domingo, 23 de abril de 2017

Dia Mundial do Livro - Os meus preferidos de um ano de leituras

23 de abril comemora-se em Portugal o Dia Mundial do Livro, em Geocrusoe não costumo fazer a apreciação das minhas leituras anuais no dia de ano novo, mas sim nesta data e como sempre a escolha não é fácil e é função das marcas que as obras deixaram em mim, bem como as categorias são função do tipo de livros que li.


Mais Apreciada Leitura de obra Portuguesa


Não foi fácil a escolha entre este magnífico texto literário "Húmus", de Raul Brandão, e a pérola estilística de "O que diz Molero", de mais fácil leitura e igualmente original. Todavia, apesar de Húmus não ser de fácil, antes pelo contrário, é de uma perfeição de escrita e com profundidade de reflexão e abordagem filosófica que não poderia deixar a obra para trás em nome de uma facilitismo comercial que doentiamente me parece estar a degradar hoje em dia a literatura nacional. Um pequeno volume, mas um enorme livro.


Mais Apreciada Leitura de obra Lusófona

"A república dos sonhos", de Nélida Piñon, corresponde a uma saga familiar bem escrita que atravessa quatro gerações de uma família, das quais três na condição de imigrantes galegos que servem para contar não só os sonhos de quem escolheu o Brasil como sua pátria, lutou por ser alguém aos olhos dos outros ou na sua forma de ser e se confrontou com os obstáculos da integração mas também para analisar mais de meio século de história do país de acolhimento com todos os seus defeitos e virtudes e crises políticas, regimes democráticos e ditatoriais. Extenso, mas sem dúvida um bom livro.

Mais Apreciada Leitura de obra Original em língua estrangeira

Foi sem dúvida a escolha mais difícil, havia vários romances possíveis, alguns de laureados com o Nobel, mas a riqueza de informação neste livro sobre a vida da população urbana nigeriana, a caracterização da integração da emigração atual africana nos Estados Unidos e Reino Unido, além do facto de ser uma obra que mostra que na atualidade ainda se escrevem grandes e bons livros, pelo que ainda há esperança na continuação da literatura, incluindo a partir de países de grande dificuldade social e pouco admirados no ocidente, levaram-me a selecionar "Americanah" de Chimamand Ngozi Adichie.

Mais Apreciada Leitura de obra Canadiana


Apenas li três obras canadianas, "The origin of species", de Nino Ricci, foi lida na língua original  e ganhou GG prize do Canada em 2008. É sem dúvida um excelente romance que mostra muito do que é a vida multicultural do meu país natal, onde também ocorrem desencontros pelas diferenças, buscas de identidade e do significado da vida nesta biodiversidade de povos que segue muito das mesmas regras materializada na teoria da evolução de Darwin. Uma obra que me despertou interesse em ler outros título do autor e por isto eleita nesta categoria.

sábado, 22 de abril de 2017

22 de abril - Dia Mundial da Terra

Vulcão do Pico visto da Ribeirinha, Faial

Porque a Terra é a nossa casa comum, este Planeta é único e este Astro é lindo, temos de o preservar para que a sua diversidade biológica e geológica persistam em equilíbrio entre o seu sistema ambiental e o Homem.
O blogue Geocrusoe, como tem sido tradição, comemora o Dia Mundial da Terra e, como Geólogo, desejo a todos um dia feliz e responsável para com o nosso Planeta.

terça-feira, 18 de abril de 2017

"A um deus desconhecido" de John Steinbeck



"A um Deus desconhecido", do norteamericano laureado com o Nobel John Steinbeck, é um romance onde, além da ligação do agricultor à terra e das suas dificuldades de sobrevivência face à insegurança dos seus rendimentos e à dependência dos caprichos meteorológicos que habitualmente é abordado em muitas obras deste escritor, mergulha também nas raízes religiosas do homem colocando em confronto visão vertical do cristianismo com a os antecedentes animistas que explicam o equilíbrio da produção agrícola com uma perspetiva horizontal do espírito que atravessa todas as coisas da natureza.
Joseph Wayne de uma quinta do leste dos Estados Unidos sonha com uma nova herdade na Califórnia cuja terra está aberta à ocupação de novos exploradores, pede a benção ao pai para cumprir este objetivo que no ocaso da vida lha concede e promete estar sempre a acompanhá-lo de cima depois da vida o deixar. O protagonista parte para o oeste, adquire um prometedor campo, tem conhecimento de histórias de secas passadas, encontra indícios de cultos índios à fertilidade da terra e encanta-se com uma árvore na qual sente expressar-se toda força da vida do vale. A morte do pai leva os irmãos a se juntarem à exploração marcada pelo sucesso.
A visão de fanatismo religioso de um dos irmãos e as preocupações de um padre face os sinais animistas levam a que a sua árvore seja abatida e desde de então tudo declina: a seca, a fome a miséria, a migração, mas Joseph resiste no terreno que assumiu proteger, nem que para isso tenha de se tornar no sacerdote capaz de oferecer o supremo sacrifício a esse deus que dá a vida à terra.
Steinbeck para mim é o escritor que melhor mostra o modo como o agricultor vê o campo, a paisagem e interpreta o sinais meteorológicos e descreve a atividade da agricultura tradicional e a vida rural na primeira metade do século XX, fazendo tudo isto com uma escrita perfeita, plena de beleza e de metáfora originais e este romance cria imagens que são quadros perfeitos neste domínio. A temática saudosista de uma crença abandonada mas em pleno equilíbrio com a natureza em choque com uma fé contemporânea desenraizada da terra na alma de um agricultor leva a uma história onde o misticismo e as dúvidas sobre o espírito que controla o mundo atravessam toda a obra como uma luta entre o racionalismo, a religião, a ternura pelo que nos rodeia e o amor sob a a dureza da vida rural. Um pequeno romance que é uma pérola literária.

sábado, 15 de abril de 2017

"Bíblia" Na nova tradução de Frederico Lourenço - Cristo Ressuscitou!


Não importa se a tradução é do grego, canónica ou não, em todas elas, incluindo nesta tradução dos Quatro Evangelhos de Frederico Lourenço, prémio Pessoa 2016, o texto continua claro a comunicar: Cristo Ressuscitou - Feliz Páscoa a todos

terça-feira, 11 de abril de 2017

"RESSURREIÇÃO" de Lev Tolstói


Acabei de ler "Ressurreição" do grande escritor russo Lev Tolstói, um romance onde o autor expõe a sua filosofia de vida, a sua moral e fé de forma clara, com um apelo de conversão ao bem e tendo como referência a denúncia da injustiça que domina a sociedade que cria vítimas permanentes, não reabilita, nem resgata as pessoas do mal, proclamando uma visão do cristianismo muito própria e livre das interpretações oficiais das religiões cristãs tradicionais.
Nekhliúdov é um príncipe e com um bom coração amolecido pelo bem-estar da sua classe e luta permanente entre o ideal que busca e os hábitos e vícios a que se afeiçoou que o seu estrato social apoia e tem como a norma. No seio disto apaixona-se e abusa de uma doméstica órfã que engravida, é ostracizada e levada para a prostituição, vendo-se anos mais tarde envolvida num crime e sujeita a um tribunal de júri onde, por coincidência, ele se senta como jurado.
O príncipe, acobardado entre a vergonha e o dever, além dos interesses pessoais das personagens judiciais, assiste à condenação da inocente ao desterro e trabalhos forçados. Começa então a luta do herói para resgatar e reabilitar a mulher de que se sente culpado da sua situação, enquanto abdica das suas terras por ideais de justiça e se dedica completamente à condenada, inclusive oferece-se em casamento. Todavia a burocracia judicial, os seus intervenientes e os preconceitos dificultam a reparação dos próprios erros da justiça, o que o leva a acompanhar a sua vítima para a Sibéria e a conhecer os horrores do sistema prisional e a quantidade de inocentes que a sociedade condena e se desfaz e não salva.
Tolstói faz uma crítica forte do sistema económico e social da Rússia de então, expõe com crueza o sofrimento intolerável do regime judicial e, à semelhança de Victor Hugo, denuncia a aplicação cega da Lei contra as pessoas que mantém o sistema. Propõe o modelo económico de Henry George, que tem uma perspetiva mais rural do que o proposto por Marx para o seu proletariado urbano, a que associa a necessidade de uma prática do Evangelho livre da estrutura eclesial, mas ligada a Cristo.
Ao contrário de "Guerra e Paz" e "Anna Karénina", aqui Tolstói tem uma única linha narrativa, não havendo histórias paralelas a atravessar toda obra e servem de comparação a opções de vida alternativas. Todavia Nekhliúdov conhece muitas prisioneiros, de crimes a razões políticas, cujas vidas são comunicadas para destacar os defeitos do sistema vigente. Sem dúvida um grande romance, menos consensual que os outros citados, pois em Ressurreição as ideias do escritor são ditas diretamente sem preocupação de ferir ou divergir do leitor. Tolstói quer mesmo agitar a consciência de quem lê e tirar os acomodados da sua situação de conforto. Gostei e recomendo.

quinta-feira, 30 de março de 2017

"The Origin of Species" de Nino Ricci


Após uns tempos sem ler obras de literatura de ficção canadiana no original, espreitei a minha prateleira dedicada a estes livros e selecionei "The origin of Species" estreando-me em Nino Ricci, um escritor contemporâneo que foi premiado com o Governor General Prize for English fiction lpgo no seu primeiro romance em 1990, o galardão nacional literário mais prestigiante do País, e voltou em 2008 a ser o vencedor deste prémio com este título influenciado no trabalho e na personalidade de Charlles Darwin.
The Origin of Species" apesar de parecer complexo pelo número de temas abordados abaixo, introduzidos pelas diversidade das personagens, o enredo desenrola-se com uma narrativa fácil de se ler.
Alex Fratarcangeli de Toronto, com as suas raízes italianas pouco assumidas, em 1986 encontra-se a fazer a sua tese de doutoramento em Montreal sobre a influência da evolução das ciências na literatura, isto numa cidade sujeita à tensão linguística, política e cultural do Quebec
Alex vê-se então confrontado entre uma separação recente que o leva a consultas psiquiátricas em que omite o essencial; dúvidas sobre a via a desenvolver no seu trabalho universitário e ainda com as perturbações fruto das suas paixões passageiras com mulheres; as relações com estudantes de inglês refugiados no Canada devido à guerra de El Salvador, sobretudo María e o irmão; o apoio a dar ao seu orientador checoslovaco, desalojado por um divórcio e com problemas dos atos de cabeça-rapada do filho; o modo de manter o convívio com um aluno particular francófono, homossexual não assumido e o temor difundido na época pelos noticiários dos efeitos de Chernobyl e da epidemia da SIDA.
Já no debate de todas estas tensões cruza-se com um inquilina do prédio que sofre de Esclerose Múltipla avançada com quem desenvolve uma amizade e recebe uma carta de uma sueca mais velha com quem teve uma relação anterior a comunicar-lhe que ele tem um filho com cinco anos o que o leva a refletir sobre o significado da sobrevivência, das relações humana, da vida confrontado com a memória de uma viagem desastrada a acompanhar um investigador botânico inglês de difícil trato numa expedição ilegal nas Galápagos cujas memórias dos seus ditos se tornam pistas para as suas reflexões sobre o essencial das suas opções.
Nino Ricci mostra-se um mestre em gerir tensões psicológicas, dúvidas interiores e temas sensíveis face a uma sociedade diversificada com preconceitos, em competição e cheia de problemas, através de uma narrativa com recurso a uma linguagem simples, frequentes saltos no tempo a partir da memórias de Alex e as descrições de desventuras do dia-a-dia apresentados de uma forma irónica e divertida mas que abrem a porta a introspeções, autoanálise, crítica social e política e comparações com os dilemas da vida de Charles Darwin com os choques das suas investigações com as mentalidades e crenças religiosas na sua vida familiar e social e onde o confronto com o trabalho em preparação de Alfred R Wallace fará quebrar todas as amarras à semelhança do que ele mesmo terá de fazer face à descoberta de um filho que será como as madalenas da obra de Proust.
Afinal todos resultamos desta evolução e seleção natural onde compartilhamos genes entre anglo-saxónicos e franceses, entre machistas latinos no seio da guerra, a suecas desinibidas convertidas aos dilemas de Alex e Darwin. 
Nino Ricci em 27 anos apenas publicou 6 romances, destes 5 foram premiados com 8 prémios nacionais, além de um best-seller com a biografia de Pierre Trudeau, mostrando que apesar de pouco traduzido fora do Canada se está perante um dos escritores mais importantes do País. Gostei muito, apesar de já não estar habituado à leitura em inglês mas é uma excelente obra para imersão nesta língua e na cultura Canadiana.

quarta-feira, 15 de março de 2017

"Aparição" de Vergílio Ferreira


Acabei de ler "Aparição" aquele que, segundo muitos, é o romance mais emblemático do importante escritor português da segunda metade do século XX: Vergílio Ferreira, prémio Camões pelo conjunto da sua obra em 1992.
A estória relata a experiência de integração social e profissional do primeiro ano de professor do beirão e recém-licenciado Alberto, colocado em Évora, uma cidade que lhe é estranha, tendo como meio o relacionamento que ele desenvolve com uma família local amiga do pai e com o grupo social das filhas. Aqui as suas reflexões e declarações existencialistas encontram eco em duas das raparigas e num aluno com impactes psicológicos que afetam os contactos entre os membros desta tertúlia, dando lugar ao aparecimento de desconfianças, receios, ciumes entre os elementos de um grupo típico de uma pequena comunidade fechada e provinciana. A situação agrava-se ainda com a ocorrência de um acidente e dos problemas individuais que conduzem à hostilização e  ostracização do estranho e culpabilização destes pelos efeitos das suas ideias referentes à importância do autoconhecimento do eu.
À semelhança de outras obras literárias até ao terceiro quartel do século XX, o cuidado pela perfeição do estilo de português na sua forma gramatical e sintática tradicional é uma marca importante do texto, onde as roturas com as regras, típicas da escrita criativa das últimas décadas em Portugal, estão ausentes. Acresce a este perfecionismo escolástico, a qualidade e a elegância de escrever de Vergílio Ferreira. Mas este romance é em simultâneo uma narrativa e um tratado de filosofia existêncialista, onde, intercalado com a narrativa dos acontecimentos e dos diálogos contidos na memória de Alberto e referentes a um ano de um passado já longínquo existem textos de pura reflexão sobre o "eu", onde as formas reflexivas do pensamento para destacar a autoindentificação no conhecer-se e no sentir-se é uma marca para estes pensamentos filosóficos e ideias que afetam todas as personagens da história: ora também em busca deste eu como em Alberto, ora como rejeição desta perturbação gerada por este tipo de análise.
Assumo que gostei do romance como história, apesar de o existencialismo ser uma forma de pensamento filosófico com a qual nunca senti  empatia e entrosamento, pelo que em determinados parágrafos fiquei mais pela apreciação da forma bela de escrever do que pelo conteúdo das ideias e para alguns leitores pode mesmo parecer partes coladas ao enredo incómodas à leitura do livro.

sexta-feira, 10 de março de 2017

"Submissão" de Michel Houellebecq


Decidi ler "Submissão", do escritor francês contemporâneo Michel Houellebecq, tendo em conta a situação eleitoral agora em curso naquele País Europeu, uma vez que este livro é um romance recente e onde se disserta sobre o futuro da França resultante de umas eleições presidenciais em 2022 cujos candidatos na segunda volta (segundo-turno no Brasil) são apenas o da extrema-direita e o de um futuro partido dos muçulmanos.
Sendo Houellebecq um escritor frequentemente polémico, esta obra também tem elementos discutíveis e ideias que pretendem mesmo agitar consciências e levar à reflexão, contudo não deixa de apresentar o risco de uma evolução distópica da atual civilização ocidental a partir de França. François, um professor universitário na Paris III - Nova Sorbonne, especialista no escritor, não fictício, francês do século XIX Huysmans (que de amigo de Zola e satanista se converteu ao catolicismo, deixando plasmado nas suas obras a sua evolução pessoal). O protagonista e narrador é um fruto típico da época ocidental atual, um niilista e hedonista que segue desinteressadamente a política do seu país sem se envolver e sem se aperceber do evoluir da situação e dos  riscos de mudança possíveis na sua terra preparadas nos bastidores pelas forças ideológicas e religiosas em presença, Num repente, o mundo em que viveu muda radicalmente, o poder é tomado por um líder forte de uma das fações da segunda-volta que negoceia e salvaguarda os interesses dos políticos adversários tradicionais fracos, comodistas e egoístas, que aceitam um conjunto de mudanças no sistema onde se retiram o atual papel da mulher na sociedade e levam uma campanha simpática de mudança de mentalidade através do ensino, que à semelhança da distopia de "O admirável mundo novo", de Aldous Huxley, pode levar a que a submissão seja entendida pelos submetidos a uma nova forma de se sentirem felizes neste mundo em que uma parte da humanidade não tem voz nem estatuto social.
Embora Houellebecq não escreva de uma forma bela, antes pelo contrário, estamos perante um texto cru e por vezes chocante, mesmo quando descreve crueldades de uma forma ardilosamente simpática, a leitura é fácil pela clareza colocada no texto. Pontualmente, na vida íntima do protagonista, o escritor não se limita a um erotismo subtil, avança para uma linguagem e pormenores que podem mesmo ferir a suscetibilidade do leitor, todavia é evidente que tal é a intenção do escritor.
Fiquei curioso por conhecer a obra de Huysmans, que também se deduz ter sido muito importante na literatura francesa do século XIX, mas cuja importância foi intencionalmente abafada por a sua evolução colidir com a estratégia em rumo de uma civilização laica onde as questões de fé são retiradas do espaço coletivo.
Como livro que fala de um futuro próximo e a partir dos dados da data da sua publicação inicial, 2015, alguns pormenores previstos em 2017 sofreram vários desvios, além de terem surgido alguns aspetos maus não considerados, mesmo assim no cerne a obra mantém-se bem atual e a sua mensagem não perdeu qualquer atualidade. 
Apesar de um futuro negro apresentado em tons cor de rosa e de algumas opções descritivas que não são do meu inteiro agrado, que considero quase pornografia na literatura, gostei mesmo muito do livro, que procura agitar e despertar consciências que vivem como sonâmbulas nesta sociedade laica, onde os valores religiosos são silenciados enquanto outros procuram impor as suas crenças e modelo sem que o cidadão comum se aperceba.

domingo, 5 de março de 2017

"A Ponte sobre o Drina" de Ivo Andric

O romance "A ponte sobre o Drina", do bósnio croata e prémio Nobel da literatura em 1961: Ivo Andric, tem como protagonista esta obra de arquitetura, ou seja, a história da sua origem, construção e posterior importância desta infraestrutura, que é Património Mundial da Humanidade, na vida da cidade de Visegrad, a qual serviu de ligação entre o mundo islâmico/turco e o mundo cristão/sérvio e entre a cultura ocidental e oriental da Europa através dos Balcãs desde meados do século XVI, até à sua primeira destruição parcial na I Grande Guerra Mundial do século XX.
À semelhança do anterior livro que li deste autor "A crónica de Travnik", o mesmo caracteriza-se por uma escrita muito elegante, rica de adjetivos e metáforas em série e por vezes prolixa de pormenores, o que dá lugar a uma narrativa que se desenrola a um ritmo lento, como a vida na província. No presente romance não há um protagonista, o narrador faz desfilar uma série de personagens desde o não ficcionado sérvio raptado pelos turcos, que ocupavam a zona no século XV, para torná-lo militar forçado ao serviço do islamismo, ou seja um janízaro, que se tornou Mehmed Paxá, com um cargo equivalente a Primeiro-ministro governando todo o vasto Império Otomano, o qual decidiu mandar contruir esta ponte na sua província natal, prosseguido com personagens reais e lendárias, bem como a origem das lendas associadas à sua construção e ao imóvel, para depois ao longo de três séculos relatar estórias relacionadas com cidadãos sérvios, bósnios e judeus desta cidade, desde as suas paixões, investimentos, desgraças, amizades e tensões entre os vários credos e com as mudanças de mão dos povos que ocuparam e lutaram pelo domínio ou independência desta zona multiétnica da antiga Jugoslávia: turcos, austríacos, sérvios e bósnios; tudo isto sempre à sombra desta imponente ponte que marcava o pulsar cultural e social de Visegrad, unia mundos tão diversos e assistiu a mudanças muito significativas no modo de viver das populações e assistiu ao nascer de novas tecnologias industriais.
Assim, numa obra única e como numa passarela desfilam aventuras de juventude, reflexões de velhice, discussões de ideias, gente ébria e sóbria, exércitos, amores, paixões, ciúmes, desconfianças, rivalidades e ódios que em momentos de paz são mutuamente toleráveis, por vezes ridículos ou causadores de incidentes divertidos, mas que em períodos de guerra atingem extremos de desumanidade que deixam marcas para sempre.
Um grande livro, que dá a conhecer a complexidade do que é a mistura multicultural da Bósnia-Herzegovina tendo como ponto de união esta ponte secular Património da Humanidade, isto num romance que é também uma obra de arte global.
Visegrad e a sua ponte (wikipedia)

quinta-feira, 2 de março de 2017

Aniversário de Geocrusoe: 2 de Março desde 2007 a 2017: Dez anos de vida deste espaço

Geólogo - pintura de Carl Spitzweg (wikipedia)
Comecei a página Geocrusoe numa experiência para verificar como funcionava isto de fazer um blogue, mesmo sem ter qualquer ideia editorial definida. Os primeiros posts foram incoerentes por falta de uma estratégia - meros frutos do acaso. Depois dei ao site um rumo com objetivos: divulgar à população em geral aspetos da geologia do Faial e um pouco também das outras ilhas dos Açores, relatar eventos culturais que me agradassem e ocorressem nesta terra ou que eu assistisse e ainda curiosidades sobre Ambiente, a área em que trabalho há décadas, sem esquecer o meu Canada natal e a minha freguesia  de residência: Ribeirinha, Horta. A paisagem destas ilhas e o seu património mereceram destaque, sobretudo naquela onde vivia e das que, entretanto, ia visitando e onde recolhia fotos, sem esquecer a respetiva geologia. Assim se passaram cerca de cinco anos após uma regularidade quase diária neste primeiro período.

Com assunto quase esgotado, no ano de 2012 Geocrusoe deu uma grande volta, já não dava mais para falar da geologia de modo menos profundo e desta terra mantendo uma forma acessível a um não especialista e em paralelo a redução da agenda cultural tão rica como então tinha acontecido no Faial, pensei em fechar o espaço, mas em boa hora optei por centrar-me no meu mundo de leituras de ficção, que por norma atinge quase meia centena de livros por ano, estes passaram a ter uma apreciação pessoal e uma resenha para eventuais interessados numa perspetiva de um simples leitor não formado em letras, mas novos leitores fixos surgiram e daqui saíram dicas que foram seguidas que me foram comunicadas, sendo que a Geologia e o Ambiente escassearam com novos posts, mas os antigos nunca saíram dos que são diariamente visitados neste blogue.

Tive o prazer em ler citações deste blogue em revistas, jornais e  rádio e em viagens conheci pessoas que me referiram o blogue como um espaço em que recolheram informações sobre o Faial, o Triângulo e outras ilhas dos Açores, descobri a pronúncia de Geocrusoe em inglês e francês e fui questionado sobre a origem do nome, explico: veio do facto de durante anos ter estado no Faial sem mais geólogos amigos para conversar sobre as Ciência da Terra, sentia-me um geólogo Robison Crusoe, isolado numa ilha que amava, mas sentia a falta de conversas sobre geologia, não apenas leituras de livros e o blogue permitiu trocar opiniões nestas áreas com o interessado comum e colegas que entretanto fui descobrindo na blogosfera, este espaço passou a ser o meu Sexta-feira.

10 anos é muito tempo a manter viva uma página sem nela falar de política ou de futebol. Foi um projeto onde já tive períodos de entusiasmo, como quando falei da história geológica do Faial e as celebrações dos 50 anos da erupção do vulcão dos Capelinhos, tive incentivo de pessoas ligadas a eventos culturais, com destaque para o extinto Faial Filmes Fest. Por aqui estabeleci novos contactos, conheci outros leitores e ouvi sugestões de escritores e obras que sem ser por esta via talvez não viesse a conhecer incluindo as do mundo da literatura lusófona.

Obrigado a todos os que de alguma forma contribuíram para que este projeto atingisse uma década.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

"O Rei Lear" de William Shakespeare


Acabei de ler a única das grandes tragédias de William Shakespeare que desconhecia o texto e o enredo: "O rei Lear", numa edição e tradução recentes que segundo os autores faz parte de um projeto em curso que pretende publicar todas as obras deste génio mundial da literatura dramática em português, tentando conciliar o estilo original do autor com uma linguagem contemporânea, respeitando a forma e a estrutura poética sempre que possível. Pelos excertos que li do texto original pela internet para comparar esta versão, penso que o objetivo está a ser conseguido, pois o tom, a cadência, o ritmo e o texto na língua de Camões fizeram-me sentir o mesmo de quando li as mesmas passagens da obra em inglês e as ideias base eram as mesmas, mostrando uma fidelidade muito boa. As notas finais permitem ainda pormenorizações sobre publicações antigas de referência da obra e algumas particularidades para as soluções encontradas neste livro.
O Rei Lear desenvolve o tema do engano e do aproveitamento da senilidade e do amor paterno por filhos interesseiros em prejuízo de honestos, não bajuladores e respeitadores dos princípios e deveres filiais.
Duas histórias correm em paralelo, a do rei Lear, que divide o seu reino pelas duas filhas mais velhas que o ludibriam, deserdando a mais nova que o admira sem mentiras, bem como o caso de um nobre, Gloucester, que se deixa levar pela intriga de um filho bastardo em prejuízo do legítimo honesto e ingénuo na maldade. O desenrolar do drama levará não só à descoberta dos erros de interpretação tanto no rei louco pela idade, como no conde, e as tentativas de repor a justiça, mas a guerra levada a cabo com os maquiavélicos traidores, como não poderia deixar de ser numa tragédia, termina com a morte de muitos dos que intervieram nesta luta entre a justiça ou o bem e a injustiça ou mal.
A obra talvez não tenha as frases isoladas fortes do texto de Hamlet, o desenlace é bem mais negro que o de Macbeth, não é o ciúme como em Otello que se deixa alimentar pela maldade mas somente a fragilidade da velhice que é vítima da ganância dos novos e nem há o romantismo de Romeu e Julieta, todavia é uma grande obra que levanta igualmente numerosas questões sobre a esperteza das trevas face à crendice das palavras de quem ama e é justo e onde, sem o conflito de gerações, ficamos perante a crueza da ingratidão filial face ao declínio físico e psíquico dos progenitores que os trouxeram à vida.
Pequena no tamanho, é uma tragédia grande em mensagem, estrutura e complexidade moral, uma obra-prima que gostei e vale a pena ler, enquanto este projeto Shakespeare, levado a cabo pelos tradutores da Universidade do Porto, motivou-me a descobrir mais obras deste génio.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

"O Clube Dumas" de Arturo Pérez-Reverte


O romance "O Clube Dumas" do escritor espanhol Pérez-Reverte é uma obra de suspense e mistério que envolve a busca de livros históricos raros, a validação de um manuscrito de Alexandre Dumas pai, aventura, ocultismo, perseguições, charadas e crimes, numa narrativa onde existe preocupações de juntar a literatura como objeto de lazer sem desvalorizar a qualidade de escrita e em paralelo fornecer informações ao nível de histórias de literatura, sobretudo, do autor que cujo nome consta no título.
Como todos os livros de suspense e aventura, este lê-se bem e desperta curiosidade para cenas futuras, algumas destas são em Portugal, o que já não é primeira vez nos livros que leio deste escritor. Uma obra sobre livros, amantes de destes e fãs de um escritor, cruza o secretismo associado a obras de ocultismo e os artifícios que os seus crentes fizeram para manter viva as suas mensagens e no desenlace Pérez-Reverte fala da importância do leitor em se deixar envolver pelo mundo das obras e o risco que quando se mistura realidade e ficção, um jogo romanceado bem feito que diverte, alimenta o gosto pela leitura e divulga factos da história de escritores e da adoração dos livros como objeto de culto. Gostei e acessível a qualquer tipo de leitor. 

sábado, 11 de fevereiro de 2017

"As Naus" de António Lobo-Antunes


O romance "As Naus", de António Lobo-Antunes, publicado em 1988 e agora reeditado na coleção Livros RTP, cruzou-se casualmente comigo numa papelaria quando estava lá por outros motivos e então despertou-me a curiosidade o modo como este original escritor lusitano trataria o cruzamento do tema das descobertas com o dos retornados após a independência das colónias portuguesas na sequência da revolução de Abril.
Num romance pouco extenso, com a escrita típica de António Lobo-Antunes, onde  se intercalam tempos diferentes, mudanças de sujeito e de espaço ao longo de longos parágrafos, o autor desfila um conjunto de personagens que no passado foram os heróis, escritores ou figuras das crónicas do período das descobertas e da expansão cultural portuguesa, nomeadamente Luís de Camões, Pedro Álvares Cabral, Diogo Cão, São Francisco Xavier e Manuel de Sousa Sepúlveda, reis de Portugal,entre outros, sem esquecer a sombra marcante de D. Sebastião e o seu mito, descrevendo muitas das dificuldades, loucuras e glórias daquela época áurea que viveram, mas que mais tarde os mesmos se tornaram colonos em Goa, Moçambique, Angola e Guiné, com todos os vícios de que são muitas vezes acusados e ainda alvo dos ódios e das bajulações dos povos indígenas e que por fim ainda passam para o papel de retornados a Portugal, expulsos dos locais onde criaram raízes, sendo mal-aceites na pátria de origem com uma organização de acolhimento viciada pela embriaguez dos conceitos de liberdade e socialismo onde neste ambiente se adaptando aos mais variados géneros de personalidades e papéis: desde o que se transforma em oportunista, às vítimas de espoliações, aos que entram no mundo negro da prostituição e dos proxenetas, aos desadaptados e às perdas de identidade onde tudo isto se vai cruzando de forma absurda ao longo da obra.
Apesar das numerosas denúncias contidas na obra, que ora se subentendem, ora são ditas de forma dura, nua e mesmo cruel, por vezes misturadas com alguns preconceitos de mentalidade da nossa sociedade, o livro consegue criar um tom irónico e divertido no seio das desgraças expostas, mas não se furta a mostrar a necessidade de os portugueses em todas estas épocas precisarem de um D. Sebastião para manter a esperança e viabilizar a sobrevivência deste Povo... apesar deste salvador sempre na sombra que no fundo dos lusitanos nunca morreu ele nunca aparece, apenas nos levou a uma derrota marcante.
Gostei do livro, mas reconheço que estou habituado à escrita de António Lobo Antunes e para quem não a entranhar este romance torna-se difícil, se não mesmo incompreensível.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

"O Sentido do Fim" de Julian Barnes


Acabei de lei o pequeno romance vencedor do prémio Man Booker Prize de 2011: "O Sentido de Fim", do escritor britânico Julian Barnes, a primeira obra que leio deste autor.
A história está dividida em duas partes: a primeira narra as memórias do protagonista do seu tempo de liceu até à universidade, a sua envolvências com os seus três amigos mais próximos, as reflexões saídas das aulas de alguns professores marcantes, a relação com a sua primeira namorada e a família desta, bem como seu fim quando foi sucedido pelo amigo que ele mais admirava pela sua inteligência, lucidez, visão de vida e o elemento mais promissor do grupo, mas que entretanto foi capaz de um ato extremo.
A segunda parte começa cerca de 40 anos depois, quando já divorciado e avô é surpreendido por uma doação em testamento da mãe da sua antiga namorada, na qual também está incluído o diário do seu admirado amigo. Começa então a tentativa de obtenção da obra e de descobertas estranhas que mostrarão como a memória de uma pessoa o pode atraiçoar sobre a realidade do foi o seu próprio passado e denunciar as suas escolhas medíocres após uma juventude onde se foi capaz de ser cruel para com aqueles que mais se amou sem se ter noção do nível a que se baixou e até à última página haverá sempre surpresas que fecham o ciclo da vida do narrador e a perspetiva deste do que é o sentido das opções de um indivíduo para os seus fins.
Destaco desde já que este romance contém um dos melhores textos literários que li até ao momento para obras do século XXI. Praticamente todos os seus parágrafos e diálogos são de uma perfeição de escrita e de uma beleza estilística clara que concilia a estética com a discussão de ideias num nível a que não estou habituado a ler em obras contemporâneas, que muitas vezes trabalham a escrita e esvaziam o conteúdo ou valorizam este e comprometem a forma de escrever. Aqui existe uma harmonia perfeita entre a reflexão e a arte de narrar, sem deixar de ser uma obra profunda e uma lição de vida cuja genialidade só se revela completa e clara nas últimas páginas do livro. Uma obra-prima!

sábado, 4 de fevereiro de 2017

"Pais e Filhos" de Ivan Turguéniev


O excelente romance"Pais e Filhos" do russo Ivan Turguéniev, escrito em meados do século XIX, além de ser um dos clássicos mais importantes da literatura deste país, é uma obra marcante na literatura mundial, pois é ele que define e cria o termo "niilismo" como forma de pensar e de ser de uma personagem que questiona e rejeita, à priori, qualquer autoridade, instituição ou  costume de modo a querer revolucionar a sociedade, tema que posteriormente será desenvolvido por Dostoievski e outros importantes escritores, com todas as suas forças e fraquezas, benefícios e perigos e ainda alvo de linhas filosóficas, nomeadamente Nietzche, aspetos que moldaram profundamente a literatura global no último século e meio.
Escrito de uma forma fácil, mas elegante, e com pormenores descritivos subtis, que não só embelezam o texto como também caracterizam situações e sentimentos; a história é essencialmente marcada pelo conflito das formas de pensar em duas gerações: a dos filhos no final da juventude, então com todo o vigor, espírito de contestação e vontade de mudar o mundo, insatisfeitos com a dos pais, onde estes com as lições da vida se tornaram já conservadores, acomodados e inseguros perante os seus descendentes, para quem vivem e a quem admiram, sem saber como gerir este desacordo geracional.
Centrado sobretudo em duas famílias diferentes mas de pais recatados e filhos de espírito revolucionários ou influenciados por estes ideais, junto com algumas personagens, incluindo femininas fortes que vão criar o choque não só entre as ideias geracionais como também com a natureza biológica da vida e dos sentimentos. A história coloca a nu o conflito geracional de séculos e as suas limitações da própria natureza e realidade que leva a que ora uns saiam vencidos pela crueza do acaso, embora com um futuro promissor e vítimas de aspetos menores do destino e outros se arrumem perante a força do mundo, tornando-se em pessoas com carreiras consideradas modelos para o comum dos mortais na sociedade em que se inserem.
Um livro não muito grande, fácil e muito rico não só em mensagens, como influente filosoficamente que marcou o futuro da literatura. Gostei muito e recomendo.

sábado, 28 de janeiro de 2017

"O leilão do lote 49" de Thomas Pynchon


A experiência de leitura deste pequeno romance "O leilão do lote 49", do norteamericano Thomas Pynchon, teve a particularidade de apesar de muitas vezes me ter feito sentir como que perdido na narrativa, ao me cruzar com personagens paranóicas, situações absurdas, uma mistura de informação científica séria com aspeto de fantástico junto com irrealidades que se parecem verdades, além de uma série de cenas cuja lógica aparentemente está ausente, levou-me a um livro que me cativou desde a primeira página. O evoluir das situações onde a coerência está como que ausente gera uma história que toma um aspeto de mistério a resolver na tentativa de decifrar um conjunto de pistas que parecem loucas.
Oedipa é informada que foi nomeada testamenteira de um ex-namorado, multimilionário e que para as suas funções poderá contar com a ajuda de um advogado de um escritório com quem o falecido trabalhava. Surpreendida parte para a localidade deste e onde ele era o maior proprietário e investidos da zona. A partir daqui as peripécias sucedem, cada uma mais estranha do que a outra, desde a interferência do seu psiquiatra que enlouquece, ao advogado com quem ela trai o marido mas que a seguir foge com uma adolescente, passando pela envolvência do esposo como homem da rádio, mas que tem alucinações com LSD, ao contacto com um grupo musical de adolescentes denominado Paranoids cujo o nome é coerente com a respetiva forma de ser, até um grupo de teatro cujo ator principal e encenador adapta uma peça antiga deixando pistas que se combinam com elementos encontrados na coleção de selos do morto, que apontam para a existência de uma rede de correios secreta instalada na sociedade para se autonomizar das redes oficiais que Oedipa tenta descobrir através de investigadores de literatura, cientistas que trabalham na entropia dos sistemas e filatelistas, levando tudo isto a uma série de situações de paródia, com informações subtis de análise social e psicológica nos Estados Unidos.
A obra parece uma evolução dos livros de Kafka, juntando cultura pop e erudita, clássica e contemporânea, além de ciências, num mundo absurdo com análises psicológicas que geram um estilo original, por alguns denominado de pós-modernista, que a mim parece-me trazer para a literatura as correntes artísticas da pintura pop-art de Warhol, do surrealismo de Dali, entre outros, mas sendo prolixa em informações como um quadro de Pieter Bruegel, gerando-se assim uma mescla onde nos enredamos que apesar de labiríntica me deu muito prazer em sentir-me perdido em situações por vezes de difícil compreensão, se não mesmo incompreensíveis.
Gostei, contudo só recomendo a quem os esforço de análise do que se está a ler e da apreciar a forma de escrita e narrativa dão prazer, mas não a um leitor que se entusiasme apenas com enredos e textos fáceis de seguir sem esforço.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

" A República dos Sonhos" de Nélida Piñon


Nélida Piñon, escritora brasileira de origem galega, galardoada pela sua obra com o prémio Príncipe das Astúrias, foi a primeira  mulher a presidir à Academia Brasileira de Letras e neste seu extenso romance (mais de 700 páginas em letra miúda) "A República dos Sonhos" faz em simultâneo uma homenagem à imigração para o Brasil das pessoas da Galiza, ressuscita a memória da sua família, bem como expõe de uma forma ora crítica, ora amarga, ora com ternura: o pensar, a cultura, a sociedade e a política deste país Sul-Americano, desde o início dos século XX até à década de 1970, destilando as virtudes, defeitos e sonhos, bem como as raízes desta mistura que originou uma mescla social única no mundo, unida pela língua Portuguesa na sua variante deste continente.
A história arranca quando Eulália decide que chegou a hora de se deixar morrer - a matriarca da família de Madruga, o imigrante pobre de 1913 e criador de um império no Rio. As memórias dos que a cercam levam então à narração de acontecimentos sem respeitar uma sequência cronológica, que vão saltando por vezes bruscamente desde o avô do protagonista, o galego que conta as estórias do seu povo para manter viva a cultura da sua nação e língua que marcou o protagonista, passando pelo sogro deste, a versão aristocrática decadente de quem marcou o passado da Galiza e de quem ficaram as histórias, passa pelo pais, filhos e a neta mais velha do herói do livro, sempre na companhia do seu amigo fiel e companheiro da viagem na primeira travessia do Atlântico, mas de comportamento oposto: Venâncio, que representa os derrotados desta imigração mas é necessário para viver os sonhos para que Madruga possa ter a frieza de vencer na vida real.
Um grupo familiar com membros tão díspares que vai do ambicioso, ao preocupado com os desfavorecidos, à mulher obediente, à que se refugia em Deus mas vê tudo em torno, passando pela serva acolhida e pela que rompe com as regras que escravizam o género feminino, sem faltar o homem cujo a importância reside na virilidade de macho, ao que os valores dos contos e das tradições são o cerne da cultura do País e das raízes ibéricas, a uma agregado que vê passar as principais figuras políticas do Brasil: como Janos, Getúlio e Juscelino, sofreu com a guerra civil de Espanha e desejou a autossustentabilidade económica brasileira, assistiu à democracia com as suas esperanças, passou pela ditadura e desilusões, medos e fugas possíveis nesta América e República de sonhos alcançados e também de falhados.
Uma obra de grande profundidade, por vezes densa e prolixa em pormenores, com dois narradores principais e outros que se escondem atrás do escritor. É um hino ao Brasil, à língua Portuguesa, à Galiza, a Espanha e um tributo aos imigrantes vencedores e louvor aos vencidos e àqueles cujo contar histórias marcam a cultura dos Povos. Grande Obra Literária.