sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

"O Deserto dos Tártaros" de Dino Buzzati


"O deserto dos tártaros" conta a vida do militar Drogo desde a sua saída da academia jovem e cheio de sonhos heróicos para a vida que é enviado para a isolada Fortaleza, situada na fronteira defronte ao "deserto dos tártaros", onde além da rotina, nada se passa à exceção da espera interminável de eventuais invasores para conquista da heroicidade.
Dino Buzzati, com uma mestria literária genial, mostra-nos o efeito da rotina e da habituação que alimenta o comodismo, o receio da mudança e deixa uma pessoa refém das suas amarras, escrava, imóvel no tempo e alheia ao mundo exterior que flui sem parar, em progressiva mudança, a evoluir e onde arriscar é chave para dar significado à vida.
O livro desenvolve-se não num ambiente nostálgico, mas antes na esperança no futuro improvável, ironicamente a glória do combate, onde pela espera da guerra se desperdiçam as oportunidades do presente e se perdem os objetivos de vida, criando uma uma sensação de progressiva frustração absurda que resulta da imobilidade vazia até ser demasiado tarde, face aos que de facto lutaram no seu presente e se tornaram vencedores pela capacidade de decisão e de correr riscos.
Um romance ao mesmo tempo alegórico, triste e muito bonito, um apelo a arregaçarmos as mãos e conquistarmos a nossa vida com os riscos da liberdade, antes que se perca tudo.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

"O Coração das Trevas" de Joseph Conrad


Há livros que nunca será demais ler e reler numerosas vezes que sempre terão algo de novo para nos questionar ou dizer, "O Coração das Trevas" de Joseph Conrad é um desses livros. Um pequeno romance, cujo conteúdo é enorme e por mais que se leia, levantará sempre novas perguntas sobre até onde pode ir o fundo negro do homem na exploração e no desprezo pelo outro.
Um livro inquietante onde um Europeu, Marlow, relato o que viu ao navegar pela floresta primitiva através do rio Congo para ir buscar alguém que estava no posto mais distante da companhia que abastecia a Bélgica de marfim e se tornara incómodo.
O relato mostra o que homem civilizado e moderno é capaz de fazer a um povo, que representa a origem da humanidade na floresta primitiva, para satisfazer os seus interesses e sem dar qualquer importância à vida e ao bem-estar do seu semelhante e como este escravizado ainda é capaz de se humilhar ao serviço deste super-homem de valores e princípios que o explorou.
Uma obra aproveitada para as partes mais inquietantes do filme de Coppola "Appocalipse Now", com uma descrição forte, cinematográfica, com uma escrita moderna apesar de ser de 1902 e cheia de interrogações subtis, colocadas pelas dúvidas e consciência de Marlow.
Mais grave ainda é descobrir como alguém com o sonho de civilizar o povo da floresta se transforma num deus do mal depois de todo o horror que viu no rio Congo. Uma obra de arte, incómoda, que agita a consciência, feita para pessoas que se interrogam mas também para aquelas que se deixam enganar por este Europeu de valores que abolira a escravatura que deve ser lida várias vezes na vida.

sábado, 24 de janeiro de 2015

"O vermelho e o negro" de Stendhal


"O vermelho e o negro" de Stendhal, pseudónimo de Henri-Marie Beyle, escrito em 1830, poucas décadas depois da revolução francesa por um bonapartista convicto, é um romance que possui uma estrutura característica do século XIX, a limpidez da escrita, a linearidade da história e capítulos intitulados seguidos de frases ou citações que nos introduzem no conteúdo dessa divisão da obra, possui também um conjunto de pormenores que o distanciam do romantismo e o colocam como precursor do realismo. A análise social omnisciente do autor coloca virtudes, defeitos e contradições em todas as classes sociais e as personagens possuem todas essas características, não havendo bons perfeitos e maus apenas diabólicos, o clero é constituído por pessoas que encerram todos os vícios da sociedade e digladiam-se para conservar o poder individual terreno e egoísta.
Stendhal desenvolve uma trama onde o ainda adolescente Julien Sorel, de origem humilde é marcado pela ambição como marca do estrato baixo que olha para os outros sentido-se em desvantagem por condições de nascimento, o que lhe perturba as paixões. Os burgueses e nobres lutam para garantir o seu estatuto social, os primeiros ascendendo com a revolução e os segundo em declínio desde da monarquia e sentem-se com direitos adquiridos e olhas as pessoas como peças do seu xadrez. As suas mulheres de sociedade são escravas dos seus sentimentos e não se limitam aos seus iguais, são capazes de ver em Sorel um amante a esconder. Tudo isto gera conflitos, ora os novelescos do amor, ora sociais e políticos, onde o protagonista inseguro procura a ascensão numa idade imatura das paixões, tornando-se vítima desta rede de interesses.
Se podemos ver uma história de paixões, existem numerosas subtilezas e críticas sociais ao século XIX e ruturas com a ética e a moral prevalecente no passado, pelo que o romance vai muito além do amor para se tornar numa profunda análise e retrato pensado da sociedade francesa contemporânea de Stendhal, o que o torna numa obra-prima no seu género, cheio de ensinamentos e agradável de se ler. Gostei muito.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

"Viagem ao fim da noite" Céline


Apesar de ser um bom romance não posso dizer que "Viagem ao fim da noite" de Louis-Ferdinand Céline virá a ser um dos livros da minha vida.
Um protagonista, Bardamu, que começa por relatar como foi o seu alistamento no exército francês para a I Grande Guerra, que nos mostra magistralmente o absurdo desta, pois o cidadão do povo é mera carne para canhão útil às classes dirigentes, que não lhe reconhece qualquer outro valor, motivo que poderia justificar a sua fuga, transforma-se depois numa quase história da sua vida de fugas para a frente, não planeada e onde por norma as pessoas com que se cruza, tal como ele, são covardes, egoístas e apenas motivadas por dinheiro ou pelas hormonas que dão vida ao baixo-ventre, consequentemente as deceções são sucessivas ao longo das situações em que se vai envolvendo.
Poder-se-ia considerar uma obra de protesto ou descontentamento com a sociedade, mas também nenhuma personagem da obra serve de contraste para apontar caminho, por isso a viagem é negra e mergulhada na escuridão da noite, a loucura resulta da rotura da luta entre o mau ser que somos e aquele que temos de mostrar socialmente, tornando-se assim mais numa obra de contracultura do que formativa.
A escrita tem uma pontuação e sintaxe por vezes desconcertante, o uso de calão nem sempre é necessário, pelo que a obra valeu sobretudo para conhecer uma dos escritores mais polémicos do século XX em França.

domingo, 4 de janeiro de 2015

"O retorno" de Dulce Maria Cardoso


"O retorno", de Dulce Maria Cardoso, corresponde ao desfilar da vida de um adolescente de 15 anos durante a vinda de Angola da sua família para Portugal como consequência da revolução do 25 de Abril de 1974, da descolonização e da entrada da guerrilha em Luanda, isto depois das boas memórias do que tinha sido os seus últimos tempos naquela colónia.
O romance mostra, dura e cruamente, o desagrado que foi para a comunidade de retornados a Revolução dos Cravos e os preconceitos raciais que se avolumaram neste período de instabilidade social, isto aos olhos de um adolescente cuja sexualidade desperta e tem dificuldade em compreender tudo o que está a acontecer à sua volta: o desenraizamento da sua terra natal, a descoberta do líbido, a entrada num Portugal que lhe é totalmente estranho e a desconfiança do Povo que os acolhe e ingenuamente os culpa de comportamentos coloniais numa época em que a esquerda não tinha qualquer pudor em se impor a todos.
A escrita, sem uso de vários sinais de pontuação e onde os diálogos e os pensamentos surgem encadeados dentro dos parágrafos, desenvolve-se a um ritmo acelerado dos acontecimentos, sem esconder que se está perante um grupo vítima inocente do 25 de Abril que passou dificuldades e enfrentou a crueldade dos lusitanos quando tanto falavam de liberdade e de direitos. Gostei da obra e recomento, apesar da dureza de algumas expressões, pois fez-me recordar muitos dos desabafos de retornados com que então convivi e mostra que a revolução de facto, numa fase inicial pelo menos, não foi positiva para todos os cidadãos deste Portugal.