quinta-feira, 27 de agosto de 2015

"Número Zero" Umberto Eco


"Número Zero" é um pequeno romance publicado já este ano por Umberto Eco, neste, em estilo de paródia, o escritor disserta sobre como fazer mau jornalismo e utilizar esta atividade como ferramenta de pressão sobre personalidades e manipulação social, isto através da preparação de uma nova equipa editorial contratada para a emissão de um novo título de jornal e a "publicar" precisamente com este último objetivo.
Em paralelo, um dos jornalistas da equipa na sua investigação histórica acredita ter descoberto uma conspiração e efetua uma reinterpretação de notícias passadas, sobretudo na Itália, desde o fim da II Grande Guerra que tem como base a hipótese de sobrevivência de Mussolini e o seu uso como ídolo capaz de estancar a expansão comunista durante a guerra fria. Assim ligam-se numerosos atos terroristas e situações aparentemente isoladas numa teia que envolve políticos, guerrilhas de esquerda e de direita, igreja, forças de segurança nacionais e de inteligência internacionais e até guarda-florestais, no fim sentimo-nos usados numa manipulação social dos destinos dos Estados. Curiosamente um relacionamento amoroso na equipa que envolve alguém hipoteticamente mais sentimental e com perturbações é capaz de dar alguma racionalidade a esta loucura narrativa.
Umberto Eco já não surpreende, pois usa a mesma fórmula conspirativa de organizações secretas em outras obras anteriores, como no Cemitério de Praga e no Pêndulo de Foucault, e como o atual romance é demasiado centrado na Itália muitos elementos da história  perdem-se na memória de quem não conhece bem os acontecimentos ocorridos naquele país no último meio século, originando uma cadeia louca que por vezes me cansou ou me perdi, mesmo assim tem o interesse de mostrar como a comunicação social pode manipular o modo de pensar da sociedade muito além da real verdade dos factos.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

"Uma verdade incómoda" de John le Carré


A minha estreia em obras de John le Carré teve o mérito de mostrar que existem escritores de sucesso popular capazes de escrever thrillers, policiais e histórias de espionagem que vão muito para além do mero suspense que criam no leitor e são capazes de levantar questões, fazer retratos da sociedade contemporânea e de denunciar muito do mal que a domina.
"Uma verdade incómoda" ou "delicada" como no título original é isso mesmo, um romance que depois de relatar uma operação secreta que mistura ambições políticas individuais com interesses privados, tem danos colaterais que importa esconder ao comum cidadão, pisando para este objetivo todos os princípios que a democracia tem por critério pautar-se.
Sendo uma obra recente e passada na atualidade, o romance denuncia muito da hipocrisia socioeconómica presente e não se coíbe em criticar o que foram os efeitos desastrosos das opções estratégicas para o Iraque no tempo de Blair e toda a panóplia de interesses e de preconceitos religiosos hipócritas que minam presentemente os ultraconservadores dos Estados Unidos, isto numa história cujo enredo está muito distante destas matérias e tem como base uma perseguição entre quem quer mostrar a verdade e o poder que a pretende esconder.
Como normalmente acontece com romances de espetro mais popular e suspense, a escrita é fácil, mas escorreita e realista e como tal recorre à gíria banal sem recursos estilísticos muito elaborados, mesmo assim gostei da obra e recomendo a qualquer leitor, inclusive aqueles que têm receio de livros eruditos e complexos.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

"A crónica de Travnik" de Ivo Andric



"A crónica de Travnik" do escritor Ivo Andric - Nobel de 1961, um croata da Bósnia que se sentia jugoslavo e passou a escrever em servocroata - que acabei de ler, é de facto mais uma crónica do que uma trama de relações entre protagonistas e auxiliada por entidades secundárias comum a um romance tradicional. O livro mostra pelos olhos do cônsul francês - uma personalidade que vibrou em criança com a monarquia absolutista e depois se converteu em jovem às ideias liberais napoleónicas e que busca o caminho certo que não encontra, o que o torna inseguro - a forma de ver a vida de Travnik no período de abertura e fecho do consulado nesta cidade bósnia durante as guerras napoleónicas para defender os interesses do império que representava. 
O livro além de ser uma obra com uma escrita muito agradável, é um desfile de personagens que retratam a miscelânea de católicos, ortodoxos, judeus e muçulmanos sob o domínio turco numa pequena cidade onde confluem desconfianças entre religiões, choques de cultura entre ocidente e o oriente e ainda onde através da diplomacia se jogo interesses entre impérios que se atropelam para conquistar mais poder, sem esquecer as visões da realidade fruto da juventude, maturidade e velhice.
Nestes tempos conturbados e de choque de mentalidades, decorreram períodos ternurentos, outros deprimentes e inclusive do horror típico de quando o poder toma a rua com culturas que se odeiam ou de quando o terror é usado como uma arma. Gostei do livro e comecei a compreender o que foi de facto o rastilho da ainda recente guerra dos Balcãs. Mais do que uma lição de história, este romance é uma mostra do choque de gerações, de mentalidades e de culturas e por isso ajuda a compreender melhor de modo diplomático os conflitos do mundo em que vivemos.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

"Admirável mundo novo" de Aldous Huxley


"Admirável mundo novo" de Aldous Huxley é um romance sobre um futuro distópico onde as ciências são colocadas não ao serviço da verdade, mas para cimentar uma sociedade estável onde cada indivíduo é sujeito a um condicionamento psicológico desde a sua gestação em cadeia extra-uterina, para não ser afetada por relações sentimentais de laços familiares, bem como através de uma produção programada biofisico-quimicamente que gera seres predestinados a preencher a estrutura da sociedade conformes às necessidade coletivas e adaptados à classe a que se destinam ou tarefas a realizar e ainda mentalmente controlados e educados para se sentirem realizados nesse posto, servindo-lhes ainda alucinógenos sem ressaca para fugirem a qualquer perturbação psicológica, além de uma desinibição sexual para não permitir elos amorosos consistentes, criam-se assim seres acomodados à sua situação sem liberdade de a questionar, embora felizes na sua demência.
Num prefácio de 1946, na celebração da edição dos 20 anos da sua obra, Aldous Huxley escreve os elementos de referência que enquadram o romance: "Um estado totalitário verdadeiramente eficiente será aquele em que o todo-poderoso comité executivo dos chefes políticos e o seu exército de diretores terá o controlo de uma população de escravos que será inútil constranger, porque todos terão amor a sua servidão."
Texto que penso ser claro para descrever o conteúdo  deste Admirável Mundo Novo, em que Deus foi substituído pela criador do trabalho em cadeia Ford e onde Shakespeare (de onde é tirado o nome do romance) é desconhecido por ser pernicioso a estas crianças felizes na sua ignorância, contudo no planeta preservam-se relíquias do passado em reservas onde a realidade também não era perfeita, onde um Selvagem tem como referência cultural principal o autor de Hamlet, mas o contacto viabilizado entre estes dois mundos também não foi positivo. Uma obra-prima intemporal e um clássico no seu género literário.

domingo, 2 de agosto de 2015

"A cidade dos prodígios" de Eduardo Mendoza

Disponível aqui
"A cidade dos prodígios" foi o primeiro livro que li do barcelonês Eduardo Mendoza, onde o escritor cria uma personagem que de miserável fugido da Catalunha rural para a capital da província se torna numa das personagens mais ricas e importantes da cidade e de Espanha, servindo a narração desta ascensão e decadência para contar a história de Barcelona sobretudo entre a decisão da organização da Exposição Universal de 1888 e a inauguração da de 1929 nesta mesma terra.
Assim, misturando personagens reais, desde políticos do país e da cidade, bem como artistas locais e mundiais, de Gaudi a Mata Hari, usando factos históricos, alterando outros e ficcionando muitos, incluindo fantásticos hagiográficos, neste romance Barcelona é de facto a personagem principal do livro e esta serve de suporte ao protagonista que vai de propagandista ignorante e miserável da causa anárquica, passando a pequeno delinquente e vai até chefe de gangue, criminoso a capitalista influente que mesmo nos períodos difíceis nos é simpático.
Com uma série de personagens ficcionadas com interessantes retratos psicológicos e uma análise crítica e irónica de acontecimentos históricos Eduardo Mendoza constrói um excelente livro e uma magnífica homenagem e retrato físico de Barcelona. Gostei muito e recomendo.