quarta-feira, 25 de novembro de 2015

"O Francoatirador paciente" de Arturo Pérez-Reverte


O romance "O francoatirador paciente", de Arturo Pérez-Reverte, é um thriller que ao longo do seu desenrolar passa de Madrid, para Lisboa, Verona, Roma e vai até Nápoles e leva a reflexões sobre a arte urbana e contemporânea através de um mergulho e exploração do mundo dos autores de graffiti, a sua forma de contestar os defeitos da sociedade atual e, inclusive, de denúncia da subjugação da cultura ao dinheiro e à regulamentação oficial.
Este foi o primeiro livro que li deste escritor espanhol que sei possuir uma obra que varia entre romances de maior profundidade em questões contemporâneas e outros mais ligeiros, penso que o presente se situa num campo intermédio.
Uma escrita contemporânea cheia de gírias do meio dos graffiti, mas agradável e correta. Um thriller cujo suspense não esmaga a força das mensagens que o autor vai semeando no texto. Uma obra fácil , mas sem ser ligeira e recheada de reflexões pertinentes sobre o mundo urbano atual. Uma protagonista homossexual mas nada tem de manifesto sobre o tema ou de preconceito. Uma viagem ao submundo de contestação juvenil, dos gangues e de seitas adolescentes, mas sem ser agressivo ou apoiante da delinquência. Uma crítica ao império do dinheiro sem ser uma oposição barata ao sistema e um final inesperado fazem deste romance uma agradável obra de lazer e aprendizagem de uma realidade pouco conhecida que cobre as paredes das nossas cidades ocidentais.
Sem ser uma obra pretensiosa, gostei e recomendo a qualquer leitor e fiquei interessado em continuar a descobrir mais obras de Arturo Pérez-Reverte. 

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Decameron ou Decamerão de Giovanni Boccaccio


"Decameron" ou Decamerão, de Giovanni Boccaccio, é uma obra que reúne 100 contos narrados ao longo de 10 dias úteis, por 10 jovens (7 raparigas e 3 rapazes) na sequência da decisão destes em se recolherem num espaço rural para gozar a sua juventude, ouvindo histórias e canções por puro prazer para esquecer a amargura dos tempos que a cidade de Florença vivia em virtude de estar assolada pela peste negra que martirizava a Europa.
Todos os dias um jovem diferente foi coroado rei ou rainha e assume o tema do seu reinado, vão-se então narrando estórias eróticas, de crítica social e à hierarquia da igreja, de infidelidade conjugal, de inteligência feminina ou masculina, de bondade, de amizade que na sua maioria abrigam uma lição de moral.
Tanto a linguagem como os temas abordados têm uma liberdade de expressão que surpreende, desde a ironia subtil, à ligeira brejeirice subentendida, aos ataques mordazes dos pecados do clero e da castidade, mas também se passa por momentos dramáticos de sentimentalismo exacerbado, outros racionais e outros de magia. Assim o livro constrói um ramalhete de lazer nada previsível numa obra da idade média, sendo por isso considerado um marco da literatura para a passagem desta da subserviência religiosa para a esfera profana.
Pela quantidade de contos e sua independência, é possível evitar a saturação intercalando as narrações com pausas para  a leitura de outros livros. Apesar da sua ligeireza e facilidade, poderá chocar algumas mentalidades mais conservadoras que não reconheçam que a brincar se pode fazer importantes denúncias morais, aspeto inclusive assumido por Boccaccio na sua nota final. 

sábado, 7 de novembro de 2015

"Thérèse Desqueyroux" de François Mauriac

"Thérèse Desqueyroux", do francês laureado com o Nobel da literatura em 1952 François Mauriac, baseia-se num caso real em França: uma tentativa de de envenenamento do marido e absolvição da esposa devido ao próprio testemunho da vítima por questões de interesse. Esta obra relata não só a relação no casal após o julgamento, a forma como o marido iniciou a sua vingança e as reflexões introspetivas da esposa sobre o seu passado que a levou ao crime.
O desenrolar da situação, ora com pequenos diálogos, ora contado na terceira pessoa pelo narrador que passa abruptamente por extensas reflexões e descrições feitas na primeira pessoa de Thérèse, por onde esta  se vai conhecendo, compreendendo as razões do seu casamento, pessoais e familiares, a sua visão  do marido e levanta um conjunto de interrogações a si mesmo, que vão desde a sua liberdade, às formas de como com a sua orgulhosa inteligência e cultura se deixou atar numa rede de interesses, aos sentimentos do amor, frustração, descoberta do mundo real e a questão de Deus.
Apesar de momentos tensos e de uma grande violência psicológica, na realidade a obra mostra como os interesses conjugados de ambas as partes foram capazes de chegar a uma solução e como esta gerou um desconforto na sociedade. Uma pequena obra de grande interesse. Gostei.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

"Sangue Sábio" de Flannery O'Connor



"Sangue Sábio" de Flannery O'Connor, que acabei de ler, é um pequeno romance diferente do habitual. Mostra o peso das religiões cristãs no sudeste dos Estados Unidos, tema também presente nos seus livros de contos, um deles li e falei aqui.
Com recurso à linguagem popular das pessoas humildes do Tennessee, situação que é difícil de transpor numa tradução e seguramente perde muito com esta, esta edição não é um bom exemplo de um tradutor, a obra, apesar de conter momentos irónicos e divertidos, não deixa de ser amarga, deprimente e com situações duras, fruto de pressão psicológica causada pelo fanatismo religioso instalado na sociedade, sobretudo evangélico, aspeto brilhantemente trabalhado através da criação do protagonista, um jovem pregador que vindo do serviço militar para se libertar deste peso cria e anuncia a sua "igreja sem Cristo".
Todas as personagens do romance tem uma componente desequilibrada e ou oportunista, tanto crente como descrente, criando situações bizarras e mesmo momentos de violência, apesar de tudo, gostei do retrato apresentado de uma sociedade onde a fé pode ser tão perversa como o racismo.