domingo, 29 de junho de 2014

Férias - Holanda: Amesterdão

Imagem wikipedia

Em 2014 volto a uma cidade de canais, isto cerca de um ano depois de visitar Veneza que me fascinou no ano passado, desta vez viajo pelo norte da Europa: Amesterdão na Holanda, a terra que Rembrandt escolheu viver e onde fez grande parte das suas pinturas, a sede do Concertgebouw para dignificar a interpretação da música e onde muitos judeus portugueses se refugiaram dos "pogromes" lusitanos e daí ter nascido Espinosa, isto devido à tolerância cultural e religiosa dos seus habitantes.

Por agora é demasiado cedo para me pronunciar sobre a cidade, primeiro há que explorar os cheiros, as cores, a comida, a arquitetura, os museus, a música e as vivências, mais tarde por aqui penso expor as minhas impressões sobre Amesterdão e ainda circular por outras terras do reino da Holanda: um Estado que ao contrário de Portugal, ao perder o seu império de ultramar e ao ter uma escassa área de terra para os seus habitantes, soube encontrar soluções para manter um elevado nível económico e de bem-estar socioeconómico aos seu povo e até conquistar terras ao mar para alargar o seu território.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Bichos de Miguel Torga


Uma série de vários pequenos contos, na sua maioria protagonizados por animais do meio rural português, tanto domésticos como selvagens e que segundo Torga formam uma espécie de arca de Noé... que até entra no último conto.
Com a escrita característica de Torga e os seus regionalismos trasmontanos, no seu conjunto mostram-se não só as vivências rurais das pessoas, como o quotidiano e o destino dos animais de quinta e dos que os cercam, predadores ou não, mas sempre humanizados com sentimentos de heroísmo, ironia, esperteza e por vezes com uma dose de fatalismo previsível.
Leem-se todos os contos facilmente, que formam um conjunto divertido, bucólico e deixam um retrato do que foi um mundo rural e da sua cultura popular já quase extinta.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

"Um Homem: Klaus Klump" & "A máquina de Joseph Walser" de Gonçalo M. Tavares


O livro "Um Homem: Klaus Klump A máquina de Joseph Walser" de Gonçalo M. Tavares reúne dois romances publicados inicialmente em separado e que correspondem aos dois primeiros volumes da tetralogia "O Reino" passado num país onde as relações humanas são como que mecanizadas, frias e sem o tempero dos sentimentos, não se pode dizer que é um estado totalitário, mas não é um regime saudável.
Em "Um Homem: Klaus Klump" vemos o dia-a-dia deste cidadão quando o seu país entra em guerra, não se sabe se foi invadido ou foi tomado por uma fação, Klump adere à resistência e prossegue as suas relações com amantes, mas abandona uma e é traído pela outra que o entrega à máquina no poder, é preso e consegue fugir. À sua volta contacta com indivíduos que cooperam como máquinas de sobrevivência ou resistem como máquinas de espalhar a morte de onde se destaca uma das mulheres que friamente vive nesta ambiguidade e não só sobrevive como está num elevado patamar social quando a guerra termina.
O mundo e o tempo de Walser é concomitante com o da história de Klaus, existem inclusive algums referências e interligações às personagens do primeiro romance, mas estas nunca são intervenientes diretos no segundo. A complexidade e interligação entre o homem como máquina e a máquina com que o protagonista trabalha, a máquina que faz a guerra, a máquina que morre, a máquina que é amiga ou mata é o mote para a reflexão no mundo de Joseph. A guerra é como que um período de intensificação destas máquinas, mas também pode virar a uma habituação e a guerra então morre por cansaço e indiferença das máquinas humanas, mas será que a sobrevivente está preparada para os desafios dos ataques da máquina humana em tempo de paz?
Gonçalo M. Tavares é para mim um escritor contemporâneo de escrita ímpar, acima de qualquer onda publicitária, vale por si, pela sua criatividade, pela sua frieza de criar relações humanas e sociedades distópicas e deprimente onde cada pormenor é dissecado com uma crueza que dói e maravilha que o lê. Todos os livros que li dele são grandes obras, mesmo quando correspondem a pequenas histórias...

quinta-feira, 19 de junho de 2014

"Rosa Brava" de José Manuel Saraiva


Rosa Brava de José Manuel Saraiva é uma biografia romanceada de Leonor Teles, talvez a rainha mais odiada da história de Portugal, com início na sua juventude e prolongando-se até ao seu exílio no final da vida.
O romance ficcionado por um jornalista não deixa de refletir a escrita jornalística, simples mas sem um fulgor de estilo literário de um escritor de ficção, embora se leia bem, sente-se esta singeleza e pobreza ao contar-se a vida de uma das personagens mais polémicas que esteve na base da queda da dinastia de Borgonha, das  guerras fernandinas e da crise do reino que colocou levou ao início da dinastia de Avis.
A obra vale sobretudo pelo relato de uma época turbulenta e dos principais acontecimentos de então e está feita de uma forma fácil de ler, aquecida com o calor de diálogos simples do autor e apimentada, talvez com alguma criatividade, com as paixões despertadas pela beleza e intimidade de Leonor Teles que com ardis, vinganças e rotura de princípios chegou a rainha.
Gostei de recordar e compreender melhor o período e a pessoa em causa...

sexta-feira, 13 de junho de 2014

"Orlando - Uma biografia" de Virginia Woolf


"Orlando - uma biografia" é uma das obra de Virginia Woolf mais conhecidas e de maior sucesso.
Conta a vida desta personagem fruto da pesquisa de um suposto biógrafo que chega a comentar os principais acontecimento de Orlando, um pessoa da alta nobreza e rica que nasceu homem no final do século XVI e se transformou de modo fantástico em mulher aos trinta e poucos anos e sobrevive até à data de publicação da obra em 1928.
Orlando anseia escrever a melhor poesia e ao longo da sua extensa vida aperfeiçoa o seu poema, contacta escritores famosos, que considera seres acima dos outros, e é ridicularizado por estes. Procura o amor ideal e ao encontrar a paixão descobre a traição. Entra na diplomacia e sente o vazio do protocolo. Vira a mulher sabendo o que é ser homem e sente as condicionantes sociais do género feminino. Mergulha na sociedade em busca de uma cultura superior e depara-se com a futilidade. Assistiu ao passar de reis e rainhas com quem se cruzou, observou o progresso tecnológico e industrial e alcançou o sucesso literário, de esposa e mãe numa sucessão de eus que são lembrados no fim da obra.
Não deixa de ser um livro estranho, onde o fantástico se cruza com a história da Inglaterra e as evoluções da sociedade. Ora irónico, ora crítico, ora divertido, ora denso e massudo, mas gostei.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

"Caligrafia dos sonhos" de Juan Marsé


"Caligrafia dos sonhos" do catalão Juan Marsé é uma série de episódios, distribuídos por capítulos, de um adolescente num bairro pobre de Barcelona no final da década de 1940 e contados com uma escrita magnífica que parecem mesmo memórias em forma de sonhos. Estes atravessam os amores, desamores e dificuldades de figuras da rua, passam pelas aventuras de infância à juventude do protagonista com a família e os amigos, o seu despertar para a sexualidade, a sua fértil imaginação e os seus gostos pessoais, entra nos riscos de quem enfrentava o início do franquismo e a marginalidade e vai até à passagem precoce de Ringo na vida adulta.
A forma brilhante que Marsé adota no texto valoriza fortemente a história, algumas personagens femininas são descritas com tal intensidade que fazem lembrar as mulheres dos filmes de Pedro Almodovar, transformando acontecimentos banais de bairro em peças de arte literária. Gostei muito livro e recomendo a qualquer leitor.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

"A Voz dos Deuses" de João Aguiar


"A voz dos Deuses" romanceia a liderança de Viriato através das memórias de um filho fictício de uma relação entre um histórico príncipe bracarense exilado em Cineticum (Algarve) com uma nobre fenícia, o qual teria sido próximo deste herói real que está na memória dos Portugueses e na origem da nossa identificação como Lusitanos. 
No livro ficamos a conhecer não só as principais batalhas e feitos de Viriato, como a sua estratégia militar e as grandes dificuldades dos romanos para derrotarem este povo da Hispânia, o que maior resistência lhes ofereceu na península e só conquistado após a traição e morte deste líder guerrilheiro. 
João Aguiar introduz ainda no romance algumas viagens do autor das memórias para assim nos relatar os costumes, as crenças e a diversidade dos povos peninsulares e da guerrilha quando da romanização ibérica.
A escrita em "A voz dos Deuses" de João Aguiar, que foi jornalista e escritor, é simples e despretensiosa e este livro foi não só o seu primeiro romance, como deu início a uma trilogia, que em ficção, em parte baseada em factos reais, cobriu a história do território nacional no tempo da conquista, resistência, consolidação e declínio do poder do império romano na Ibéria. Esta obra deixa já abertura para o romance: "A hora de Sertório", sobre o romano que liderou a resistência lusitana num período em que mais do que a libertação do território este povo desejava sobretudo ser governado com justiça.