terça-feira, 31 de dezembro de 2013

"O Problema Espinosa" de Irvin D. Yalom

Editora: Saída de Emergência

Há livros que são difíceis de qualificar, "O Problema Espinosa" de Irvin D. Yalom, que também é um médico psiquiatra de profissão, é a obra que acabei de ler e está dentro dessa categoria.
É verdade que expõe duas biografias ficcionadas de duas pessoas históricas reais separadas por quase 250 anos e as suas relações com personagens inventadas e outras reais, como tal pode ser considerado um romance. O texto é pouco estilizado literariamente e é uma abordagem psicológica do escritor que introduz um psiquiatra nas personagens importantes do século XX na obra que faz de ponte entre o racionalismo absoluto do excomungado judeu Espinosa e a confusão irracional em Alfred Rosenberg, admirador dos admiradores de Espinosa que persiste na sua evolução antissemítica e considerado o ideólogo do nazismo e um dos próximos de Hitler que ele idolatrava.
O livro mostra duas solidões: uma que resulta da opção consciente da busca da perfeição pela razão em luta contra superstição das religiões com um Deus humanizado feita por Espinosa num período do século XVII onde a crença se sobrepunha à razão, uma decisão solitária que o libertava. Outra, já no século XX, provocada pela necessidade de reconhecimento público e de admiração no trabalho irracional e preconceituoso de Rosenberg, decisão solitária que o amarrava em crises depressivo-obssessivas já numa sociedade em grande parte laica.
Um Deus racional que se confunde com a Natureza em Espinosa e submetido às leis naturais contra um ídolo irracional que acredita na superioridade ariana e sem humanismo em Rosenberg que procura compreender o filósofo que ilogicamente era judeu, cujo mesmo tipo de sangue negava existir nos seus genes e onde até o psiquiatra de serviço desiste de tanta obsessão doentia e catastrófica.
Um livro forte que pelo contraste pode chocar o crente em dogmatismos religiosos ou o crente no humanismo das pessoas.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

BOAS FESTAS


 A todos os que ao longo deste ano se tornaram visitantes desta página, partilharam comigo comentários sobre livros, música, viagens e temáticas sobre o Faial e os Açores e cada vez mais raramente geologia Votos de Feliz Natal.

Deixo-vos com uma bela canção de Natal, mas diferente daquelas que nos inundam comercialmente nestes dias

sábado, 21 de dezembro de 2013

"Liberdade" - Jonathan Franzen


Editora Dom Quixote

Um livro para ser bom não tem necessariamente de ser fácil e belo, "Liberdade" é um retrato das principais preocupações que têm atravessado a sociedade norte-americana nas últimas décadas: os extremismos desde as convicções ambientais, da política, da economia e das ideologias, bem como os desencontros de gerações onde cada uma pensa que será melhor que a outra e depois descobre que comete os mesmos erros ou caiu no exagero oposto no que vem dar ao mesmo.
Depois do relato das taras da sociedade deste país no período da guerra fria em "Submundo" de Don deLillo, agora a mesma estrutura noutra escrita cobrindo as mais recentes décadas de uma sociedade livre e cheia de complexos que vem até à eleição de Obama.
Uma obra grande, forte e importante para quem tenta compreender muito do que se joga nas mentes das pessoas nos EUA e justificar muitas decisões que chocam quem vê de fora.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Por que mergulhei nas obras literárias e clássicos mais antigos?

Recentemente alguém me esboçou um certo menosprezo por nos últimos tempos ter optado por ler vários livros do século XIX ou da primeira metade do século XX quando há tantos títulos de obras recentes a serem publicados pelas editoras.
A verdade é que depois de ter seguido ativamente numerosas obras galardoadas pelos mais variados prémios literários presentemente ativos, de língua portuguesa ou outras, e da abundante publicidade de interessantes e importantes publicações que vão saindo, a quantidade de desilusões face às minhas elevadas perspetivas foram também abundantes.
É verdade que várias dessas obras até têm apresentado uma escrita literária rica, inovadora e esteticamente atraente, mas, nestes casos, também não têm sido raras as que a respetiva qualidade de forma parece ser acompanhada por uma falta de profundidade no conteúdo da mensagem.
Tal como é verdade que li obras recentes com personagens, situações sociais e estórias bem trabalhadas, ricas no conteúdo, descrevendo situações inovadoras e reflexões interessantes, mas, neste caso também, não tem sido raro as que a qualidade do conteúdo parece empobrecida na forma.
Paralelamente, tenho descoberto que o filtro do tempo tende a preservar e valorizar as obras que reúnem a qualidade estética da escrita e a importância do conteúdo ficcional . Assim ao ler um clássico da literatura tem, por norma, me permitido descobrir livros que não desiludem, pois enriquece a formação do leitor misturada na medida certa de bom gosto que dá prazer e alimenta o lazer.
Isto não quer dizer que abandono as obras contemporâneas que as técnicas de publicidade moderna valorizam para aumentar as vendas... apenas que um mergulho nos clássicos é sempre um passaporte seguro para manter vivo o gosto pelos livros. 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

"Eu, Cláudio" de Robert Graves


Editora Bertand

Acabei de ler "Eu, Cláudio" de Robert Graves. Um livro que teoricamente é escrito na primeira pessoa por este imperador romano, mas mais do que uma autobiografia, é uma crónica do que foram os tempos de Roma em grande parte do do período da dinastia Júlio-Claudina, no início da nossa era e onde Cláudio: gago, coxo e considerado por muito como idiota, se tornou culto, viveu, sofreu, sobreviveu a uma série de assassínios e ainda chegou a imperador.
Numa escrita simples, pretendendo estar conforme com a personalidade simples do protagonista; muitas vezes irónica e mordaz, fruto da perspicácia e da autoformação conseguida pelo autor; Robert Graves põe-nos Cláudio a falar da família imperial, desde o seu nascimento nos tempos do imperador Augusto (o tio-avô materno e contemporâneo do nascimento de Jesus) com os esquemas venenosos da sua segunda mulher Lívia (avó paterna) para levar ao poder o filho desta Tibério (tio) a que se seguiu um tempo ainda mais graves e com  um desfile de mortes em série, como chegou a imperador o ainda pior Calígula (sobrinho) com toda a sua loucura e o terror, até à entronização de Cláudio como salvador predestinado e a oportunidade dos romanos lerem as suas obras de investigação histórica.
Apesar dos tempos negros, o livro é leve, divertido e de fácil leitura pelo tom colocado no texto. É uma forma interessante de fazer um romance histórico a descrever um período louco e terríficos de Roma sem cansar. Gostei e recomendo.

sábado, 23 de novembro de 2013

"As velas ardem até ao fim" - Sandór Marai


"As velas ardem até ao fim" de Sandór Marai é daquelas obras pouco volumosas mas com uma densidade de conteúdo que os torna num grande livro e foi o primeiro que li deste escritor húngaro.
Uma infância, adolescência, juventude e início da vida adulta marcada por uma grande amizade que sobrevive e acompanha todas as etapas de crescimento do protagonista, militar de carreira, que de repente viu o amigo fugir deixando um conjunto de indícios de traição e semeando o veneno da dúvida.
Quarenta e um anos depois, na velhice de ambos, o amigo anuncia-se, combinam reencontrar-se num jantar a dois no palácio do general na sua propriedade de caça, mas devido a um apagão este dá-se à luz das velas. Então todos os fantasmas levantados, factos ocorridos e recordações do passado vêm à refeição e o eterno desejo do protagonista esclarecer o passado impõem-se no serão.
Na busca das respostas do ocorrido há tanto tempo, desenvolve-se uma densa dissertação sobre o que é a amizade, a sua importância na vida e os compromissos e responsabilidades entre amigos. Será tudo isto suficiente para se revelarem todos os segredos que os separaram?
Um livro que, mais que um romance, é um ensaio sobre a amizade, o amor, a traição a paixão e os gostos na diversidade da humanidade. Um excelente e denso texto de alta qualidade literária e profunda reflexão.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Quantas Madrugadas tem a Noite - Ondjaki

Editorial Caminho

Diante de umas "ngalas" (cervejas), alguém aproveita o ambiente de Luanda para alimentar a conversa pela noite dentro, relatando de modo frenético as desaventuras de um grupo em torno do corpo de um amigo que pelos vistos não encontra as condições para o seu descanso e funeral, tantas são as burocracias e os interesses que se intrometem no assunto, e assim a estória vai-se arrastando pela madrugada alimentada pelo álcool.
Em estilo coloquial e com a liberdade que um relato regado pela cerveja permite, Ondjaki, de forma irónica e divertida, expõe o linguajar de Luanda: o seu vocabulário próprio, a gíria das pessoas dos bairros populares, o calão, os estrangeirismos, as variações de sintaxe e os efeitos ortográficos para expressar a entoação e a pronúncia das gentes da capital de Angola.
O texto é um magnífico trabalho linguístico e estilístico da diversidade da língua, aspeto assumido mesmo pelo narrador quando fala do modo como trata o Português. Interessante também a caracterização das vivências do povo e de Luanda: uma sociedade alicerçada no estilo de vida africano, mas com influências culturais do colonialismo e da atual globalização, o que gera uma miscigenação única e brilhantemente retratada neste despudor regado a ngalas necessárias para estender a conversa pelas madrugadas da noite.
"Quantas Madrugadas Tem a Noite" é um livro divertido mas a ler, sobretudo, para descobrir a genialidade de Ondjaki na forma de mostrar e tratar a língua Portuguesa na sua variante de Luanda.

domingo, 17 de novembro de 2013

"A Varanda do Frangipani" - Mia Couto

Editorial Caminho

Depois do prémio literário Neustadt atribuído pelo conjunto da obra a Mia Couto, um galardão quase com a mesma importância de um Nobel, decidi revisitar este escritor moçambicano que inunda os seus livros com vocabulário do seu País e trabalha as palavras de forma a evidenciar o Português falado na sua Pátria.
"A Varanda do Frangipani" (árvore daquela região que altera os períodos de floração com os de folhagem caduca, esta característica uma raridade naquelas latitudes) é um pequeno romance policial, do tipo fantástico que decorre num remoto lar de idosos e serve de parábola à decadência de Moçambique no pós-guerra colonial e civil quando o Pais entrou em paz, mas com um sistema corrupto e cheio de feridas por sarar. 
Ao ritmo calmo e nostálgico da velhice vai decorrendo o trabalho de detetive de onde brotam as feridas do colonialismo, a morte dos antigos valores e cultura e os ecos do estado a que o País chegou: onde a corrupção é o capim em que todos se alimentam, onde ser-se honesto é ser um fruto bom numa árvore podre sujeito à rejeição ou à contaminação.
Apesar deste ambiente, é um livro onde a esperança sobrevive, há humor, muita ternura, é de leitura fácil e o potencial do grande escritor está todo na obra. Recomendo a sua leitura.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

História de Duas Cidades - Charles Dickens

Editora Civilização

"História das duas cidades", também conhecida por "Conto das duas cidades", de Charles Dickens é um romance de amor - ódio, leviandade - dedicação, vingança - arrependimento que se gera no absolutismo francês, com todos os abusos repressivos da aristocracia sobre o povo, e amadurece no período de absoluto terror da revolução francesa com todos os abusos da desforra desse mesmo povo sobre a aristocracia e a história decorre entre Paris e Londres, capitais de desconfiança mútua. 
Ora repetindo uma ideia ou palavra, ora com uma ironia subtil que atravessa a obra, ora com um sentimentalismo exagerado típico do período romântico e alimentando a curiosidade com insinuações de acontecimentos futuros, Dickens coloca a nu as injustiças sociais dos sistemas em vigor nas duas cidades na segunda metade do século XVIII e as suas consequências devido ao carácter de personagens de vários estratos sociais e morais, cria até uma representativa de todos os excessos da aristocracia francesa "Monseigneur" (Meu senhor).
Assim nasceram as "... vozes de vingança, e faces endurecidas nas forjas do sofrimento a tal ponto que nenhum vestígio de piedade podia fazer nelas qualquer mossa." Assim nasce a revolução francesa e a inicialmente designada "República Única e Indivisível, da Liberdade, Igualdade, Fraternidade ou Morte", esta última palavra, cujo tempo e a vergonha parecem querer apagar da verdade da história, com a ajuda da nova Santa Guilhotina, aliada à vingança levam a aristocracia a ficar no "registo condenada à destruição e ao extermínio." Nesta deixa de haver suspeitos, inocentes, crianças, doentes, parentes ou simplesmente sentimentos, pois a fúria da populaça é insaciável e a todos condena inclusive os bons e justos da estória  "Digam ao vento e ao fogo onde devem parar; mas não a mim." mas na obra não faltam os sensatos, dedicados e heróis que tudo doam em favor dos justos.
O romance é tido como um dos relatos mais fieis da selvajaria da vingança em França depois da tomada da Bastilha em 1789, sobretudo no período de 1792-94. Funda-se em vários relatos documentais e é  uma visão da revolução de um estrangeiro independente, com isenção face às partes em conflito. Por vezes tem a ansiedade de um thriller, noutros o anticlimax para reflexão e é um apelo à justiça social para que não se "Voltem a lançar à terra as mesmas sementes de ganância e de tirania, e colherão sem dúvida os mesmos frutos condizentes com as espécies semeadas." Altamente recomendável este livro.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

"Guerra e Paz" de Lev Tolstoi - Análise global da obra

Conclui a leitura de "Guerra e Paz" do grande escritor russo Lev Tolstói. Um dos romances mais importantes da história da literatura mundial e apesar da sua dimensão, cerca de 1700 páginas em 4 volumes, é de fácil leitura pela linguagem acessível, elegante e linear, com a vantagem de cada tomo ter uma espécie de final, pelo que embora se aconselhe a leitura sequencial e completa, é viável parar-se no termo de cada volume.
A obra tem o título original de "Guerra e Mundo" e percebe-se bem este nome depois de lida, apesar de como ficou conhecida no ocidente. Efetivamente o romance é uma estória que envolve personagens fictícias da aristocracia russa de São Petersburgo e Moscovo e líderes da guerra napoleónica e esta serve de reflexão sobre a humanidade, a sociedade e a luta entre povos. É uma obra que seguramente amadurece o leitor e corresponde a um pico superior da literatura, como forma de arte e formação.
No 1.º livro apresentam-se as os protagonistas da novela até aos alvores da progressão Napoleão para leste com a ida dos russos à guerra fora do seu país, terminando com a famosa batalha de Austerlitz.
O 2.º volume mostra o dia-a-dia da aristocracia russa nos salões e clubes sociais de elite em tempo de paz: os amores, paixões e vícios envolvendo idealistas, oportunistas, acomodados, inquietos, ricos, falidos, cidadãos eticamente fortes ou de moralidade duvidosa, progressistas e conservadores face à revolução revolução francesa.
O 3.º volume mostra a instabilidade social da invasão de Napoleão até Moscovo, faz um retrato da guerra, da sociedade rural russa onde a aristocracia age como dona do povo e faz uma crítica de como a história apresenta os grandes acontecimentos da humanidade, com reflexões sobre o papel do herói, do cidadão anónimo, das sementes revolucionárias e dos valores por que se luta que podem desembocar na vitória ou derrota de um exército ou de um povo, independentemente dos atributos atribuídos aos líderes.
O 4.º volume é a volta de Napoleão a casa com o esgotamento físico, psicológico e erros estratégicos que levariam à sua própria derrota só com a paciência do exército russo sem necessidade de uma intervenção bélica. Isto ntercalado com reflexões sobre o que move os povos e demonstra as lideranças como titeres reféns dos acontecimentos Segue-se a 1.ª parte do epílogo com o destino final dos personagens e a estória acaba aqui. A 2.ª parte é um apêndice pós-romance, são as 50 páginas difíceis da obra feitas em forma de ensaio sobre erros de análise dos historiadores e uma reflexão dialética à cerca da liberdade e das condicionantes que controlam as decisões, menorizando o papel dos heróis na história da humanidade e inclusive da cultura e das ideias filosóficas de uma época.
As principais dificuldades de leitura da obra são: o receio inicial da sua dimensão (levei só um mês a ler); as numerosas citações e algumas passagens na língua culta da época, o francês (traduzido em rodapé); e para alguns a intercalação de reflexões sobre a história e o papel dos líderes e dos povos. Um romance que todos deveriam ler.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Guerra e Paz de Lev Tolstói - Volume 3


O terceiro volume de Guerra Paz, menos romanesco que os anteriores, é até ao momento o mais profundo e rico na análise e descrição das invasões napoleónicas na Rússia, desde a entrada dos franceses no País até à entrega de Moscovo já abandonada dos seus habitantes.
Entre os encontros e desencontros das personagens da aristocracia apresentadas no volume 1, Tolstói intercala capítulos a narrar o avanço francês e reflexões onde justifica a necessidade de se reinterpretar a história dos grandes acontecimentos mundiais. Considera que estes não resultam de um controlo racional e intencional dos grandes líderes, mas antes são o resultado da soma de pequenos acontecimentos, interesses individuais e oportunidades que geram um fluxo que desemboca em eventos significativos que marcam o evoluir da História. Tudo isto é exposto com uma elegância de escrita racional brilhante sem perder a beleza literária, nem se tornar cansativo.
Sem ser o aspeto nuclear do livro, Tolstói ao longo da obra faz o retrato da Rússia de então e uma crítica aos comportamentos sociais: um país completamente dominado pela aristocracia, com uma classe burguesa sem peso e um povo que é uma marionete propriedade dos primeiros, onde as pessoas (almas) são tão propriedade dos donos das terras como se igualmente de bens materiais se tratassem, pelo que os indícios de libertação veiculados pela revolução francesa despertam os alvores de outra que se desenrolaria um século mais tade explicando como se abafa o nacionalismo.
Um escritor visionário?... talvez, ou apenas um alerta à data da escrita face aos sinais que já então vinham de filósofos germânicos.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Guerra e Paz de Lev Tolstoi - Volume 2


A qualidade literária mantém-se, as personagens do primeiro volume regressam todas e vão-se tornando cada vez mais profundas psicologicamente e a componente de análise da sociedade russa, da política e da realidade europeia no período napoleónico enriquece-se.
Se no primeiro volume os momentos fortes são na guerra das armas e nas lutas dos valores nacionais, no segundo domina a paz podre das paixões e da incompreensão nas lutas do egoísmo ao altruísmo e aos valores individuais, por isso é bem mais novelesco, mas lê-se num ápice, tem momentos de elevada tensão na guerra dos sentimentos e novamente termina com uma lição de moral, mas deixa a porta aberta para uma nova sequela.
Cada vez é mais compreensível por que se está perante uma obra-prima da arte literária mundial que não envelhece e recomendável a todos os que amam a Literatura com L maiúsculo, embora o uso frequente e mais ou menos extenso do francês possa ser cansativo na atualidade onde esta língua caiu em desuso de muitos.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Ler ebooks - Obras primas gratuitas

imagem daqui

Sou amante do livro em papel e gosto de comprar não só obras literárias para ler no momento, como adquirir e guardar todas aquelas que gostaria de ler, assim a minha biblioteca vai crescendo em volume a um ritmo maior do que permite as minhas leituras.
Todavia já não excluo de todo o livro eletrónico, sobretudo em duas situações especiais: obras de análise da atualidade política, social ou económica, que se desatualizam com o tempo, que compro nas livrarias virtuais; e clássicos da literatura que não sei se algum dia terei tempo para os ler ou reler, mas que eventualmente poderei ter interesse se estiverem disponíveis, ter necessidade de consultar ou que os gostaria de ter à mão em viagem para uma eventual abordagem, desde que estes estejam disponíveis gratuitamente.
Presentemente, um interessante blogue português "Ler ebooks" tem vindo a publicar em formato epub e para baixar gratuitamente uma série de obras primas nacionais e internacionais cujo tempo fez perder os direitos de autor que importa ter, Isto através de um projeto do agrupamento de escolas de Rio de Mouro. 
As obras vão desde do livro infantil e juvenil como Andersen e Grimm, passando por poesia de Camões a Pessoa, ficção de Eça e outros, cartas históricas como Pêro Vaz de Caminha, série e blogue que recomendo para quem de alguma forma desejar possuir estas obras e esteja minimamente aberto à leitura de clássico no monitor do computador, tablet ou smartphone... uma excelente oportunidade a aproveitar.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

PARABÉNS ALICE MUNRO - PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA 2013



Primeiro esclareço que como Canadiano de nascimento e amante de literatura, não só conheço razoavelmente bem a obra de Alice Munro, como desejava há muito que a mesma ganhasse o Prémio Nobel da Literatura e para mim soube da atribuição do galardão a esta contista com a mesma alegria com que soube há quinze anos da atribuição a José Saramago.


Uma escritora do sudoeste de Ontário, os seus livros são na generalidade contos com uma escrita feminina que retratam tensões familiares ou sociais dentro de pequenas comunidades rurais da sua área natal, onde muitas vezes a subserviência forçada do protagonista do conto – frequentemente fragilizado por problema ou deficiência pessoal, convenções sociais ou um comportamento obsessivo de alguem – leva a um desfecho mais ou menos previsível na tentativa de libertação individual.


Os dois livros de Alice Munro e já traduzidos que mais me marcaram foram “O amor de uma boa mulher” que se enquadra no género acima descrito, e a “A vista de Castle Rock” que falei aqui há já mais três anos, bem diferente, é sobretudo a história da sua família desde a Escócia no século XIX até à vida adulta de Alice Laidlaw de solteira em meados do século XX até ao seu primeiro casamento em que se passou a denominar Alice Munro.


Há poucos anos quase desconhecida em Portugal, nos últimos tem aparecido com maior regularidade traduções das obras de Alice Munro pela editora Relógio d'Água, sinal de que a qualidade desta magnífica contista Canadiana está a penetrar nos leitores Portugueses e seguramente muitos mais agora vão descobri-la e verão que vale a pena.


Mais uma vez Parabéns Alice Munro!

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Guerra e Paz de Lev Tolstói - Volume 1


Pensei se haveria de fazer uma abordagem sobre Guerra e Paz de Lev Tolstói logo ao terminar o primeiro volume ou esperar para o fim do romance, mas a importância deste tomo e o facto do mesmo ter uma espécie de conclusão final permitem-me uma resenha inicial antes de completar os seus quatro volumes.
Há já algum tempo que se me vem tornando evidente que a literatura mundial e de expressão portuguesa do século XIX tem obras-primas com uma escrita tão perfeita que são em simultâneo de fácil leitura, excelentes retratos de uma época, uma modelação perfeita das personagens e magníficas lições de ética, moral e crítica social, a que se associa ainda a virtude do seu texto não envelhecer.
O primeiro volume de Guerra e Paz consegue isto tudo na perfeição, expõe a vida aristocrática Russa, com os seus vícios e virtudes no início da época em que Napoleão ameaça toda a Europa e depois entra em guerra com este império do extremo oriental deste Continente. Amor, ciume, inveja, oportunismo, heroísmo, nacionalismo, ingenuidade, manha e altruísmo tudo está presente nesta sociedade que sai da sua fútil calma e abraça a guerra e onde os mais jovens partem para a batalha, enquanto pais e mulheres ficam entre São Petersburgo e Moscovo.
Uma escrita magistral, precisa e elegante num período em que o cultura francesa era o expoente máximo, é este o principal aspeto que torna este livro diferente do presente onde o inglês ocuparia aquele espaço de expressões e textos em francês. O livro termina com uma lição de moral na batalha de Austerlitz, onde se descobre a futilidade da ambição e dos vícios pessoais perante os valores reais da vida humana e da família.
Não há que temer entrar em Guerra e Paz pela dimensão da obra, para quem não se sentir com força para prosseguir esta saga da história das guerras napoleónicas, o primeiro volume tem princípio, meio e fim e dá a oportunidade a quem quiser prosseguir nesta epopeia russa para os volumes seguintes... é o que vou fazer a seguir e entrar no segundo volume.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

DIA MUNDIAL DA MÚSICA - a minha recordação musical mais antiga

Praticamente todos nós temos uma música que nos marcou em criança, que nos ficou na memória e a qual nunca mais nos esquecemos...
Sei que entrava no genérico de um programa de rádio no Canada... talvez para emigrantes. Não sei do que falavam a seguir, mas sei que a recordação musical mais antiga que tenho não é de uma balada de infância, não é de uma canção de cinema na televisão ou de um concerto num arraial de rua... é simplesmente deste tema tão marcante que se desenvolve em forma de sonata neste andamento:
Não é presunção, apenas aconteceu. Teria eu 2, 3 anos... também não sei, precisar. Só que nunca mais deixei de gostar desta música que saía daquele rádio sobre um frigorífico numa cada de emigrantes Portugueses e que me deixava parado, extasiado, enquanto soava e me marcava para sempre...

sábado, 28 de setembro de 2013

"O carteiro de Pablo Neruda" - Antonio Skármeta

Uma pequena e ternurenta estória de um jovem que teria sido carteiro de Pablo Neruda, da sua amizade que com este desenvolveu, do nascer da sua paixão quase adolescente mas cuja sobrevivência e amadurecimento acontece com o apadrinhamento do poeta.
A escrita altamente poética, assume em simultâneo uma homenagem à poesia, à metáfora e à arte literária, enquanto relata a vida do carteiro, as ideias do poeta, as relações sociais no seio de uma comunidade de pescadores e o desenvolvimento da situação política que levou Allende à presidência do Chile até à revolução que instalou posteriormente a ditadura e espalhou os seus venenos para matar a liberdade e o sonho que injeta esse amargo para despertar a consciência.
Uma obra de muito fácil leitura, com a leveza de um excelente aperitivo e saborosa como um doce.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

"A máquina de fazer espanhóis" de Valter Hugo Mãe


Um livro sobre a vida na velhice, quando tudo à nossa volta muda e se é acolhido num lar de idosos, restam assim apenas as convicções, as memórias do passado, o exame de consciência e a adaptação ao ocaso da vida.
Vários capítulos são escritos ao estilo de José Saramago, outros evidenciam a diferença com o uso de formas mais clássicas. O romance ora é terno, ora irónico, mas também deprimente e mesmo com alguma violência. 
As reflexões sobre o passado tentam em simultâneo criticar a ditadura em Portugal e a submissão e colaboracionismo de muitos com o regime como forma de autoproteção, mas surgem um pouco como exteriores à evolução da estória e por isso rompem com alguma homogeneidade da obra que não trata todos os temas introduzidos com a mesma profundidade.
Gostei do romance, mas por vezes senti-me frustado por apenas insinuar-se sem ir à questão em si, face a outras temáticas em que disserta com algum pormenor. Cedo desenvolve a angústia por percebermos que a velhice, apesar de poder ser uma fase bonita da vida e com vários temperos, é a que antecede à última porta para o termo do ser humano com todas as suas virtudes, defeitos e sentimentos.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

"O livro negro" de Hilary Mantel


O livro negro segue-se a um anterior romance "Wolf Hall" a série de obras secciona a biografia de Thomas Cromwell - um homem que vindo da pobreza ter-se-á tornado no mais influente da corte de Henrique VIII, num dos desenhadores da religião anglicana, num defensor do corte com o catolicismo e num justiceiro frio e calculista que enfrentou todos os inimigos ou os que humilharam o bispo Wolsey, de quem se sentia grato por o ter retirado da sua humilde condição de origem.
O anterior romance foi o prémio booker prize de 2009 e "O livro negro"foi o vencedor da edição de 2012. Como romance histórico o destino das personagens nesta série está condicionado aos factos conhecidos, a originalidade faz-se com a interpretação da vida do protagonista Cromwell, enquanto os Tudor e a sua corte ficam em segundo plano.
Neste novo romance Cromwell já é Primeiro-ministro e o homem, antes envolvido nas condições para fim do primeiro casamento do rei com Catarina de Aragão, prepara agora a queda da segunda esposa, a controversa rainha Ana Bolena, enquanto se vinga dos destruidores e detratores do seu benfeitor bispo, tudo isto conseguindo ainda satisfazer a vontade de Henrique VIII de casar pela terceira vez e levar ao trono Jane Seymour.
O estilo literário da obra é muito característico de Hilary Mantel. A escritora que consegue uma sequência de romances com princípio, meio e fim; de modo que a não leitura de um não inviabiliza que não nos debrucemos sobre o outro sem comprometer o essencial de cada obra. Continua a deslumbrar-me o modo como volta a retratar uma corte com uma promiscuidade como que ingénua entre religião, fé, maldade, desejos pessoais e vingança sob a sensação de se ser instrumento de Deus nesta trama.
Fico a aguardar ansiosamente o volume ainda por publicar, tal como esperei pel'O livro negro, romance que recomendo a todos, independentemente de se interessarem por história




terça-feira, 3 de setembro de 2013

"O Arquipélago da Insónia" de António Lobo Antunes

Há muito que não navegava pela prosa poética de António Lobo Antunes: uma malha de frases que cruza os lugares, o tempo, as personagens, os diálogos e os pensamentos sobre a realidade e a imaginação num fluxo contínuo com um lirismo cuja estória e o enquadramento se vai montando como um puzzle no decorrer da leitura, que por esta mistura não é fácil e exige mesmo esforço aos mais habituados.
Confesso que continuo a admirar e a gostar muito da escrita de António Lobo Antunes, este livro não foi exceção, mas aqui a compreensão da narrativa foi mais lenta, talvez por que quase tudo é exposto perto do início e depois vai sendo reexposto em forma de variações, mas sempre com o mesmo carácter obsessivo, como uma esfera de espelhos rotativa que vai refletindo as mesmas imagens da envolvente, embora com alterações no nosso olhar.
Já li livros mais deprimentes que esta insónia, onde a morte está sempre presente, escolhe os personagens, perde-se entre eles e esquece-se de outros.
Embora com uma escrita e narração bem distintas, frequentemente lembrou-me "O Som e a Fúria" de Faulkner que li recentemente. Também aqui uma família rural que procura sobreviver à sua decadência, também a visão dos seus vários membros: criados, amantes, assassinatos/suicidios, também a importância de uma personagem central portadora de deficiência mental - neste caso autismo - uma estabilidade que se desmorona com o tempo à medida que a casa/quinta se vai degradando ou as pessoas se afastam dela.
No fim gostei, não foi o meu favorito de Lobo Antunes, mas continuo a admirar-me como ele consegue criar imagens, parágrafos e combinações plasticamente tão belos num clima tão opressivo e obsessivo

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A magia da Música passou novamente pelo Varadouro

A tradição do concerto de música erudita na quinta-feira da festa do Varadouro dentro da ermida de Nossa Senhora da Saúde regressou com o bom gosto, brilhante seleção musical e promoção de artistas ligados aos Açores e à direção artística a que Kurt Spanier nos habituou.
Este ano os instrumentos escolhidos foram a flauta, brilhantemente interpretada de novo neste sarau por Rodrigo Lima, a trompa, pelo estreante nesta tradição Buddy Robson e o órgão, pelo já conhecido e experiente professor Gustaaf van Manen, que tocaram obras de Rossini, Sweelinck, Valentine, Bach, Seixas, Mozart e Bach. 
O concerto começou com a originalidade para este tipo de sarau: um encontro para a caça de Rossini interpretado no exterior da ermida e fazendo lembrar o ambiente e o espírito da chamada para a floresta dos seguidores das dávidas de Diana, mas não foi menos belo o larghetto do concerto n.º 3 de Mozart para este instrumento.
Se o órgão foi rei várias vezes ao longo da noite, foi magnífico com obras de Carlos Seixas, este genial músico português num dos campos em que foi mestre e brilhantemente interpretado.

A flauta na sonata VII de Telemann foi encantadora, mas para mim a magia viveu-se com a sonata em sol menor BWV1020 de Bach... magnífico e mostrou bem as capacidades de Rodrigo Lima, o conhecimento do estilo musical do período barroco e o entendimento dele com o seu professor... foi mesmo muito bom!
No final fomos presenteados com os quatro músicos deste evento num rearranjo do Panis Angelicus de Cesar Franck, onde Kurt mostrou ainda a pujança da sua voz e de como é capaz de propor novas orquestrações para obras famosas, onde todos ficam a ganhar com a experiência... até os garajaus vieram juntar-se ao banquete deste Pão dos Anjos e juntaram os seus cantos noturnos tão típicos da natureza estival dos Açores.
Uma noite mágica e obrigado a todos.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

"A Guerra do Fim do Mundo" - Mario Vargas Llosa



"A guerra do Fim do Mundo" de Vargas Llosa, baseia-se numa revolta histórica de origem político-religiosa no nordeste brasileiro contra a República recém-implantada e liderada por um "líder" espiritual não reconhecido pela hierarquia eclesiástica.
Em torno deste fenómeno que se centra na localidade de Canudos no Estado da Baía, Llosa mostra que houve aproveitamentos ideológicos e partidários numa sociedade manipulável com exploradores, explorados, supersticiosos e oportunistas.
"- Juro que nunca foi republicano, que não aceito a expulsão do imperador nem a sua substituição pelo Anticristo... Que não aceito o matrimónio civil nem a separação da Igreja do Estado nem o sistema métrico decimal.Que não responderei às perguntas do recenseamento. Que nunca mais roubarei, nem fumarei, nem me embebedarei, nem apostarei, nem fornicarei por vício. E que darei a minha vida pela minha religião e pelo Bom Jesus."
Um grande, grande livro, apesar de estar amarrado a factos históricos, aos relatos da enorme violência que foi a guerra dos Canudos e ao genocídio em que acabou, é um excelente livro.
Interessante como Llosa consegue mostrar que homens a lutar à sombra de ideais humanistas são capazes das maiores barbáries. Enquanto outros, com um passado selvagem e criminoso, após um toque obscurantista místico e religioso se convertem e parecem dignos de compaixão, mesmo na sua luta de resistência suicida, fanática e irracional.
Um livro que pelo desfecho nos deixa tristes e insatisfeitos, mas que justifica o argumento que levou à atribuição a Llosa do prémio Nobel: "pela sua cartografia das estruturas de poder e pelas imagens pungentes da resistência, revolta e derrota dos indivíduos."
Literatura tipicamente sulamericana que, entre choques civilizacionais e culturais, evidencia as feridas que se abrem com uma transição rápida numa sociedade sem a devida compreensão pelo povo e os abusos que um periodo revolucionário trás consigo.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Cemitério de elefantes - de Dalton Trevisan

"Cemitério de Elefantes" de Dalton Trevisan é uma coleção de contos, vários deles curtíssimos da dimensão de uma crónica de jornal.
Foi o prémio Camões atribuído a Dalton Trevisan que me despertou curiosidade neste escritor e foi este o primeiro livro que li dele, uma sequência de personagens do povo onde os protagonistas pertencem a grupos ou famílias disfuncionais: bêbedos, adúlteros, violentos, criminosos, ladrões, proxenetas, prostitutas ou frustrados. As estórias são amorais, relatam, em linguagem descomplexada e simples, acontecimentos normais nestas gentes que são expostos de uma forma nua e acrítica.
Concluí o livro por ser pequeno e estar à espera de algo onde se tirasse alguma lição de moral, mensagem, ideia... nada!
Uma série de cenas tristes servidas sem qualquer tempero e provavelmente concidirá com o último livro que lerei de Dalton Trevisan.

domingo, 4 de agosto de 2013

Uma história de Amor e Trevas - Amos Oz


Acabei de ler "Uma história de amor e trevas" de Amos Oz, nunca lera nenhum escritor nascido e crescido em Israel, não é um romance, mas a história dos seus antepassados na diáspora desde os seus bisavós, a passar pelo movimento sionista que os reúne na então colónia inglesa da Palestina, prossegue com as memórias do autor ali nascido e chega a penetrar no século XXI.
Um século e meio de judeus asquenazis, um escritor produto do cruzamento de um ramo extremamente culto e conservador com outro de origens pobres, que passou pela riqueza burguesa no leste europeu, regressou à miséria no rescaldo da migração dos anos 30 e se manteve da esquerda progressista.
Muito bem escrito, cheio de ternura, por vezes exagera nos pormenores, com muitas informações culturais e sociológicas, uma família que é um retrato dos vários tipos de judeus, numa perspetiva humana sem ser contra ninguém, apesar das feridas e tensões não estarem ausentes.
Interessante os contactos diretos do autor e da família com várias personalidades importantes da cultura e da política israelita do século XX, os relatos da guerra da independência vistos pelos olhos de uma criança, a descoberta da irrealidade de alguns sonhos e o reconhecimento dos problemas dos adversários derrotados.
Um grande livre, excelentemente escrito e uma lição sobre a vida, os seus sonhos e desilusões sem abandono do humanismo e da razão.

terça-feira, 30 de julho de 2013

De Marx a Darwin, a desconfiança das Ideologias - Onésimo Teotónio de Almeida

Não tem é muito comum dissertar aqui sobre livros do género ensaio, algo que também gosto de ler em simultâneo com literatura e ciências.
Onésimo Teotónio Almeida é um Açoriano, formado em filosofia, que leciona em universidades na Nova Inglaterra temas relacionados com a sua área, mas também escreve ficção e tem vários livros de contos.
"De Marx a Darwin" reflete sobre o aproveitamento da teoria científica da evolução das espécies e sobrevivência dos mais aptos no suporte de determinadas ideologias neoliberais, como se a ciência validasse ideologias e modelasse a ética, bem como o esforço de uma ideologia, baseada na razão e em princípios éticos e morais por si só tivesse valor científico sem a validação do método experimental.
Entre o ser assim e o deve ser  ou como deve ser e querer que a realidade se submeta, vai uma grande diferença e uma dose de humildade nos partidários da ideologia e nas ciências é preciso para reconhecer a impertinência de se impôr ao outro face à ignorância que ainda domina o conhecimento alcançado.
Por fim os reflexos de Darwin sobre três Açorianos: Sena Freitas, um padre que procurou desmontar o evolucionimo com a humildade de sentir mais faltas de provas na época do que argumentos religiosos; Nogueira Sampaio cauteloso e vítima da intolerância religiosa contra teorias científicas; e Arruda Furtado, um discípulo de Darwin com quem teve uma correspondência profícua para a sua curta longevidade.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Já então a raposa era o caçador - Herta Müller


Terminei de ler "Já então a raposa era o caçador" de Herta Müller, escritora romena de expressão alemã e vencedora do prémio Nobel de 2009.
O livro descreve uma série de cenas curtas que mostram o dia-a-dia de cidadãos romenos de várias profissões pouco antes da queda de Ceausescu.
Devagarinho monta o retrato daquela sociedade, uma grande maioria atravessada pelo medo, miséria, corrupção, exploração, humilhação humana e resignada, mas conhecedora da classe dominante gestora do sistema, minoritária e com acesso a alguns bens, essenciais ou não, que parecem sempre um luxo reservado.
Sente-se o receio da maioria pelos sinais deixados de uma polícia secreta que tudo controla e se insinua por pistas simbólicas: na pele de uma raposa, nas cascas de pevides que deixa, nos inquéritos que promove e pela proteção e prendas a quem cativa.
Gostei da estória, das personagens e dos símbolos. Não gostei da escrita: troca de atributos dos sujeitos das frases com os complementos, o que amplia o efeito das pessoas como autómatos impotentes perante a realidade; metáforas por vezes forçadas e desagradáveis; e ausência de pontos de exclamação e de interrogação, um estilo que não me agradou.
Apesar de tudo, pelo retrato que constrói nos tempos em que vivemos: recomendo a leitura.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

A paixão segundo G. H. - Clarice Lispector


Há livros que se podem ler muitas vezes que nunca são relidos, pois o que seria uma releitura resulta em algo completamente diferente do anterior. "A paixão segundo G.H." de Clarice Lispector é uma dessas obras de uma originalidade rara e pronta a se apresentar como sempre nova diante de nós.
O texto, escrito no estilo de fluxo da consciência, resulta num caudal torrencial de ideias, questões e revoluções da mente que mais não são que a busca sobre o que é a plenitude da vida e do ser, bem como a ânsia de alcançar a comunhão ou numa transubstanciação do eu com a raiz das coisas, com a essência do universo, da alma ou de Deus, mas sem se atrever a definir nenhum deles e sobretudo este último, pois tal seria contê-lo nas nossas limitações e cobri-lo com o tempero a que nos habituámos a ver, ouvir, saborear e a sentir o que nos cerca.
Tal avalanche não torna o livro fácil, antes pelo contrário, e o incidente que desencadeia este turbilhão pode-nos dar a volta ao estômago, provocar-nos náuseas, vómitos e é um murro que nos deixa zonzos, perdidos, mas que só nos pretende levar a reencontrarmo-nos e a ter vontade de mais:
"Provação. Agora entendo o que é provação. Provação: significa que a vida está me provando. Mas provação: significa que eu também estou provando. E provar pode se transformar numa sede cada vez mais insaciável."
Descobrir Lispector através desta paixão é provar um bom escritor, um existencialista que deve ser único na nossa língua e no universo literário, mas não um mundo de facilidades...

sexta-feira, 12 de julho de 2013

História da ilha do Faial - das Origens a 1833 - Edição C. M. da Horta

Acabei de ler o Volume I da "História da Ilha do Faial - das origens a 1833", uma edição de luxo da Câmara Municipal da Horta .
O primeiro volume é uma excelente coletânea de excertos de crónicas das partes referentes ao Faial e escritas por portugueses (açorianos ou não) e estrangeiros, nomeadamente espanhóis, ingleses, flamengos e italianos, entre outros. Estas estão ordenadas cronologicamente desde o século XV até 1833, ano da elevação da Horta a cidade, e descrevem o povoamento, a geologia, a demografia, a divisão administrativa, batalhas, a conquista desta terra aquando do domínio de Portugal por Espanha, a agricultura, o comércio internacional, as tradições, a religião, o património desta ilha e os passos que levaram à instituição do ex-Distrito Autónomo da Horta.
Na última parte há uma análise crítica de historiadores contemporâneos sobre o conteúdo dos textos listados na obra e o seu contexto político.
A obra dá-nos um retrato da evolução desta ilha, a importância dos flamengos no povoamento do Faial, a resistência que os espanhóis encontraram por aqui, o peso desmesurado da religião, descrições do vulcão da Praia do Norte, a impossibilidade dos estrangeiros conquistarem a ilha a partir da Ribeirinha, as fragilidades desta terra e uma apreciação bastante crítica dos estrangeiros sobre o modo como os portugueses, faialenses e a religião desperdiçavam as potencialidades geoestratégicas, condições de abrigo da baía da Horta, climáticas e pedológicas para a economia do Faial.
Uma excelente volume, mesmo para quem não adquira a coleção constituída por mais dois que abordam aspetos diferentes da História do Faial. altamente recomendável a qualquer Faialense.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Franz Kafka - Os contos - Volume 1

Livro que reúne os escritos de Franz Kafka publicados durante a sua vida, desde textos muito pequenos, até alguns contos quase novelas dos mais famosos do autor como " A transformação" (A metamorfose) , "Um Artista da Fome", entre outros.
Como coletânea de textos escritos em momentos diferentes da vida de Kafka não há uma homogeneidade de estilo, alguns contos tocam o absurdo, outros alimentam esperanças no futuro e alguns expõem medos reais e uma sociedade onde os seus membros não se sabem relacionar. A uni-los uma qualidade de escrita que terminada a obra fica a saber a pouco e convida a comprar o segundo volume... adorei e devorei rapidamente o livro, mas confesso: sou um admirador deste Boémio.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Sismo de 9 de julho de 1998 - 15 anos

Quinze anos em que esta Ribeirinha onde resido foi atingida por um sismo, a freguesia mais devastada e mais próxima do epicentro desta catástrofe, tanto a sua localidade com o mesmo nome, como a localidade dos Espalhafatos foram destruídas praticamente em 100% das suas moradias, espaços de culto religioso, farol e edifícios de apoio agrícola.

Uma reportagem para recordar e homenagear todos os sinistrados que naquela altura deram as mãos e comigo colaboraram a enfrentar os momentos mais difíceis da Ribeirinha em toda a sua história iniciada em 1666.


Infelizmente, ainda hoje aqui na Ribeirinha há gente que desde então nunca mais teve condições dignas de habitação. Poucas, é certo, mas são seres humanos esquecidos e vítimas desta catástrofe!

sábado, 6 de julho de 2013

MOLLOY - Samuel Beckett

Um romance que disserta sobre a identidade do indivíduo, dividido em duas partes que parecem jogos simétricos de situações diferentes mas onde onde se vão descobrindo semelhanças:
A primeira, contada na primeira pessoa, narra linearmente a vida quotidiana de Molloy e o mundo que o cerca e com que se relaciona; lentamente, num exercício de memória sobre o passado, passa de incógnito e vai descobrindo a sua identidade, a começar pelo nome, nas lembranças recorda que explora a mãe sem o pretender, amou mulheres sem o desejar e deixa-se encontrar num mundo do qual ele é diferente dos outros.
A segunda, novamente na primeira pessoa, alguém apresenta a sua personagem nítida, os seus hábitos, as suas relações e lentamente ao caminho no futuro vai-se isolando do mundo, perdendo a sua identidade, discorda da suas agressões ao filho mas justifica-se, obediente perante superiores sem querer mas sem contestar, vai numa busca mas não se deixa encontrar num mundo no qual ele seria mais um ser igual aos outros.
Narrações bem estruturadas num mundo estranho onde já se perspetiva o absurdo da peça dramática "À espera de Godot" que Beckett escreveu pouco depois. Um texto de fácil leitura sem ser um romance fácil, mas uma obra que literariamente dá para entender por que se está perante um grande escritor. 

quinta-feira, 4 de julho de 2013

HORTA: 180.º aniversário de elevação a Cidade

A 4 de julho de 1833 a então vila da Horta, onde se situava a melhor baía e porto natural dos Açores e preferido pela navegação que unia a Europa às Américas do Norte e do Sul, pela sua importância marítima, distância, potencial económico, pujança cultural e distanciamento a outros centros de decisão foi elevada a cidade.
180 anos depois, o mar continua a ser a sua marca da Horta, conhecida como cidade-mar, é a principal entrada em Portugal no centro Atlântico Norte, aqui escalam navios de recreio de todo o mundo, atraídos pela sua posição estratégica no oceano, beleza paisagística, hospitalidade das suas gentes, cosmopolitismo dos povos que cruzam e o majestoso cenário da montanha do Pico.
Nem tudo corre bem aos sonhos que se desejam a esta cidade, mas hoje é dia de festa: Parabéns cidade da Horta pelo teu aniversário!

segunda-feira, 1 de julho de 2013

1.º de julho - dia do Canada

Fundado a 1 de julho de 1867, o Canada será sempre o meu País natal, o meu primeiro berço e um Estado de que me orgulho de ser cidadão.
Feliz dia do Canada a todos os Canadianos.
Uma história reduzida deste grande País que é o Canada

Oh Canada - Hino nacional numa versão algo diferente do habitual

sábado, 29 de junho de 2013

O Aleph - Jorge Luis Borges


Um conjunto de vários contos do realismo fantástico, frequentemente "validados" com fontes bibliográficas inexistentes. Estórias magnificamente escritas que cruzam mitos filosóficos, discussões teológicas, acontecimentos e personagens da história real, sonhos humanos, modelos imaginários do universo e esforços para a plenitude  do Homem que se encaixam entre si como imagens numa bola de espelhos ou um caleidoscópio em que por vezes não conseguimos distinguir a ficção e a realidade.
O lógico e o impossível de mãos dadas pode perturbar a racionalidade do leitor menos habituado ao labirinto de um fantástico que parece radicar-se na ciência que mais não é que a da alquimia e a do maravilhoso que a cercava.
Um pequeno livro que funciona como um aperitivo para procurar mais contos de Jorge Luis Borges...

domingo, 23 de junho de 2013

O Idiota - Fiódor Dostoiévski

Conseguirá alguém inteligente e culto, mas intrinsecamente tão bom que se torna ingénuo, convicto nas suas crenças e de uma honestidade transparente e voluntarioso passa a ser um temerário indefeso sobreviver numa sociedade onde as relações sociais estão minadas pela astúcia e a maldade?
Uma brilhante alegoria admiravelmente escrita que aproveita os bons sentimentos de alguém levados ao extremo que o desadaptam à convivência com os outros e lhe confere uma imagem de idiota para denunciar muito do que as relações humanas são capazes de fazer e em paralelo efetuar uma crítica à sociedade (neste caso russa) de então.
Uma obra genialmente escrita e elaborada com uma profunda caracterização de personagens e das suas relações humanas que cativa o leitor desde o início, diverte, desperta emoções e suspense sem deixar de ser um romance de análise social. Brilhante e intemporal!

quarta-feira, 12 de junho de 2013

A morte em Veneza - Thomas Mann



Li recentemente "A morte em Veneza", não só para tentar recordar aquela cidade que visitei tão recentemente, como por Thomas Mann ser um dos meus escritores de eleição.
É uma novela muito diferente dos famosos romances que projetaram o escritor para o Nobel, esta pode ter várias leituras: desde um mero relato de uma paixão platónica de um escritor de sucesso em virtude da sua racionalidade mas rendido irracionalmente à beleza de um efebo, como uma dissertação sobre a rendição artística dos sentidos ao belo face aos princípios rígidos da razão ou ainda o dilema entre seguir a "via espiritual" dos princípios ou a via dos sentidos corporais para a realização do indivíduo.
Um livro romântico cheio de ambiguidades que levanta muitas questões, para o fim expõe numerosas interrogações e subtilmente compara a sujeição da razão na gestão de um problema de saúde pública coletiva face aos interesses económicos e a rendição da razão de um cidadão aos princípios éticos e morais individuais em que se pautou perante a força da beleza sentida pelo artista.
Uma pequena grande obra cheia de sentimento que fura alguns preconceitos sem tomar partido em nenhuma das questões que levanta. Um pequena grande obra.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Veneza a rima perfeita com beleza

 A minha primeira impressão de Veneza foi de deslumbramento pela sua beleza...
 O movimento das gôndolas, dos vaporetti, dos táxis e barcos de carga no Grande Canal defronte a dezenas ou centenas de fachadas de palácios róseos de estilo veneziano é algo único e de uma poesia e estética inesquecível.
 As várias pontes que ligam ruas ou ilhas, com destaque para a arquitetura da do Rialto.
 As praças rosadas onde afluem numerosas ruas estreitíssimas que conferem um emaranhado labiríntico à cidade.
 Os pequenos canais que ora fazem de rua, ora são um rio entre passeio, ora atravessam praças e sempre com numerosas pontes de tamanhos variados.
A imensidão e imponência da praça de São Marcos com as suas arcadas, a torre campanille e a fachada bizantina da catedral esmagam pela beleza a primeira entrada do visitante vindo das ruelas que a bordejam.
 Em torno de São Marcos tudo é arte, imóveis tão diferentes combinam-se para dar um quadro harmónico com uma estética inigualável.

 A leveza e luz projetada pelo palácio dos Doges impressiona, cativa e desperta ternura para com um imóvel que foi sede de poder e onde a prepotência e a tortura parecem não ter podido ali localizar-se.
 Um interior desta residência é nada menos belo, imponente que o seu exterior mágico.
Tal como a magnificência dos dourados, dos mosaicos, dos tesouros e da arquitetura da catedral bizantina de São Marcos.
O romantismo dos gondoleiros e a serenidade da deslocação destas embarcações por pequenos canais de águas verdes a cheira a algas de lagoas estuarinas.
 O arquipélago que rodeia a cidade, com os seus campanários e imponência das suas catedrais e beleza do casario separado por autoestradas de água.
 Tudo se conjuga para uma cidade única onde a beleza é omnipresente
Tanto defronte dos palácios e templos, como nos becos, nos pequenos canais, no casario desbotado e com rebocos caído e nas ruelas labirínticas ou no chão, na água e mesmo no cimo da campanile... beleza é a palavra que combina na perfeição com Veneza.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Os homens esquecidos de Deus - Albert Cossery

Neste livro Albert Cossery, escritor egípcio de língua francesa, através de um conjunto de cinco contos apresenta-nos personagens que sobrevivem na miséria, comunidades enraizadas na pobreza, pessoas marginais da sociedade e habituadas à situação que, embora sem a compreender, nalguns casos quase que a aceitam como que uma fatalidade e não a questionam, noutras, como que ficam imobilizadas pelo estatuto de proscrito e o cultivam ou então esboçam os primeiros passos e sonhos para a ultrapassar.
Cossery, numa linguagem que sem ser agressiva não deixa de ser dura e crítica, através da ironia, do sarcasmo e de um absurdo não kafkiano desta árdua realidade torna o peso da miséria ubíquo ao longo do texto, mas cria uma relação original com o leitor perante situação relatada.
Rico mesmo nos seus contos é a qualidade e o estilo da escrita, uma descoberta muito interessante que dá para compreender por que veio a receber o grande prémio da francofonia pela qualidade da sua obra. Cossery é sem dúvida um escritor que merece ser conhecido.