sábado, 29 de junho de 2013

O Aleph - Jorge Luis Borges


Um conjunto de vários contos do realismo fantástico, frequentemente "validados" com fontes bibliográficas inexistentes. Estórias magnificamente escritas que cruzam mitos filosóficos, discussões teológicas, acontecimentos e personagens da história real, sonhos humanos, modelos imaginários do universo e esforços para a plenitude  do Homem que se encaixam entre si como imagens numa bola de espelhos ou um caleidoscópio em que por vezes não conseguimos distinguir a ficção e a realidade.
O lógico e o impossível de mãos dadas pode perturbar a racionalidade do leitor menos habituado ao labirinto de um fantástico que parece radicar-se na ciência que mais não é que a da alquimia e a do maravilhoso que a cercava.
Um pequeno livro que funciona como um aperitivo para procurar mais contos de Jorge Luis Borges...

domingo, 23 de junho de 2013

O Idiota - Fiódor Dostoiévski

Conseguirá alguém inteligente e culto, mas intrinsecamente tão bom que se torna ingénuo, convicto nas suas crenças e de uma honestidade transparente e voluntarioso passa a ser um temerário indefeso sobreviver numa sociedade onde as relações sociais estão minadas pela astúcia e a maldade?
Uma brilhante alegoria admiravelmente escrita que aproveita os bons sentimentos de alguém levados ao extremo que o desadaptam à convivência com os outros e lhe confere uma imagem de idiota para denunciar muito do que as relações humanas são capazes de fazer e em paralelo efetuar uma crítica à sociedade (neste caso russa) de então.
Uma obra genialmente escrita e elaborada com uma profunda caracterização de personagens e das suas relações humanas que cativa o leitor desde o início, diverte, desperta emoções e suspense sem deixar de ser um romance de análise social. Brilhante e intemporal!

quarta-feira, 12 de junho de 2013

A morte em Veneza - Thomas Mann



Li recentemente "A morte em Veneza", não só para tentar recordar aquela cidade que visitei tão recentemente, como por Thomas Mann ser um dos meus escritores de eleição.
É uma novela muito diferente dos famosos romances que projetaram o escritor para o Nobel, esta pode ter várias leituras: desde um mero relato de uma paixão platónica de um escritor de sucesso em virtude da sua racionalidade mas rendido irracionalmente à beleza de um efebo, como uma dissertação sobre a rendição artística dos sentidos ao belo face aos princípios rígidos da razão ou ainda o dilema entre seguir a "via espiritual" dos princípios ou a via dos sentidos corporais para a realização do indivíduo.
Um livro romântico cheio de ambiguidades que levanta muitas questões, para o fim expõe numerosas interrogações e subtilmente compara a sujeição da razão na gestão de um problema de saúde pública coletiva face aos interesses económicos e a rendição da razão de um cidadão aos princípios éticos e morais individuais em que se pautou perante a força da beleza sentida pelo artista.
Uma pequena grande obra cheia de sentimento que fura alguns preconceitos sem tomar partido em nenhuma das questões que levanta. Um pequena grande obra.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Veneza a rima perfeita com beleza

 A minha primeira impressão de Veneza foi de deslumbramento pela sua beleza...
 O movimento das gôndolas, dos vaporetti, dos táxis e barcos de carga no Grande Canal defronte a dezenas ou centenas de fachadas de palácios róseos de estilo veneziano é algo único e de uma poesia e estética inesquecível.
 As várias pontes que ligam ruas ou ilhas, com destaque para a arquitetura da do Rialto.
 As praças rosadas onde afluem numerosas ruas estreitíssimas que conferem um emaranhado labiríntico à cidade.
 Os pequenos canais que ora fazem de rua, ora são um rio entre passeio, ora atravessam praças e sempre com numerosas pontes de tamanhos variados.
A imensidão e imponência da praça de São Marcos com as suas arcadas, a torre campanille e a fachada bizantina da catedral esmagam pela beleza a primeira entrada do visitante vindo das ruelas que a bordejam.
 Em torno de São Marcos tudo é arte, imóveis tão diferentes combinam-se para dar um quadro harmónico com uma estética inigualável.

 A leveza e luz projetada pelo palácio dos Doges impressiona, cativa e desperta ternura para com um imóvel que foi sede de poder e onde a prepotência e a tortura parecem não ter podido ali localizar-se.
 Um interior desta residência é nada menos belo, imponente que o seu exterior mágico.
Tal como a magnificência dos dourados, dos mosaicos, dos tesouros e da arquitetura da catedral bizantina de São Marcos.
O romantismo dos gondoleiros e a serenidade da deslocação destas embarcações por pequenos canais de águas verdes a cheira a algas de lagoas estuarinas.
 O arquipélago que rodeia a cidade, com os seus campanários e imponência das suas catedrais e beleza do casario separado por autoestradas de água.
 Tudo se conjuga para uma cidade única onde a beleza é omnipresente
Tanto defronte dos palácios e templos, como nos becos, nos pequenos canais, no casario desbotado e com rebocos caído e nas ruelas labirínticas ou no chão, na água e mesmo no cimo da campanile... beleza é a palavra que combina na perfeição com Veneza.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Os homens esquecidos de Deus - Albert Cossery

Neste livro Albert Cossery, escritor egípcio de língua francesa, através de um conjunto de cinco contos apresenta-nos personagens que sobrevivem na miséria, comunidades enraizadas na pobreza, pessoas marginais da sociedade e habituadas à situação que, embora sem a compreender, nalguns casos quase que a aceitam como que uma fatalidade e não a questionam, noutras, como que ficam imobilizadas pelo estatuto de proscrito e o cultivam ou então esboçam os primeiros passos e sonhos para a ultrapassar.
Cossery, numa linguagem que sem ser agressiva não deixa de ser dura e crítica, através da ironia, do sarcasmo e de um absurdo não kafkiano desta árdua realidade torna o peso da miséria ubíquo ao longo do texto, mas cria uma relação original com o leitor perante situação relatada.
Rico mesmo nos seus contos é a qualidade e o estilo da escrita, uma descoberta muito interessante que dá para compreender por que veio a receber o grande prémio da francofonia pela qualidade da sua obra. Cossery é sem dúvida um escritor que merece ser conhecido.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Dom Casmurro de Machado de Assis


Acabei de ler este clássico da literatura brasileira escrito no início do século XX. 
Apresenta-se  sob a forma de una autobiografia para ser lida por terceiros, com interpelações diretas ao leitor e onde o autor se procura justificar por que se tornou Dom Casmurro, com base na estória da sua paixão de criança, o seu destino traçado para a dedicação sacerdotal e o evoluir desse amor, sobretudo sob a liderança da forte mulher que era Capitu e os incidentes que o futuro lhe reservou.
Uma escrita muito fácil, dividida por numerosos capítulos de pequena dimensão que pretendem cada um descrever um acontecimento ou refletir um assunto.
Um texto direto que mistura ironia, humor, ternura, paixão e ingenuidade em doses que justificam o resultado de se ter tornado num clássico que dá imenso prazer ler.

domingo, 2 de junho de 2013

Milão: as impressões da cidade


Como habitual, terminada uma visita a uma cidade Geocrusoe apresenta as impressões marcantes aí sentidas e Milão não será exceção.
Genericamente os aspetos mais marcantes de Milão serão: o Duomo ou a catedral, o fresco da última ceia de da Vinci, a moda e o comércio de luxo e a importância cultural do alla Scala, sobretudo no domínio da ópera.

Monumentalmente pela sua qualidade estética e impacte arquitetónico, o Duomo destaca-se de toda a cidade, com as suas fachadas de calcário claro, onde se misturam o estilo gótico e neoclássico e se encontram numerosas esculturas e rendilhados de santos, gárgulas e agulhas que conferem um riqueza que merece ser apreciada. 
No resto da cidade  não abundam grandes monumentos de beleza significativa, embora se encontrem alguns imóveis antigos, como a basílica de Santo Ambrósio na sua traça medieval, o castelo Sforza da grande família do poder em Milão durante o renascimento e algumas relíquias do império romano.


Não parecem existir bairros históricos antigos em Milão, provavelmente foram demolidos em planos de urbanização do século XIX onde se construíram largas vias marginadas por imóveis elegantes de estilos barroco e romântico, resistindo alguns arruamentos entre estes eixos viários na sua maioria pintados de cores ocres a castanhos e bem arranjados.


Genericamente Milão é uma cidade mais elegante, cosmopolita e exibicionista de luxo do que monumental ou com grande riqueza patrimonial e onde infelizmente pululam mendigos nas zonas mais imponentes e de exposição das grandes marcas para as pessoas mais ricas do planeta.
Para mim o alla Scala foi sem dúvida o elemento que mais me cativou e me convida a voltar...