCUS.
O livro dá destaque às atitudes de Shostakovitch no período de terror de Estaline e depois nas reviravoltas da época de Kushchev e como terá sido usado como exemplo da supremacia artística da União Soviética pelos dois líderes.
A obra é escrita numa sucessão de textos, como bilhetes postais, onde Julian Barnes vai mostrando a biografia de Shostakovitch em peças soltas que se colam e montam a vida deste, as suas relações com mulheres, os casamentos e as suas ideias musicais e sociais avançadas cercada pela cobardia de as pôr em prática. Exibe ainda as suas eventuais reflexões e exames de consciência. Um momento chave é quando ainda jovem vê a sua grande ópera após um sucesso estrondoso na União Soviética e Mundo ser ostracizada pela crítica, que pode ter sido escrita por Estaline, e o leva a optar por não dormir e a esperar a sua prisão e morte à porta do elevador para a família não assistir.
"Ser herói era muito mais fácil do que ser cobarde. Para ser herói só é preciso ser bravo por um momento... ...mas ser cobarde era embarcar numa carreira que durava toda a vida. Nunca podíamos descansar."
A partir de então toda a sua vida foi sobreviver com a sua cobardia e continuar a compor pretendendo agradar ao sistema para ser ouvido e com medo de pôr as suas ideias na música, em paralelo renega artistas que admirava ou heróis de resistência. Chega a assumir discursos discursos que não escreveu e opiniões que nem concordava no País e no Estrangeiro e quando da abertura do regime uma nova humilhação que não previra.
Há escritores que produzem obras-primas de literatura sendo originais e bons em estilos e géneros diferentes, depois de "O sentido do Fim", que li este ano, agora outra obra-prima nada semelhante à anterior. Um texto com uma dose contínua de ironia, por vez sarcástica, bem redigido e num estilo brilhante, Julian Barnes é um escritor que quero continuar a ler e descobrir o que já publicou ou venha a publicar.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

"Terra de Neve" de Yasunari Kawabata


Acabei de ler o pequeno romance ou novela, "Terra de Neve" do escritor japonês e vencedor do prémio Nobel da literatura Yasunari Kawabata. 
A obra narra uma relação amorosa entre um homem casado de Tóquio, sensível, estudioso de teatro, música e dança que visita anualmente uma termas de montanha na época da neve, aonde vai mantendo uma ligação com uma gueixa que por ele se apaixona, igualmente culta e sensível.
A estória é descrita com metáforas originais para um ocidental, onde a pureza envolvente desta terra de neve, misturada com a loucura deste amor sem futuro de uma pessoa singular, levam à criação de um texto literário com imagens e referências de grande beleza poética e cores que lembram um quadro nipónico original, entretanto, vão sendo destiladas informações do estilo de vida oriental, alguns dos seus costumes, arquitetura, mobiliário e até tecidos japoneses.
Gostei e é sem dúvida um texto que permite o encontro e compreensão de culturas oriente no ocidente, com uma fórmula que para mim é única até ao momento, apesar de não ser uma simples narrativa ou com um tom a que estejamos habituados nestas culturas dos continentes que bordejam o Atlântico.

domingo, 20 de agosto de 2017

"Terra Abençoada" de Pearl S. Buck



Acabei de ler "Terra Abençoada" de Pearl S. Buck, escritora norteamericana galardoada com prémio Nobel da literatura.
A estória passa-se na China no rural, distante dos grandes centros e deduz-se que deve ter início no final do século XIX e estende-se por várias décadas e embora se fale de uma revolução não é claro que seja a comunista, apesar de algumas das ideias emanadas por esta por vezes transpareçam na narrativa.
Wang Lung um pobre filho de um pequeno lavrador solicita ao pai que lhe arranje uma mulher, sem defeito, não bela e trabalhadora para o ajudar no seu sonho de se tornar proprietário de terras e lhe dar filhos. É-lhe então entregue uma escrava da casa senhorial mais importante da cidade próxima. Enquanto ele trabalha arduamente, compra terras, a companheira servilmente o ajuda e lhe dá filhos, tornando-se num pequeno caso de sucesso, mas vem uma seca e emigra só não volta a encontrar meios para melhorar-se, regressa com a família e vários acasos transformam-no num dos homens mais ricos da região e ele procura criar a sua dinastia alicerçada nos filhos homens numa sociedade onde as mulheres são vendidas e mais não são que meras reprodutoras, concubinas ou servas, por isso não admira que arranje outras nestas condições para sua casa e honrar o seu nome e assim o seu sucesso sempre ligado ao amor à terra e ao trabalho e em desprezo pelas mulheres serve para conhecermos a vida rural e a mentalidade daqueles tempos na China.
A narrativa é feita numa linguagem simples, fácil como de um relator que conhece os pensamentos das suas personagens mas não julga procedimentos, mesmo que choquem os ocidentais, a obra torna-se num primeiro volume de uma saga que noutros romances relatará a vida das gerações seguintes e foi um grande sucesso de vendas em meados do século XX. Gostei, não me fascinou a escrita, mas aprende-se muito do que era a China num passado pouco antes de se tornar na República atual.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

"Reino do Amanhã" de J. G. Ballard


Terminei a leitura do "Reino do Amanhã" do escritor inglês J. G. Ballard, uma distopia que evidencia os risco presente de escravatura e de ditadura que pode resultar da combinação do consumismo atual com o desporto interesseiramente organizado nas comunidades, neste caso a região suburbana de Heathrow - Londres, onde apenas há valores para uma sobrevivência oca e materialista sem as referências coletivas tradicionais.
Na sequência de um tiroteio num megacentro comercial em Brooklands é morto o pai de Richard Pearson, um publicitário recém-despedido e este desloca-se à periferia onde descobre um aglomerado habitacional descaracterizado cuja vida se desenrola em torno da autaestrada e das grandes superfícies comerciais: "uma estação de serviço junto a uma estrada com duas faixas de rodagem imprimia um sentido de comunidade mais profundo que qualquer igreja ou capela, uma maior consciência de cultura partilhada do que uma biblioteca ou uma galeria municipal poderiam oferecer... ...o estacionamento estava prestes a tornar-se uma das maiores necessidades espirituais da população britânica."
Na cidade, Pearson descobre o mal-estar do subúrbio, aproveitado pelo Metro-Centre com publicidade incutida à população articulada com equipas desportivas suportadas por aquele templo do consumo e geradores de uma violência oca e xenofobia em espiral crescente e onde o pai ora pareceu uma vítima ora uma peça eliminada quem fomentava uma revolução e guerrilha em Brooklands.
Pearson decide mudar-se e investigar o fenómeno e a morte, alia-se tacitamente ao Metro-Centre e, numa evolução do vazio, a loucura da ditadura consumista instala-se como uma nova religião, extrema-se em revolta com exércitos civis em defesa do seu deus comercial e um Estado sujo que procura conter uma situação descontrolada.
A obra evolui para uma tensão extrema e denuncia a violência das periferias urbanas, torna-se sombria e repetitiva na demonstração exaustiva da semelhança entre os crentes desta nova religião do consumo com o desporto organizado através dos seus símbolos e ritos paralelos às fés tradicionais... mas "As pessoas são capazes da mais maravilhosa demência." uma obra atual da sociedade numa evolução mais sombria que a do "Admirável mundo novo" de Huxley. Um romance, com uma escrita crua, por vezes ácida, que incomoda pela denúncia do caminho que estamos a seguir. Um alerta contra a alienação em que o ocidente consumista está a cair.