sábado, 8 de fevereiro de 2014

O Homem de Constantinopla - José Rodrigues dos Santos

Este livro que se completa com uma segunda obra pretende romancear a vida de Calouste Gulbenkian que enriqueceu à sombra da ascensão da indústria do petróleo e foi o maior mecenas cultural e científico de Portugal. Um homem de origem arménia que deixou em Lisboa uma das maiores fundações privadas do mundo de apoio às artes e ciências e o espólio de um magnífico museu sobretudo de arte do século XX.
Este volume conta a infância, juventude e ascensão de Calouste até ao início da I Guerra Mundial, mas mesmo tendo em consideração a necessidade de inventar pormenores para sustentar a trama de um romance em torno de uma pessoa real, pelo que sei, a estória de "O homem de Constantinopla" também não é bem fiel à vida original da personagem ficcionada e deduzo mesmo alguma especulação para dar intensidade ao texto sem um respeito pertinente ao retrato de carácter e de psicologia do verdadeiro homem. O que é pena.
José Rodrigues dos Santos escreve corretamente, mas exagera nas figuras de estilo e metáforas fáceis, o que torna o texto pretensioso, desvirtua o equilíbrio da forma e dá à obra um tom mais de agrado popular e lúdico do que valor literário. Apesar de tudo, o romance é agradável, fornece dados interessantes sobre Calouste Gulbenkian e a sua época.
Está-se perante uma obra acessível a qualquer leitor, mesmo não habituado a obras intelectualmente mais exigentes, para quem ler é sobretudo um passatempo de lazer e manteve-me o interesse em ler o segundo romance para onde agora vou mergulhar. 

7 comentários:

Manuel Cardoso disse...

Olá Carlos
há muito tempo não lia uma justificação tão acertada para o sucesso deste tipo de literatura:
"José Rodrigues dos Santos escreve corretamente, mas exagera nas figuras de estilo e metáforas fáceis, o que torna o texto pretensioso, desvirtua o equilíbrio da forma e dá à obra um tom mais de agrado popular e lúdico do que valor literário."
É isso mesmo!
E é porisso que continuo a resistir à leitura de JRS.
Abraço

Carlos Faria disse...

Eu compreendo a resistência, nunca lera nada dele antes, o que me motivou foi mais conhecer Calouste Gulbenkian do que o romance... mas de tempos a tempos uma obra mais fácil não faz mas, mas dispensava aquele pretensiosismo de JRS no texto.

Pedrita disse...

ah, q pena, tinha ficado curiosa. beijos, pedrita

Carlos Faria disse...

Mesmo assim recomendo pelo enredo esboçado e facilidade de leitura que o leia.
Embora exista uma biografia não romanceada de Calouste oficial publicada em Portugal e que tenta ser fiel à vida deste mecenas nos seus aspetos públicos de quem chegou a ser o homem mais rico do mundo.

São disse...

Quer me parecer a mim que gostar da escrita de José Rodrigues dos Santos se tornou em algo de mau tom, algo que fica mal, algo que se atribui a tolinhos e pessoas fracas de espírito. É um pouco como gostar da música do Tony Carreira (Tony Carreira é mau, Júlio Iglésias é bom!). Eu adoro a escrita do José Rodrigues dos Santos, já li tudo o que escreveu e não me considero tão burra como tudo isso. Aliás, a minha formação académica é em Literatura. Passei 5 anos especificamente à procura da resposta à pergunta "O Que é boa Literatura?" e não cheguei a conclusão nenhuma. Acho que, tal como em qualquer outra área, um romance é bom dentro do seu estilo. É bom se serve o propósito e atinge o seu objectivo.

Fica bem considerar José Rodrigues dos Santos como algo que fica mal a uma pessoa inteligente ler e que, a ler, só mesmo muito de vez em quando, para desanuviar da verdadeira literatura, que eu não sei muito bem o que é. Fica bem considerar algo de muito, muito simples, quando a mim não me parece tão simples assim. Quer-me fazer parecer inclusive que quem considera muito simples ou é realmente uma pessoa com uma inteligência acima da média, ou não atingiu a mensagem, ou, terceira hipótese: eu sou mesmo muito burra!

Em relação a estes dois romances, que na verdade são apenas um, "O Homem de Constantinopla" e "Um Milionário em Lisboa" parece-me a mim que depois da sua leitura já ninguém irá olhar com os mesmos olhos a figura da Calouste Gulbenkian, que era até aqui, uma figura muito abstracta. Se o objectivo era esse (quer me parecer que sim) então foi atingido.

Se há alguma especulação, alguns elementos que não são fiéis, algumas coisas que terão sido inventadas? É possível. Mas por isso mesmo se trata de uma biografia romanceada e os nomes das personagens foram alterados. Possivelmente, se fosse uma biografia fiel tal como "O Senhor Cinco Por Cento", metade das pessoas que leram não iria ler. Sim, porque há a parte lúdica. Mas não se trata apenas de entretenimento. Mais: ainda que seja a personagem central, não estamos apenas perante a história de Kaloust Sarkisian. Somos postos perante todo um contexto histórico que vai desde o nascimento da personagem até à sua morte. Assistimos ao extermínio do povo arménio, à destruição do império otomano e a todos os factores históricos em cujo contexto a vida daquele homem se desenvolveu. Há pormenores curiosos que, com mais ou menos ironia, nos levam a pensar em certas coisas. Não pude deixar de pensar quando, no segundo volume "Um Milionário em Lisboa" e o seu advogado, Azevedo Passarão (adorei esta alteração do nome, parece feita para o Contra Informação, mas saiu bem :) ) são recebidos pelo Salazar, que durante a reunião, empresta duas mantas aos convidados par se embrulharem, porque... Havia que poupar em lenha ;) . Adoro estes pormenores.

Enfim, eu não me envergonho de dizer que se trata de um dos meus autores favoritos. E não me considero uma estúpida e burrinha como passou a ser de bom tom considerar-se os leitores de José Rodrigues dos Santos :)

Carlos Faria disse...

Está a confundir as águas ao sentir que a crítica que fiz à forma desmesuradamente pretensiosa como JRS trabalhou o texto também é um ataque aos seus leitores. Além de não o ser, eu ainda assumi que passei ao segundo volume e nos comentários acima até recomendei a leitura do livro.
Tal não invalida que JRS literariamente escreveu o volume mais como Tony Carreira canta do que como Placido Domingo, só com o problema de querer estilizar romanticamente como se fosse Almeida Garrett o que lhe dá o tom extemporâneo e pretensioso.
Ainda só li a 1.ª parte do II volume, mas aqui, talvez por o tema ser tão duro, JRS conteve-se e gostei muito mais da escrita.
Na arte nem sempre a facilidade de agrado popular é a originalidade da obra-prima e Gulbenkian não se rendia a uma beleza popularucha.
Se gosta de JRS leia é a minha recomendação, mas explore também grandes escritores nem sempre fáceis, mas também os há, só na nossa língua Eça, Amado, Rubem Fonseca, Agualusa, etc. e outros mais difíceis: Lispector, Saramago, Lobo Antunes, Gonçalo M Tavares, etc.
Também por vezes gosto de livros fáceis e não há mal nenhum nisso.

São disse...

Cá está : as pessoas são diferentes e gostam de coisas diferentes. Também vêem as coisas de forma diferente, dependendo da sua maneira de ser, da sua natureza pessoal, da sua personalidade. Eu não acho que A escrita de José Rodrigues dos Santos seja demasiado pretenciosa, nem que as figuras de estilo sejam muito exageradas. Pelo contrário, acho que consegue fazer descrições não só de espaços como de sentimentos como ninguém. E sem exageros, acho eu. Já que falou no Almeida Garret, eu digo-lhe que aqueles primeiros 10 capítúlos de "Viagens na Minha Terra" chegaram a dar-me naúsesas. A sorte é que depois a história se torna dinâmica. Acho que metade daqueles 10 capítulos tinham chegado muito bem! Ou menos ainda. Adoro o Eça e, curiosamente, acho que há imensos pontos em comum entre o Eça e o JRS, nas descrições então :) ... Em relação ao Saramago, foi algo que enjoei. Dizem que Saramago ou se adora ou se detesta. Eu não adoro nem detesto. Gosto, mas não considero por aí além. É a tal coisa: fica bem gostar muito de Saramago, é sinal de sabedoria, de inteligência e sei lá mais o quê. Depois de ter lido uns quantos ("Jangada de Pedra", "Memorial do Convento", "Evangelho Segundo Jesus Cristo", "Ensaio Sobre a Cegueira" e dois em forma de peça de teatro, "In Nomine Dei" e "A Segunda Vida de Francisco de Assis") cansei-me de Saramago. Gosto dos temas, capto as mensagens, não me parece difícil, depois de se entrar na escrita do autor, mas essa escrita, esse registo, irrita-me. Sei que é um estilo, que é muito bem considerado e tudo o mais, mas a mim enjoou-me. Prefiro linguagem clara. Gosto de pontuação, enfim... Chegou a um ponto em que enjoei. Talvez um dia leia outros romances dele, mas há anos que enjoei. Sei que foi prémio nobel, mas isso pouco me diz. Ainda que eu não seja ninguém, teria entregado esse prémio ao António Lobo Antunes. Também é louco, mas gosto mais dessa loucura :) . Adoro o José Eduardo Agualusa. Ele tem um pequeno romance com o título "O Vendedor de Passados" que para mim é excelente. Gonçalo M. Tavares não me diz muito, mas não nego que é bom.

Outro escritor da actualidade de quem gosto imenso é do Válter Hugo Mãe, e passei a gostar mais desde que ele perdeu a pancada de escrever só em minúsculas. Cá está: não gosto de certos estilos que parece que se adoptam para parecer engraçado e que, para mim, foi como o Saramago começou... Nesse caso pegou :)

Ainda em relação ao José Rodrigues dos Santos, não o considero tão fácil assim. Ou melhor, é fácil da forma como ele expõe os temas, porque ele aborda temas complexos, só que os expõe de uma forma muito clara, usa uma linguagem muito clara. Aliás, ele também é assim enquanto jornalista e, na oralidade, acompanha o que vai explicando com gestos a fim de melhor se fazer entender (estou a olhar para ele neste momento, é curioso). Aliás, não o conheço enquanto professor, mas acredito que deve ser um professor que sabe expor muito bem as matérias e analisá-las.

Em relação a estes dois, considero o segundo "Um Milionário em Lisboa" muito superior ao primeiro, mas isso é normal, porque tendo em conta que ambos constituem um único romance, é antural que a acção ganhe interesse À medida que avança :)