terça-feira, 22 de maio de 2018

Mordomo das Festas do Espírito Santo

As coroas em 2012

Já várias vezes falei neste blogue da maior festa religiosa tradicional dos Açores, comum a todas as ilhas do Arquipélago que se realiza sempre no domingo de Pentecostes (50 dias após a Páscoa): as festividades em louvor do Divino Espírito Santo, mas que duram três dias no Faial, Pico e São Jorge e que há década têm oficialmente associado, na segunda-feira, o dia da Região Autónoma dos Açores.

Foto de grupo como mordomo em 2012

Sendo uma celebração religiosa de raiz popular, esta tradição de séculos tem como cerne o culto do Espírito Santo, simbolizado por uma coroa encimada por uma pomba, sendo os festejos organizados por irmandades de leigos, cuja sede se chama império, com os seus estandartes e bandeiras. O elemento que num dado dia assume a organização do festejos chama-se Mordomo, nesta terça-feira de 2018 assumo eu esta tarefa em representação de minha mãe, as celebrações, além de atos litúrgicos como missa e procissão, envolvem distribuição de esmolas, organização de uma refeição de sopas de caldo de carne e pão (Sopas do Espírito Santo), arroz doce e outras iguarias típicas, além de atividades lúdicas organizadas pela direção da irmandade.

Refeição em 2012 na irmandade do Império Amarelo da Ribeirinha

No histórico de Geocrusoe encontrarão muitos outros posts sobre esta celebração de séculos que os Açorianos já exportaram para o Rio Grande do Sul e Santa Catarina no Brasil, Nova Inglaterra e Califórnia nos EUA, Ontário e Colúmbia Britânica no Canada, entre outras partes do mundo. Se quiser saber mais consulte aqui símbolos, aqui sopa, aqui estandarte, aqui ritos religiosos, aqui impérios, aqui lendas. Pode igualmente clicar na etiqueta "Espírito Santo" onde haverá mais dissertações sobre o tema.

sábado, 12 de maio de 2018

"A Ilha do Doutor Moreau" de H. G. Wells


Excertos
"No entanto sabia que, se toda aquela dor estivesse a ser experimentada no aposento ao lado por alguém sem voz, acredito que poderia conviver com ela. É somente quando a dor alheia é dotada de voz e põe os nossos nervos à flor da pele que a piedade brota dentro de nós."

"Suponho que existe algo na forma humana que atrai a nossa mentalidade artística de modo mais poderoso do que uma forma animal qualquer. Mas não me restringi a produzir humanos."

"O tipo de inteligência que consigo em geral é de nível muito baixo."

Confesso que durante anos não li "A ilha do Doutor Moreau" de H. G. Wells por pensar que estaria perante uma obra juvenil, erro meu. Esta obra pode de facto ser lida de forma limitada como uma estória simples ou resultar numa adaptação ao cinema acéfalo dos efeitos especiais que despertam emoções sem regar a razão, mas o texto e a trama do livro inclui grandes reflexões ao nível de questões de ética na investigação científica e os riscos que a humanidade pode correr se a sua curiosidade não for temperada pelo bom-senso.
Como pessoa formada em ciências, este romance alerta que o querer saber e experimentar deve ter limites deontológicos. O primeiro excerto que acima publiquei aponta também para outro problema do comportamento do homem perante o sofrimento da humanidade e a sua consciência.
Após um naufrágio, o protagonista relata como foi salvo e despejado numa ilha onde um cientista obsessivo leva ao extremo a tentativa de transformar animais em humanos. Claro que esta aberração quando implementa só poderia levar à catástrofe e Wells é um escritor genial em contar histórias enquanto põe o leitor a refletir sobre a ética em ciências.
Tratando-se de uma obra anterior à descoberta da genética, a ferramenta encontrada para alcançar o fim pretendido parece-nos hoje arcaica, mas com manipulação de genes ou formas para o homem criar uma biodiversidade ao seu gosto de criador as questões de ética são as mesmas e são estas que saltam junto com a aventura do nosso náufrago.
Um livro muito fácil de se ler devido a uma narrativa límpida, elegante e descritiva sem recurso a grandes criatividades de escrita que perturbem o desenrolar dos acontecimentos e as reflexões são feitas de uma forma tão bem enquadra no evoluir da história que não dificultam a leitura. Gostei muito espero ainda ler mais obras deste escritor e um dos pais da ficção científica que vai além do entretenimento.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

"Obra Reunida" de Juan Rulfo


Excertos
"Esta aldeia está cheia de ecos. Parece que estão fechados no interior das paredes ou por baixo das pedras. Quando andas, sentes que vão pisando os teus passos. Ouves estalidos. Gargalhadas. Umas gargalhadas já muito velhas, como estivessem cansadas de rir. E vozes já gastas pelo uso."
in Pedro Páramo, novela.

"San Gabriel sai do nevoeiro húmido de orvalho. As nuvens da noite dormiram sobre o povoado procurando o calor das gentes. Agora está para sair o sol e a névoa levanta-se devagar, enrolando o seu lençol, deixando fios brancos em cima dos telhados. Um vapor cinzento, apenas visível, sobe das árvores e da terra molhada atraído pelas nuvens;..."
in "Na madrugada", conto.

"Quem exercia este ofício era Dionisio Pinzón, um dos homens mais pobres de San Miguel del Milagro. Vivia numa casinha do bairro do Arrabal, na companhia da sua mãe, enferma e velha, mais pela miséria do que pelos anos."
in O galo de ouro, novela.

O mexicano Juan Rulfo é considerado o pai do estilo realismo mágico da América Latina e o escritor que segundo Gabriel Garcia Marquez (GGM), mais o terá influenciado. Este livro, além um um preâmbulo de GGM, junta três obras deste escritor: as novelas "Pedro Páramo" e "O Galo de Outro", bem como o conjunto de contos publicados sob o título "A planície em chamas" ou "O Llano em Chamas". No fundo o conjunto da sua produção literária que abandonou a sua criação no auge do seu sucesso.
A primeira novela é de facto surpreendente, narra a vida de Pedro Páramo, o homem forte numa terra rural onde ele põe e dispõe de tudo e de todos, inclusive das mulheres e das vida e propriedade dos homens de forma incólume, entretanto na sua vida há uma paixão marcante que no seu domínio totalitário teve de esperar décadas para ser atendida. A história é contada como memórias e vozes de consciência dos colaboradores, das vítimas e até dos lamentos dos mortos, expostas de forma dispersa, sem uma sequência cronológica nem respeito pela continuidade da trama, misturando situações díspares, o real e o mágico para no fim se completar o quadro num estilo de escrita que é de facto ímpar e literariamente de uma riqueza difícil de explicar.
A seguir seguem-se vários contos pouco extensos e passados na planície semiárida do interior do México, com momentos da guerra dos cristeros, outros de vinganças, outros de amores que dão um ideia do que seria a vida no coração profundo do país e distante dos centros urbanos, normalmente pautado pela pobreza e desolação, só que todos eles são magnificamente escritos.
A última novela conta a vida de um indigente desprezado por todos que de pregoeiro toma conta de um galo de combate derrotado e ferido e o torna num vencedor, então começa a sua peregrinação onde encontra uma mulher cantadeira que lhe dará a sorte e o azar do futuro da sua vida. Novamente o realismo mágico impõe-se associado a uma escrita de um génio.
Gostei do livro e tal como Gabriel Garcia Marquez se deixou maravilhar por Juan Rulfo, vale a pena conhecer esta genialidade, cujas obras se limitam a poucas centenas de páginas brilhantes, felizmente aqui reunidas, embora também existam em separado. Soube-me a pouco o que de facto este mexicano legou à literatura latinoamericana, pena não haver mais obras.primas de Juan Rulfo.

terça-feira, 1 de maio de 2018

"Pão com Fiambre" de Charles Bukowski


Excertos
"A primeira criança da minha idade que conheci foi no jardim de infância. Eram todos muito estranhos, riam e falavam e pareciam felizes. Não gostava deles."
"O primeiro livro de jeito que encontrei foi de alguém  chamado Upton Sinclair. As frases eram simples e falava com raiva. Escrevia com raiva. Escreveu sobre os matadouros de Chicago. Dizia as coisas de forma clara e sem artimanhas."
"..., aprendi que os pobres serão sempre pobres. Que os ricos quando lhes cheira a pobre ainda se divertem com isso."
Acabei de me estrear no escritor que classifico de contracultura: Charles Bukowski, através do seu romance, tido como autobiográfico, "Pão com Fiambre", no Brasil "Misto Quente" e no original "Ham on Rye", onde se narra a infância e juventude do seu alter-ergo que surge em vários das suas obras, a personagem Henry Chinaski.
Henry, nascido na Alemanha nos anos 1920 cresce desde muito criança num bairro pobre de Los Angeles, com um pai autoritário, violento e incompreensivo das necessidades do filho, que impede até a sua integração social, e uma mãe submissa. A crise financeira arrasa a comunidade com desemprego e miséria. Na escola reinam os maus resultados de estudos, o ambiente é de guerra dos fortes e Chinaki sente-se rejeitado. Mesmo assim, luta para sobreviver, tentando tornar-se forte e vencer nesta luta diária.
Na adolescência um acne descomunal afasta-o das mulheres e da escola, tem uma sexualidade frustrada e terá a descoberta do gosto por escrever, mas o álcool e a violência juvenil continua a marcar o seu dia a dia. Ingressa na Universidade por falta de outras alternativas... sai de casa quando o pais espia os seus escritos duros que não poupam ninguém. Esta também foi, na generalidade, a vida de Bukowski antes do sucesso que mais tarde alcançou num género muito próprio.
O segundo excerto acima é também a característica geral da escrita do livro, com um humor ácido e delinquente, por vezes com recurso ao calão e à brejeirice grosseira, típica de meninos de rua e famílias disfuncionais. Ao contrário de Kerouac, não há drogas além do álcool e tabaco.
Apesar de amargo, gostei, não deixa de ser uma obra que dá conhecimento de uma realidade difícil e violenta de muitos estratos desfavorecidos da população urbana, exposta de uma forma crua, dura, por vezes grosseira, mas numa feita de uma forma divertida.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Biografia de "Pierre Elliot Trudeau" por Nino Ricci


Foi a leitura deste livro de ficção de Nino Ricci que me despertou interesse em ler outras obras deste escritor e comecei pelo género biografia, neste caso com um ebook, em inglês e referente à vida do primeiro-ministro mais emblemático da história do Canada: Pierre Trudeau, pai do líder do atual Governo Federal Canadiano Justin Trudeau.
Nunca lera biografias não ficcionadas, o presente livro/ebook é a história e a análise da vida de Pierre Trudeau com destaque dos aspetos mais marcantes que mudaram a sua forma de pensar, bem como as suas atitudes e decisões públicas que moldaram o Canada contemporâneo.
Filho de uma família conservadora católica de Montreal, Pierre foi educado num colégio religioso para famílias abastadas que induzia nos seus alunos a cultura francófona e o catolicismo como marcas de identidade nacionalista do Quebec para deste modo abrir uma frente ideológica de combate a facção anglo-saxónica e protestante minoritária na província mas fortemente maioritária e dominante ao longo de todo o País. Assim surge um jovem preparado para o combate separatista, ultraconservador e manipulado religiosamente que se alia a movimentos deste cariz e por vezes de cariz até fascista.
É este Pierre que depois vai estudar em Havard, Sorbonne e Londres e descobre uma realidade exterior ao seu meio fechado e retrógrado, contacta então com ideias diferentes, por vezes mesmo radicais de esquerda e passa a assumir-se como cidadão do mundo, fortemente influenciado por vários líderes filosóficos que lecionavam por onde passara. Por opção sua, vai à descoberta de outros países interditos ao seu mundo colegial: União Soviética, China e regressa mudado à sua cidade.
Pierre, uma esperança para o movimento elitista e separatista, de repente assume a defesa de mineiros numa greve, é ostracizado pelos influentes, funda um jornal onde expõe ideias revolucionárias como a não entrada do Estado na vida privada dos cidadãos, aproxima-se do partido federal liberal, é admirado por governantes de então e mais tarde lidera o partido e chega a Primeiro-ministro. Promove então uma revolução cultural e abre uma frente em prol do federalismo que entre em guerra direta com os mais aguerridos secessionistas francófonos, católicos ultraconservadores.
O líder do País, já de meia idade casa com uma jovem que por sua vez é alvo das revistas de socialite, o que perturba a estabilidade do casal e faz tremer ideias conservadoras por uma atitude extrema sua. Trudeau muda a constituição do Canada, assume o bilinguismo oficial e o multiculturalismo, reforça o papel social no Estado, ganha eleições, perde, volta a ganhar, mas a sua marca humanitária e de união são a referência do Canada contemporâneo.
O livro está brilhantemente escrito, de fácil leitura e por vezes é mesmo emotiva a forma como Nino Ricci expõe os dilemas ideológicos dele e da época, religioso e libertário nas várias fases da vida de Pierre Trudeau, tornando esta biografia cheia de vida, o que justifica o sucesso que foi o livro no Canada, apesar do seu  género literário. Gostei muito, o ebook pode ser acedido aqui.

terça-feira, 24 de abril de 2018

HAG-SEED de Margaret Atwood - Semente de Bruxa


Excertos
"How he has fallen. How deflated. How reduced. Cobling together this bare existence, living in a hovel, ignored in a forgotten backwater; whereas Tony, that selfpromoting..."
"The Tempest is a play about a man producing a play - one that's come out of is own head, his 'fancies' so maybe da fault for wich he needs to be pardoned is the play itself."

Acabei de ler no original o romance "Semente de Bruxa" da famosa escritora canadiana Margaret Atwood: "Hag-seed". A leitura desta obra imediatamente a seguir à de "A Tempestade" de Shakespeare que falei aqui foi intencional pelo conteúdo da mais recente. Pois este romance integra um projeto que envolve vários importantes escritores convidados anglo-saxónicos de produzirem obras tendo como referência peças Shakespeare. A Atwood coube precisamente A Tempestade.
No romance, Felix, o diretor de um festival de teatro, vê o seu cargo usurpado por uma pessoa de confiança, Tony, e retira-se para a sombra da sociedade, algo semelhante acontecera a Próspero, o protagonista de A Tempestade, na usurpação do seu ducado. O antigo diretor concorre mais tarde para um curso de literatura numa prisão, um meio reabilitação social dos presos, no que coloca Shakespeare no centro das suas aulas, até que surge a oportunidade de se vingar dos usurpadores que no exterior brilham após o terem pisado e faz isto precisamente através da encenação da peça de que fora injustamente demitido, dá-se então uma  fantástica e dupla recriação paralela da história narrada pelo inglês com a vida das personagens do romance, onde se evidenciam os dotes dos detidos que na realidade são capazes de operar maravilhas sob a liderança de um diretor artístico como Felix.
A imaginação de Atwood no encenar e no comparar situações entre a montagem da peça e vida dos artistas é genial, criando uma trama divertidíssima, cheia de paralelismos e de mensagens subliminares ao nível do papel cultura na reabilitação das pessoas. O livro retoma os dilemas entre vingança e perdão e ainda a demonstra que Shakespeare se mantém atual, sendo que as descrições psicológicas das suas personagens já com séculos podem perfeitamente retratar pessoas de hoje.
À semelhança do livro que antes lera, também após a conclusão da narrativa de A Tempestade, há, mas aqui dentro do romance, um análise sobre as possibilidades de continuar a história após o epílogo da peça.
Um romance satírico que denuncia vícios sociais e políticos atuais, mostra o papel formativo da cultura, fácil de ler e que numa apreciação da obra resumo:  Brilhante, magnífico e adorável!


segunda-feira, 23 de abril de 2018

Dia Mundial do Livro 2018 - Os meu preferidos de um ano de leituras

Anualmente, nesta data do ano costumo publicar a minha lista daqueles que foram para mim os melhores livros em várias categorias de um ano leitura. Assim desde de 23 de abril de 2017 até hoje, mesmo sem a presunção de considerar que esta lista é indiscutível, eis a minha opinião pessoal à data da escolha, a lista de obras lidas estão todas em postas desde então e os vencedores de 2018 são:

Melhor livro de literatura escrito originalmente em Português

Trabalhar a língua explorando as suas versatilidades e sonoridades, ter uma mensagem importante, ser original na narrativa e ainda ser de fácil leitura a qualquer leitor não é uma combinação frequente; Julián Fuks, apesar da origem não lusófona, domina o Português e coloca estas características em literatura como poucos escritores da língua de Camões têm sido capazes, o seu herói e irmão adotado, com todas os dilemas que tal coloca no seio da família e do próprio, é o melhor tributo a todas aquelas pessoas que estenderam as mãos a crianças que precisavam de um pai e de uma mãe na verdade e não apenas pelo sangue. A posta dedicada a este romance aqui.

Melhor livro de literatura e escritor do Canada

Esta categoria é devido a ser o Canada o meu País natal e raramente corresponde à edição de uma obra em português, pois por norma opto por ler a literatura Canadiana no original, mas o contacto com esta obra, apesar de premiada no Canada, foi primeiramente por cá e nem sabia que era de uma escritora do meu país natal. O tema interessou-me, a saga de sobrevivência uma família de artistas na China, onde a música erudita estava no cerne da história, decorre longo de mais de meio século, permite-nos compreender a vida dos cidadãos no país mais populoso do mundo, escrito num estilo poético de rara beleza e cheio de referências a várias obras-primas da música ocidental, uma obra-prima que disserta sobre outras obras-primas, com destaque para a música erudita e nos dá uma lição de história da maior nação da Terra. A posta aqui.

Melhor livro de literatura de escritor de Portugal

Nesta escolha tive de me questionar se era válido selecionar um livro difícil para o comum dos leitores e a resposta foi sim, isto se a obra tem mérito pela técnica de escrita, pela inovação da narrativa e pelo conteúdo. A Brecha reúne tudo isto e nada contou o facto do autor ser Açoriano, narrado de múltiplas formas e a ideia de pôr os mortais a abater deuses, seres superiores a nós, para colocar o Homem dono das suas decisões e responsável único dos seus atos, dada a forma como foi contada, torna-o numa obra de arte e é assim que esta dá passos em frente, não morre e ainda põe-nos a refletir, pode ver a posta que lhe foi dedicada aqui.

Melhor livro do ano

A escolha mais difícil até porque não gosto de optar por um vencedor das outras categorias, os quais por si também poderiam figurar neste espaço. Assim, a solução foi por um livro que pode ser um romance fácil ou difícil conforme se opta por o ler e tem orientações de leitura para os dois casos no próprio livro, sendo que na fácil é uma história de uma paixão numa sociedade em mudança na década de 1960, um excelente retrato de época transparece em torno deste amor livre, enquanto a via difícil, bem mais extensa tem tudo isto e ainda uma grande análise sobre o que é a literatura, discussões filosóficas, choques culturais e escrita e muita narrativa criativa. A posta dedicada à obra está aqui.

domingo, 22 de abril de 2018

22 de Abril - Dia Mundial da Terra

Para que não esqueçamos: planeta Terra só há um, o nosso e mais nenhum, cuida dele como o teu tesouro mais precioso, pois não há um sobressalente se o inutilizarmos.
Imagem Wikipedia

A Terra já assistiu a várias mudanças substanciais globais provocadas por motivos vários o que levou sempre à extinção das espécies dominantes de então, assim a história da Terra deixa claro, se mudarmos o nosso planeta hoje intensamente a espécie que deverá desaparecer é a nossa, a do Homo sapiens.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

"A Tempestade" de William Shakespeare e "O Mar e o Espelho" de W H Auden


Excerto de A Tempestade

"Sebastião: Lembro-me que destronastes o vosso irmão Próspero.
António: É verdade.
               E reparai como as vestes me assentam bem.
               Muito melhor que antes. Os vassalos do meu irmão eram então meus companheiros, e
               agora são meus servos tributários."

Um livro com duas obras relacionadas, uma de teatro: "A Tempestade" de William Shakespeare, a outra a seguir: o poema e texto "O mar e o Espelho" de W H Auden que acrescenta mais um episódio à peça anterior.
A Tempestade mais não é que um ato mágico que se abate sobre o navio onde viaja o rei de Nápoles e seu filho, bem como o usurpador do ducado de Milão e o irmão de rei, além de outros elementos da sua corte, fazendo-o encalhar precisamente na ilha onde o usurpado mágico, o Duque Próspero, está exilado com sua filha. A partir daqui, num confronto entre os planos traiçoeiros de subordinados ambiciosos e ingratos para com quem os governa e o plano organizado pelo verdadeiro duque de Milão, com a ajuda de alguns entes sobrenaturais, com o fim de os maus serem desmascarados e os bons reabilitados, desenvolve-se numa paródia moral, da luta entre o bem e o mal.
Ao contrário das tragédias mais conhecidas de Shakespeare, aqui não há mortos e a magia interfere no desenrolar da ação de uma forma direta, criando-se uma história fácil e agradável, mas onde as personagens de comportamento más e boas têm uma força dramática que as tornaram referências culturais na literatura.
A tradução desta peça foi precisamente feita por vários atores portugueses para ser representada numa das principais companhias de teatro de Portugal, criando um compromisso entre o estilo arcaico sob a técnica do verso e a arte dramática na atualidade. Gostei do texto e muito desta obra, que embora sem a popularidade de certas tragédias, mostra a grande capacidade de Shakespeare em fazer retratos psicológicos dos dramas da sociedade e denunciar o mal que as afeta.


Excerto de O Mar e o Espelho
"Se a idade, que é certamente
Tão retorcida quanto a juventude, parece mais sábia,
É porque a juventude ainda está apta a crer
Que vai levar a sua de qualquer modo, enquanto a idade
Sabe bem de mais que já levou o seu nada:"

W H Auden é um poeta inglês naturalizado americano que inclusive trabalhou texto para óperas de Stravinsky, que escreveu temas de religião e moral num modo moderno.
Esta sua obra "O Mar e o Espelho" começa com uma série de poemas, cada um recitado por uma das diferentes personagens de "A Tempestade" e desenvolvem um ato a seguir ao epílogo da peça original, a viagem de saída da ilha, com reflexões sobre a moralidade e o comportamento dos intervenientes do drama, poemas que gostei e fazem refletir sobre a anterior de Shakespeare.
A seguir existe um conjunto de textos de Ariel, o principal ser sobrenatural de A Tempestade, que confesso: pelo estilo de escrita, densidade e não sei se defeito de tradução, me levaram a desistir de ler. Saturavam-me antes de perceber o conteúdo. Valeram os poemas que enriqueceram o livro em muito.

A publicação deste livro, apesar de ser e de já estar em segunda edição, tem-se esgotado com rapidez, talvez por pessoas que tenham assistido à peça ou optem pelo conjunto, apenas o encontrei neste momento disponível neste endereço da Bibliografia Nacional Portuguesa

sábado, 14 de abril de 2018

"Pátria" de Fernando Aramburu


Excertos
"Dizer-te que peço desculpa, mas que não posso te cumprimentar porque isso me iria trazer problemas. Mas se te vir na rua quero que saibas que te estou a cumprimentar em pensamento."

"A mim mandam-me executar um fulano e eu executo seja quem for. A sua missão não era pensar nem sentir, mas sim cumprir ordens. Os que depois criticam não entendem isto."

"Pedir perdão exige mais coragem do que disparar uma arma, do que acionar uma bomba. Isso qualquer um faz. Basta ser jovem, crédulo e ter o sangue quente."

"Não estarás a insinuar que a paz está em perigo porque a viúva de um assassinado vem passar umas horas a sua casa?"

"Pátria", do hispano-basco Fernando Aramburu, foi um livro que antes de estar traduzido já eu estava ansioso por ler. É um retrato das tensões sociais ao longo de décadas entre gente amiga numa povoação onde todos se conhecem no País Basco sobre a pressão do terrorismo separatista da ETA, entra ainda uns anos pós acordo de paz já no século XXI, mas em que as feridas ainda sangram. Um romance que tem sido um sucesso editorial em Espanha, mesmo agora sobre pressões secessionista na Catalunha.
Miren e Bittori foram as maiores amigas desde a infância na sua terra nos arredores de San Sebastián, ambas casaram e suas as famílias continuaram a partilhar a mesma amizade e cooperação, até que um dia o filho de uma se torna membro da estrutura terrorista da ETA, depois o marido da outra é ameaçado e mais tarde assassinado, isto numa terra onde todos se conhecem, os jovens convivem  em grupo e a pressão separatista considera inimigo quem não assume a defesa desta guerra.
A narrativa vai-se completando com as descrições de cenas passadas ao longo de décadas, onde de coabitam os encontros/desencontros, o amadurecimento das amizades/inimizades, o domínio do medo/preconceito com a opção pela sujeição à pressão ou pela tentativa de ultrapassar, o crime, as vítimas e as feridas sangrantes com a benção de uma igreja comprometida.
A escrita é muito fácil, por vezes com um narrador externo omnisciente e sarcástico que nos dá a conhecer os sentimentos dúbios, frequentemente encadeados como no parágrafo anterior, que une a hipocrisia das situações com a realidade oculta. Outras vezes é tenso, contudo, mesmo nos momentos mais violentos, não é agressivo, pois há sempre um tempero que não ultrapassa uma certa sobriedade e distanciamento de forma ao leitor sentir os vários aspetos em conflito sem tomar uma opção inequívoca por uma das partes, mas sem desculpar culpados.
Adorei o livro e li-o de rajada, recomendo a qualquer leitor pela sua facilidade de leitura e retrato real do que é uma sociedade extremada que se deixa dominar pela violência que impede de ouvir o outro de quem é amigo apenas por já não haver condições sociais de conviverem com a diferença, mesmo que esta seja simplesmente não estar assumida ou não fazer parte dos objetivos.

domingo, 1 de abril de 2018

"A Estrada Subterrânea" de Colson Whitehead


Excertos
"Saíra da escravidão ou fora apanhada na teia desta: como descrever a situação de um fugitivo?"
"Os brancos punidos segundo a nova legislação eram simplesmente enforcados, mas não ficavam em exposição.... Quando vasculharam as cinzas da casa, não conseguiram distinguir o seu corpo do daqueles que protegera, porque o fogo apagara as diferenças de pele e tornara-os todos iguais. Assim penduraram os cinco corpos no trilho e ninguém reclamou pelo facto de o protocolo não ter sido respeitado."
"O mundo pode ser mau, mas as pessoas não têm de o ser, pelo menos se recusarem tal sina."

Por norma evito livros de ficção sobre a temática da escravatura nas Américas e do genocídio nazi, não para ignorar tais factos ignominiosos da história, mas sim por que sinto que mais do que sarar feridas de erros do passado, abrem mais vezes ódios raciais e servem de desculpa a erros do presente. O recente mui premiado romance "A Estrada Subterrânea" de Colson Whitehead, incluindo o National Book Award de 2016, aborda a escravatura, mas é, sobretudo, a narrativa da fuga de uma escrava do sul esclavagista dos Estados Unidos, a Geórgia, até ao norte, onde tal situação já então terminara no século XIX.
Cora, a protagonista, na sua viagem - onde o fantástico está presente em vários momentos do livro, como a estrada subterrânea que mais não é do que uma ferrovia escavada para apoio à libertação ou os médicos cientistas que usarão medidas de controlo de natalidade com técnicas sem ética, mas típicas de épocas mais tardias - passará por vários Estados: Carolina do Sul, do Norte, Tennessee e Indiana, e em cada um deles encontrará uma realidade diferente. Haverá sempre alguém a ajudar, por vezes com objetivos ocultos, mas o ódio da supremacia branca ou o medo do domínio preto acabará sempre por vencer e levar a situações de perseguição. Paralelamente, seremos apresentados à realidade em torno das personagens da sua raiz, daqueles que lhe deram a mão ou que a perseguiram e assim se vai retratando todo o mundo social que oprimia, mantinha ou lutava contra a escravatura naquela primeira metade do século XIX.
Pela tradução, nada a destacar da escrita, banal. A obra não sara feridas, mas também não abre, lê-se bem, por vezes é agradável, noutros choca, mas a esperança praticamente está sempre a iluminar a obra e o amor pela leitura é um dos aspetos mais positivos do livro e é uma maneira menos comum de tratar o tema escravatura.

sábado, 31 de março de 2018

FELIZ PÁSCOA

Festejando com fé ou por tradição a todos desejo um excelente período Pascal

FELIZ PÁSCOA

A celebração da passagem dos judeus pelo Mar Vermelho 
na evolução da
celebração da passagem de Cristo morto à VIDA


Ressurreição de Cristo por António Leitão
(1575/80 - Vila Nova de Foz Coa)

sábado, 24 de março de 2018

"Os despojos do dia" de Kazuo Ishiguro


Excerto
"Certamente só pode ser um «grande» mordomo aquele que está em condições de apontar para os seus anos de serviço e dizer que empregou os seus talentos a servir um grande cavalheiro - e, através dele, a servir a humanidade."

Há vários anos recomendaram-me "Os despojos do Dia" como uma prova da excelências da literatura japonesa. Anotei, o tempo passou e não comprei, até que o último Nobel atribuído a Kazuo Ishiguro me levou à compra e então deparei-me com um livro sobre a sociedade conservadora inglesa, narrado pela personagem mais obsessivamente britânica que li até hoje e numa escrita magnífica, sem artificialismos estilísticos, mas de uma beleza pura que confere um equilíbrio difícil de encontrar num texto das memórias e ideias preconcebidas de um mordomo sobre a sua profissão.
Stevens sente que está a cometer pequenos erros profissionais desde a mudança para o seu atual patrão, um norteamericano que comprou a residência de lord Darlington, a quem ele sempre servira como mordomo até à morte daquele. Ao aperceber-se da tensão, o novo proprietário que pretende ir por uns dias aos Estados Unidos recomenda-lhe uma viagem para espairecer e conhecer a Inglaterra. Setvens que tem em mente aventurar-se a contratar uma ex-governanta que lhe escreveu, aceita a recomendação e faz uma viagem de uma semana até à cidade da antiga colega, ao longo desta reflete sobre o que são os deveres profissionais de um grande mordomo, como foi a sua vida ao entregar-se ao distinto lord, recorda outros que optaram por aproveitar a sua vida, enquanto ele cumpria servir alguém em quem pôs todas as suas esperanças para através dele estar ao serviço do mundo, só que que ao logo da deslocação vai-se apercebendo de falhas neste processo, vai encontrando gente que lhe desperta para outras realidades e descobre a beleza do mundo que o rodeava e desconhecia. Um verdadeiro exame curricular sobre a validade da sua vida e da sua forma de pensar.
A partir desta história fica claro que Ishiguro, filho de japoneses, nascido no Japão e imigrante na Inglaterra desde os 5 anos, é um escritor inglês, talvez o único aspeto nipónico neste livro é descobrir que a cultura conservadora inglesa e japonesa compartilham a sobriedade no mostrar os sentimentos, no falar e no agir em sociedade e ambos têm a obsessão dos rituais de pormenores no mais diversos atos comuns do dia a dia e nisto este livro é também uma mostra genial do que é ser"british".
Uma reflexão psicológica sobre o sentido da vida, mas relatada de uma das formas mais belas que li em literatura, com momentos onde o choque de sentimentos com o dever desrespeita a humanidade que há em cada um em nome de uma pretensa perfeição de saber estar em sociedade. Um livro de uma grande beleza e subtileza. 

domingo, 18 de março de 2018

"Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina" de Mário de Carvalho

Excertos

"E a simpleza repugna aos portugueses. Deixar alguém na despreocupação? A fruir dos seus direitos? Isso é antilusitano."

«Ora aí está, aquela minha ideia do geólogo é que era. Isto não há nada como as ciências exactas,»

"Lá em baixo, na paisagem, incrustada na duríssima permanência das coisas, onde só mandam castelos, menires, cromeleques, destoa, azulínea, e sobressalta, com transparência, a piscina modernaça e tratada a poder de fluidos caros e especiosos."

O título do livro "Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina", prémio PEN clube de 2003, do escritor português, várias vezes premiado, Mário de Carvalho, já de si indicia que não se está perante uma obra de estilo tradicional, de facto, o autor classificou-a não de romance ou novela, mas de um cronovelema e, segundo ele, o termo é algo que "não rejeita nada e não se sujeita a imposições".
O texto é mesmo uma narrativa que flui naturalmente como um rio de humor agridoce que se encadeia na mudança de narrador, de tempo e de espaço, corre na terceira pessoa ou na primeira, por vezes é meramente descritivo, noutras são diálogos e onde a língua Portuguesa é explorada com uma riqueza vocabular enorme, ora num estrutura gramatical de excelência, mas vai da erudição ao calão, outras desce ao linguajar popular e no desrespeito pelas regras, a roçar o realismo mágico, e lá se vai construindo uma estória que mostra um Portugal sem disfarçar os seus defeitos e vícios comuns.
A trama do livro, numa paródia intercalada de reflexões críticas a Portugal e suas gentes, consiste na existência de dois coronéis reformados que recuperaram casas de campo no Alentejo, um decide ter uma piscina em torno do qual se reúnem e falam das aventuras dos seus tempos de guerra, para obtenção de água contratam um jovem vedor, mestre de xadrez, que nestas funções deambula pelo sul do País onde se depara com vários tipos de aventuras e peripécias no seu carro que chega a ser anfíbio, enquanto o seu tio lhe dá conselhos de macho apesar das suas relações complicadas com mulheres. Por sua vez, as esposas dos militares encontram-se ávidas de aventuras, uma invejando a outra nas suas conquistas, enquanto um filho leva uma vida a fazer graffiti numa caravana, sem dinheiro e no desprezo aos rigores castrenses, tudo isto vai-se cruzando e sendo observado por um mocho e um melro que a tudo assistem e comentam de uma oliveira e acrescentam ou cortam o seu ponto.
Como todas as paródias, o humor atravessa o texto, mas a sátira mordaz aos aspetos da vida do País deixa um sabor agridoce, que o fantástico, que por vezes entra, não apaga. Gostei, este cronovelema, num estilo tão distinto deste romance, mostra bem a versatilidade de Mário de Carvalho, um mestre genial da escrita e da língua Portuguesa e esta capacidade tornam este livro numa obra de arte e um desfile de possibilidades de explorar e tratar o idioma lusitano.

quinta-feira, 15 de março de 2018

"O Jogo do Mundo" (Rayuela) de Julio Cortázar


Citações
"Para que é que serve um escritor senão para destruir a literatura?"
":o juízo que o Rei pronuncia não é o seu, mas o teu. Julgas-te a ti mesmo sem o saberes."

Eu sabia que "O jogo do mundo" do argentino Julio Cortázar, à semelhança do desenho do jogo desafiante mostrado na capa do livro que nos punha a saltar de "casa" em "casa" e surge na estória, era um romance que recomendava saltar entre capítulos, isto numa sequência de leitura diferente das narrativas habituais noutra obras, só que este livro é bem mais complexo do que os meros saltinhos do jogo da macaca (rayuela em castelhano da Argentina ou amarelinha no Brasil).
A trama está relacionada com um grupo de artistas e pensadores estrangeiros "refugiado" em Paris do final dos anos 1950, quando esta cidade ainda era considerada o centro do pensamento e das artes mundiais. Neste grupo, o intelectual Horácio Oliveira, argentino, desenvolve uma paixão por Maga, uma uruguaia de pouca culta cuja ignorância desperta reações várias no grupo que se reúne numa tertúlia de reflexão "Clube da Serpente", que discute pintura, filosofia ocidental existencialista e tibetana, jazz e, claro, literatura. Uma ocorrência grave levará não só à fuga de Maga, como à exclusão de Horácio e ao seu desnorte em busca dela, o que o leva de regresso à Argentina para junto de gente de um circo ao lado de um manicómio, aí a mulher do seu melhor amigo torna-se obsessivamente numa réplica de Maga com toda a tensão psicológica deste jogo.
Cortázar escreve não só o romance, que ocupa quase os dois primeiros terços do livro (cerca de 400 páginas), por vezes divertido, mas também tenso, como também expõe em mais do terço final uma reflexão sobre a literatura, a arte e o existencialismo, tanto através de discussões das personagens da própria trama, como também com recursos a pequenos textos de um escritor, Morelli que se cruza com os da primeira parte e cujo seu espólio é acedido por eles.
Cortázar leva-nos através de uma tabela guia, associada aos capítulos, a saltitar da narrativa romanesca para outros da última parte, isto numa sequência que parece ilógica, mas que está profundamente estruturada e onde se descobrem os escritos de Morelli que fala da desconstrução da literatura, da necessidade de o leitor não ser um mero elemento passivo da obra, bem como, se acede a pretensos excertos de outros textos de origem diversa a que se adiciona ainda reuniões do clube da serpente a refletir sobre tudo e mais alguma coisa dispensáveis à trama.
Cortázar não deixa de ensaiar escritas criativas, com estilos variados em função dos diferentes autores dos capítulos por onde se saltita e no fim fecha-se o ciclo de um romance muito mais vasto que uma simples estória.
Gostei muito, custou-me a ambientar inicialmente no que parecia caótico, mas depois vibrei e tornou-se numa experiência inesquecível, recomendo apenas a leitores não passivos que gostam de ser desafiados pelo escritor... mas dá para ler sem o saltitar no que será uma experiência muito menos intensa deste livro.

quinta-feira, 1 de março de 2018

"O Banqueiro Anarquista" de Fernando Pessoa


Citações
"Ora o que é um anarquista? É um revoltado contra a injustiça de nascermos desiguais socialmente"

"Quem tem só esta vida, quem não crê na vida eterna, que não admite lei senão a Natureza,... ...por que carga de água é que defende o altruísmo e o sacrifício pela humanidade, se o altruísmo e o sacrifício também não são naturais?"

"O Banqueiro Anarquista" é um dos textos famosos de Fernando, aliás penso que tudo dele é famoso e bom. Assim, após me cruzar com uma divulgação deste texto num blogue, que sigo recentemente, lembrei-me que o folheara poucos dias atrás e decidi conhecer o meu poeta de eleição como contista.
Num jantar de dois amigos, o narrador decide questionar o banqueiro rico sobre dizerem que ele fora anarquista, ao contrário do que a sua profissão e estatuto indicaria. O banqueiro não só confirma o passado, como confessa ainda o ser e de levar esse espírito à prática mais do que os defensores típicos da causa. A partir daqui, o banqueiro irá fundamentar as suas razões, a coerência da sua situação e todo o historial que o levou ao seu sucessos no respeito da ideia que defende.
Fernando Pessoa desenvolve assim, ao longo de várias dezenas de páginas, um conto com uma evolução dialética de forma socrática liderada pelo banqueiro, mas onde ele próprio aponta o que parece incoerente, em seguida refuta e evidencia a lógica do seu raciocínio, que depois o amigo narra.
Um texto filosófico, inteligente que se torna divertido com as ironias e críticas subliminares aos defeitos e vícios da sociedade que então se confrontava entre a mentalidade burguesa, o marxismo e a terceira via do anarquismo.
Bem escrito, argumentado e uma pérola que recomendo a todos os leitores que gostem de debates inteligentes e de bom humor. Adorei.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

"Os Navios da Noite" de João de Melo

Citações
"O pior de todos os cegos  será sempre aquele que, podendo olhar a luz e a beleza encantada do dia, só quer ver a noite do mundo, o fundo escuro das águas, os abismos invisíveis do mar."

"Não existe nenhum tempo fora daquele que vivemos; nem um destino diferente do nosso."

Já há várias décadas que não regressava a João de Melo, talvez o escritor açoriano vivo de maior projeção literária. Antes, lera-o em magníficos romances de seu quase início de carreira e, agora, voltei a ele num outro género em que ele muito publicou: contos; com um livro recente já em estado adiantado do seu longo currículo literário "Os Navios da Noite".
O livro contém 18 contos, metade não muito curtos, onde a memória de acontecimentos sofridos pelos protagonistas das histórias deixaram memórias e marcas como navios.
Há muito que não lia João de Melo, notei, pelo menos em relação entre as obras lidas, uma evolução na escrita, agora parece-me mais simples e realista, antes sentia uma auréola barroca e rebuscada de que não desgostava, mas são ambas elegantes e poéticas.
João de Melo nalguns destes navios aparece desiludido com Portugal e os Portugueses, é quase um misantropo nacional, provavelmente fruto da crise que o País atravessava quando a escrita da obra escrita, embora o conto da prisão do Governo e Presidente por venda do País em prejuízo do Povo tenha ironia inteligente e bom humor.
Noutros contos há ternura ou amargura em tom de reflexão individual, nestes, por vezes, parece existir um desequilíbrio entre a dimensão da narrativa, o tempo para o seu desenvolvimento e o despertar do interesse para o seu conteúdo.
Assim, houve contos que gostei, como o do cego na minha ilha do Faial, o das reflexões sobre o Génio de Aladino, os de ternura familiar e o do regresso de Eça de Queirós a Lisboa, embora a mordacidade dele surja mais amarga em João de Melo do que no do século XIX, mas de outros contos que gostei menos e até houve alguns que até me desagradaram. Valeu pela visita ao autor por ter ficado a curiosidade de verificar como envelheceu nos romances mais recentes e compará-lo com um dos primeiros reeditado e reescrito que me falta ler.