sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A magia da Música passou novamente pelo Varadouro

A tradição do concerto de música erudita na quinta-feira da festa do Varadouro dentro da ermida de Nossa Senhora da Saúde regressou com o bom gosto, brilhante seleção musical e promoção de artistas ligados aos Açores e à direção artística a que Kurt Spanier nos habituou.
Este ano os instrumentos escolhidos foram a flauta, brilhantemente interpretada de novo neste sarau por Rodrigo Lima, a trompa, pelo estreante nesta tradição Buddy Robson e o órgão, pelo já conhecido e experiente professor Gustaaf van Manen, que tocaram obras de Rossini, Sweelinck, Valentine, Bach, Seixas, Mozart e Bach. 
O concerto começou com a originalidade para este tipo de sarau: um encontro para a caça de Rossini interpretado no exterior da ermida e fazendo lembrar o ambiente e o espírito da chamada para a floresta dos seguidores das dávidas de Diana, mas não foi menos belo o larghetto do concerto n.º 3 de Mozart para este instrumento.
Se o órgão foi rei várias vezes ao longo da noite, foi magnífico com obras de Carlos Seixas, este genial músico português num dos campos em que foi mestre e brilhantemente interpretado.

A flauta na sonata VII de Telemann foi encantadora, mas para mim a magia viveu-se com a sonata em sol menor BWV1020 de Bach... magnífico e mostrou bem as capacidades de Rodrigo Lima, o conhecimento do estilo musical do período barroco e o entendimento dele com o seu professor... foi mesmo muito bom!
No final fomos presenteados com os quatro músicos deste evento num rearranjo do Panis Angelicus de Cesar Franck, onde Kurt mostrou ainda a pujança da sua voz e de como é capaz de propor novas orquestrações para obras famosas, onde todos ficam a ganhar com a experiência... até os garajaus vieram juntar-se ao banquete deste Pão dos Anjos e juntaram os seus cantos noturnos tão típicos da natureza estival dos Açores.
Uma noite mágica e obrigado a todos.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

"A Guerra do Fim do Mundo" - Mario Vargas Llosa



"A guerra do Fim do Mundo" de Vargas Llosa, baseia-se numa revolta histórica de origem político-religiosa no nordeste brasileiro contra a República recém-implantada e liderada por um "líder" espiritual não reconhecido pela hierarquia eclesiástica.
Em torno deste fenómeno que se centra na localidade de Canudos no Estado da Baía, Llosa mostra que houve aproveitamentos ideológicos e partidários numa sociedade manipulável com exploradores, explorados, supersticiosos e oportunistas.
"- Juro que nunca foi republicano, que não aceito a expulsão do imperador nem a sua substituição pelo Anticristo... Que não aceito o matrimónio civil nem a separação da Igreja do Estado nem o sistema métrico decimal.Que não responderei às perguntas do recenseamento. Que nunca mais roubarei, nem fumarei, nem me embebedarei, nem apostarei, nem fornicarei por vício. E que darei a minha vida pela minha religião e pelo Bom Jesus."
Um grande, grande livro, apesar de estar amarrado a factos históricos, aos relatos da enorme violência que foi a guerra dos Canudos e ao genocídio em que acabou, é um excelente livro.
Interessante como Llosa consegue mostrar que homens a lutar à sombra de ideais humanistas são capazes das maiores barbáries. Enquanto outros, com um passado selvagem e criminoso, após um toque obscurantista místico e religioso se convertem e parecem dignos de compaixão, mesmo na sua luta de resistência suicida, fanática e irracional.
Um livro que pelo desfecho nos deixa tristes e insatisfeitos, mas que justifica o argumento que levou à atribuição a Llosa do prémio Nobel: "pela sua cartografia das estruturas de poder e pelas imagens pungentes da resistência, revolta e derrota dos indivíduos."
Literatura tipicamente sulamericana que, entre choques civilizacionais e culturais, evidencia as feridas que se abrem com uma transição rápida numa sociedade sem a devida compreensão pelo povo e os abusos que um periodo revolucionário trás consigo.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Cemitério de elefantes - de Dalton Trevisan

"Cemitério de Elefantes" de Dalton Trevisan é uma coleção de contos, vários deles curtíssimos da dimensão de uma crónica de jornal.
Foi o prémio Camões atribuído a Dalton Trevisan que me despertou curiosidade neste escritor e foi este o primeiro livro que li dele, uma sequência de personagens do povo onde os protagonistas pertencem a grupos ou famílias disfuncionais: bêbedos, adúlteros, violentos, criminosos, ladrões, proxenetas, prostitutas ou frustrados. As estórias são amorais, relatam, em linguagem descomplexada e simples, acontecimentos normais nestas gentes que são expostos de uma forma nua e acrítica.
Concluí o livro por ser pequeno e estar à espera de algo onde se tirasse alguma lição de moral, mensagem, ideia... nada!
Uma série de cenas tristes servidas sem qualquer tempero e provavelmente concidirá com o último livro que lerei de Dalton Trevisan.

domingo, 4 de agosto de 2013

Uma história de Amor e Trevas - Amos Oz


Acabei de ler "Uma história de amor e trevas" de Amos Oz, nunca lera nenhum escritor nascido e crescido em Israel, não é um romance, mas a história dos seus antepassados na diáspora desde os seus bisavós, a passar pelo movimento sionista que os reúne na então colónia inglesa da Palestina, prossegue com as memórias do autor ali nascido e chega a penetrar no século XXI.
Um século e meio de judeus asquenazis, um escritor produto do cruzamento de um ramo extremamente culto e conservador com outro de origens pobres, que passou pela riqueza burguesa no leste europeu, regressou à miséria no rescaldo da migração dos anos 30 e se manteve da esquerda progressista.
Muito bem escrito, cheio de ternura, por vezes exagera nos pormenores, com muitas informações culturais e sociológicas, uma família que é um retrato dos vários tipos de judeus, numa perspetiva humana sem ser contra ninguém, apesar das feridas e tensões não estarem ausentes.
Interessante os contactos diretos do autor e da família com várias personalidades importantes da cultura e da política israelita do século XX, os relatos da guerra da independência vistos pelos olhos de uma criança, a descoberta da irrealidade de alguns sonhos e o reconhecimento dos problemas dos adversários derrotados.
Um grande livre, excelentemente escrito e uma lição sobre a vida, os seus sonhos e desilusões sem abandono do humanismo e da razão.