sábado, 20 de maio de 2017

"A Falha" de Luís Carmelo


O romance "A Falha", do escritor Português Luís Carmelo, tem a particularidade de ser um livro onde o autor coloca na obra o seu saber profissional como professor de escrita criativa. Este livro, no interior de cada um dos seus capítulos, expõe estilos onde se descreve a ação na perspetiva de um observador exterior a esta, reflexões íntimas das personagens envolvidas na estória, com formas distintas em função da psicologia destas, abordagens críticas de um narrador conhecedor do pensamento das pessoas que integram a trama e ainda a textos que mostram formas de outras entidades apresentarem o que se passa na trama. Criando assim uma panóplia diversificada de géneros de escrita que enriquece a obra.
No que se refere à trama, esta começa com a apresentação e encaminhamento de sete personagens que se dirigem para Elvas para um jantar de colegas de liceu de há 25 anos atrás que se reúnem habitualmente a cada cinco anos e onde cada uma tem não só evoluções pessoais e marcas diversificadas em função do relacionamento com os seus companheiros de adolescência, amores, desconfianças, descobertas origens sociais distintas e evoluções de vida diferentes, bem como fruto do 25 de Abril, o que confere a cada uma um carácter muito próprio. Segue-se o encontro e refeição onde as tensões entre estas estão presentes e disfarçadas pelas regras de relacionamento social impostas na vida adulta complementada com uma atividade lúdica de uma prova de vinho e visita a uma pedreira onde um acidente os deixa encerrados no interior de uma caverna cuja necessidade de convívio numa situação extrema se torna numa abordagem psicológica intensa e acompanhada da incerteza de salvamento. Após o resgate bem descrito desenvolve-se uma análise temporal dos efeitos da crise em cada um deles e o modo como estes ultrapassam melhor ou pior aquele tenso momento.
A escrita mesmo diversificada é fácil, embora, por vezes, a mudança de momento, estilo e perspetiva da narrativa perturbe o leitor, mas mesmo sem considerar estilos de um génio literário, o livro vale não só por essa riqueza de formas, como o romance, além de momentos de elevada tensão, tem uma multiplicidade de características que alimentam o suspense que nos prende à leitura. A obra tem cenas muito cinematográficas que até levaram à sua adaptação a um filme dirigido por João Mário Grilo. Apesar de não ser uma obra premiada, considero-a de nível não inferior a muitas outras nacionais cujas críticas e as editoras publicitam com louvores intensos. Gostei.

domingo, 14 de maio de 2017

"Rebecca" de Daphne du Maurier


Li Rebecca", da escritora inglesa Daphne du Maurier, sobretudo para conhecer o livro que esteve na base do filme homónimo e uma da obras mais empolgantes do realizador Alfred Hitchcook que eu vira no cinema há umas décadas atrás e sabia muito ter gostado, mas já com poucas memórias da história. Algumas passagens do romance recordaram-me cenas do filme e inclusive certas memórias revelavam-me o evoluir de alguns momentos da narrativa, todavia, felizmente, nunca o desenlace final, o que permitiu manter o suspense até à última página.
A protagonista narra o modo de como jovem de companhia de uma velha rica e presunçosa conheceu num hotel de verão em Monte Carlo um inglês mais idoso, senhor de uma importante mansão e viúvo de Rebecca, uma mulher admirada pela sua beleza e vida social que morrera recentemente num acidente. O encontro entre os dois conduziu a um casamento repentino e ao choque da sua entrada numa nova vida na imponente residência de Manderley cheia de memórias da anterior mulher e onde a mordoma que criara e se afeiçoara à anterior dona alimenta um ódio à nova senhora sentindo-a como intrusa e usurpadora sem o nível da anterior. No seio destas dificuldades e insegurança da segunda Mrs. de Winter, narradas no início a um ritmo lento e nostálgico, um incidente traz ao de cima com grande violência e perigo dúvidas sobre as causas da morte de Rebecca que colocam em ameaça uma relação ainda cheia de incertezas de ser fruto de um amor correspondido e onde o fantasma da falecida parece vir vingar-se ao longo de uma investigação policial cheia de suspense até ao final.
O romance apresenta uma escrita muito feminina, cheia de sentimentos e pormenores dos espaços percorridos e situações narradas por um coração de mulher e essa forma sente-se não só na sensação de insegurança e lentidão de adaptação social na primeira metade da obra, como na força do companheirismo e do amor com que a ansiedade do suspense é combatida na segunda metade da obra face a todos os perigos que colocam em risco um amor que se descobre ser forte, apesar de uma sombra do passado que afinal era uma ameaça mas por razões bem díspares dos receios da segunda Mrs. de Winter.
Uma obra que junta romantismo, literatura policial e suspense brilhantemente escrita e estruturada, com um grande tempero feminino. Gostei e recomendo.

sábado, 6 de maio de 2017

"A Vegetariana" de Han Kang


Acabei de ler "A vegetariana" da escritora sul coreana Han Kang, romance vencedor do Man Booker Internacional Prize de 2016 onde na lista final também se encontrava o livro de expressão original portuguesa "Teoria Geral do Esquecimento" de J E Agualusa aqui abordado.
Estamos perante um romance que narra três episódios em torno de Yeong-hye, uma mulher sem nada de excecional que leva a sua pacata vida de casada numa normalidade obscura que de repente decide rejeitar comer qualquer alimento de origem animal, impondo tal disciplina em casa e encontra uma grande oposição de toda a sua família.
No primeiro relato, esta mudança de comportamento é vista pelo lado do marido que pede auxílio aos parentes da esposa para enfrentar a situação. O segundo relato decorre após o termo do primeiro e conta na primeira pessoa a atração e relação desencadeada no cunhado, artista que pinta flores em corpos nus com cobertura video desse trabalho, para com a figura central do livro, desenvolvendo-se então uma história em simultâneo erótica, sexual, imoral e também inocente. A terceira parte é a exposição da irmã que tenta salvar recém-convertida ao vegetarianismo, aquela analisa o que foi a vida desta, as atitudes de sobrevivência de ambas, o choque do comportamento do marido e a opção pelo tratamento psiquiátrico de Yeong-hye, com todas as consequências que daí resultarão face a uma mudança cada vez mais radical desta de unir-se ao mundo vegetal.
Não conheço a língua coreana para analisar como terá sido a escrita original de Han Kang, o romance resulta da tradução a partir da versão inglesa e em português transformou-se num texto claro, com frases elegantes e com um recurso escasso a floreados, apesar das flores serem muito importantes na obra. O início da obra é literariamente deslumbrante, depois perde alguma beleza face a uma violência psicológica e física que me surpreendeu, depois na segunda parte há uma conciliação entre beleza de escrita, erotismo, imoralidade e crueldade, sem o texto perder o seu carácter de obra de arte não pornográfica.
A terceira parte é uma narrativa deprimente de onde resultam mais questões do que ideias da escritora. Quais os limites das opções individuais sobre o uso do seu corpo e das atitudes de cada um? Pode um percurso imoral e de rejeição social ser o caminho para a salvação de alguém? Teremos o direito de comprometer o futuro de uma pessoa em nome dessa ética perante atitudes que não prejudicam terceiros? Gostei do romance, embora não seja uma obra que me tenha marcado especialmente, pois apenas levanta questões sem deixar mensagens claras. A opção do júri para dar a vitória a esta obra em detrimento da de Agualusa levanta-me dúvidas, embora a prefira a este livro de Ferrante que também gostei mas perdeu igualmente para "A vegetariana".

segunda-feira, 1 de maio de 2017

"A verdadeira vida de Sebastian Knight" de Vladimir Nabokov


O romance "A Verdadeira vida de Sebastian Knight" foi o primeiro livro deste famoso escritor e crítico literário russo: Vladimir Nabokov, que se exilou nos Estados Unidos após a revolução bolchevique, sendo este o primeiro livro que escreveu originalmente em inglês, idioma que adotou em definitivo para a sua obra posterior.
Sebastian Knight (SK) é um escritor de qualidade, de origem russa e radicado nesta cultura, mas depois naturalizado inglês pela origem materna e cuja língua seleciona para a sua escrita morre ainda jovem, então o seu meio-irmão do lado paterno, decide conhecer e fazer um livro sobre a sua vida, tendo em conta uma biografia publicada na qual ele deteta grandes discrepância face ao que conhece dele apesar de distante nos últimos anos.
Assim, inicia-se o relato da investigação sobre SK desde o seu afastamento, com as suas paixões, viagens e estilos de vida, tendo como fonte o conteúdo da sua obra, cujos enredos e estilo se vai expondo, e também fruto das memórias do irmão e de colegas, amigos e amantes que partilharam os anos da sua carreira na Inglaterra. Num jogo de espelhos entre o próprio Nabokov e SK, a obra evidencia o esforço perfecionista do escritor narrado e a busca de perfeição do real autor do livro, inclusive os paralelismos das dificuldades de alguém criado numa língua que quer ser perfeito noutra adotada, Vamos conhecendo personagens da bibliografia ficcionada de SK, as suas estórias, enquanto as fontes após uma aproximação que evidencia que se vai descobrir algo de importante sobre o falecido, depois, por um falso pudor intencional, não nos é revelado, deixando um conjunto de questões sobre quem foi de facto Sebastian Knight.
Nabokov é de facto um escritor dotado de uma magnífica escrita e busca a perfeição plena na construção do texto. No romance disserta sobre este objetivo e vês que quis edificar uma obra de arte literária e neste encontro entre a perfeição da escrita, da narração e da estrutura do romance edifica uma obra que é isso mesmo e quase se esgota neste domínio. A beleza está quase em exclusivo na forma, anulando-se na comunicação de ideias ou de outras questões para além do abstrato da arte de escrever. Gostei e para quem aprecia análise literária é uma pérola ficcionada no género.

terça-feira, 25 de abril de 2017

"ALÉM" de J. K. Huysmans


Quando me interessei em descobrir o francês J. K. Huysmans, na sequência da leitura recente de "Submissão" de Houellebecq, verifiquei que aquele, além deste ser um escritor com poucos romances traduzidos disponíveis em Portugal, também era um autor cuja vida e obra era marginalizada por certas elites culturais e sociais desde o final do século XIX. Tal aconteceu não só por ele ter iniciado a sua carreira como um brilhante discípulo literário de Zola, no estilo "naturalista" e se ter mudado para o "decadente" que era rival do primeiro grupo de escritores, tendo sido nesta corrente um dos expoentes máximos na ficção, mas também, pela sua mudança individual de pessoa descrente, laica e ainda mergulhado no ocultismo, para um católico convicto, transpondo paras as suas obras literárias este percurso com a criação de uma personagem seu alter-ego, Durtal, onde em várias obras relata a vida que considerou degradante (decadente) e a mudança para uma fé profunda, praticante e escrupulosa, sendo então rejeitado na sociedade intelectual materialista que predomina na cultura ocidental.
O romance "Além" de Huysmans é o segundo romance do período decadente, onde Durtal é um escritor em ascensão e está a escrever a biografia de Gilles de Rais (personagem real, que após ter sido colega de armas de Joana D'Arc, se tornou na figura mais sombria da história de França desde a idade média, pelas suas atrocidades do seu culto satânico com atos sádicos, assassinos e pedofilia), Nesta busca o protagonista entra em contacto com contemporâneos e descobre que os ritos e práticas diabólicas persistem ainda no final do século XIX, com os adoradores do mal e práticas hediondas num conflito permanente que envolve cidadãos comuns, crentes, cultos, investigadores, cientistas e hierarquia da igreja e configura uma permanente luta entre o mal para dominar e o bem para resistir e permanecer fiel ao ideal Cristão.
Huysmans é portador de uma escrita escorreita, vocabulário extenso, por vezes recorre a palavras menos usuais, a que junta uma prosa de grande elegância típica de um escritor de excelência e com a clareza típica do estilo da época. Tal não invalida que algumas páginas de "Além" não deixem de ser muito perturbadoras nas descrições dos rituais satânicos e escatológicos, com divulgação de crenças obscuras, práticas degradantes e mesmo horripilantes. Desengane-se quem pensa encontrar o terror popular de espíritos de outros mundos, erotismo barato ou pormenores pornográficos: Não! Apesar de tudo o que se subentende dos relatos e de alguma ousadias, Huysmans não cai na literatura de cordel do horror, não romantiza paixões com espíritos, nem retrata bacanais. É uma obra tem negritude nalgumas passagens, mas também está cheia de momentos de boa disposição, reflexões sociais sobre a época, críticas à arquitetura de uma monumento de Paris, saborosas apreciações gastronómicas de repastos de amigos, discussões sobre mitos medievais enriquecidas por citações de obras de referência que, à semelhança de Umberto Eco ou de Jorge Luís Borges, não importa se existem ou fazem parte do mundo mágico criado pelo escritor para suportar a trama.
Gostei do livro, mas alerto que se trata de uma obra com uso do macabro e com situações de grande degradação humana que não são recomendáveis a leitores suscetíveis de se impressionar e romanceia o início da conversão religiosa de Huysmans.

domingo, 23 de abril de 2017

Dia Mundial do Livro - Os meus preferidos de um ano de leituras

23 de abril comemora-se em Portugal o Dia Mundial do Livro, em Geocrusoe não costumo fazer a apreciação das minhas leituras anuais no dia de ano novo, mas sim nesta data e como sempre a escolha não é fácil e é função das marcas que as obras deixaram em mim, bem como as categorias são função do tipo de livros que li.


Mais Apreciada Leitura de obra Portuguesa


Não foi fácil a escolha entre este magnífico texto literário "Húmus", de Raul Brandão, e a pérola estilística de "O que diz Molero", de mais fácil leitura e igualmente original. Todavia, apesar de Húmus não ser de fácil, antes pelo contrário, é de uma perfeição de escrita e com profundidade de reflexão e abordagem filosófica que não poderia deixar a obra para trás em nome de uma facilitismo comercial que doentiamente me parece estar a degradar hoje em dia a literatura nacional. Um pequeno volume, mas um enorme livro.


Mais Apreciada Leitura de obra Lusófona

"A república dos sonhos", de Nélida Piñon, corresponde a uma saga familiar bem escrita que atravessa quatro gerações de uma família, das quais três na condição de imigrantes galegos que servem para contar não só os sonhos de quem escolheu o Brasil como sua pátria, lutou por ser alguém aos olhos dos outros ou na sua forma de ser e se confrontou com os obstáculos da integração mas também para analisar mais de meio século de história do país de acolhimento com todos os seus defeitos e virtudes e crises políticas, regimes democráticos e ditatoriais. Extenso, mas sem dúvida um bom livro.

Mais Apreciada Leitura de obra Original em língua estrangeira

Foi sem dúvida a escolha mais difícil, havia vários romances possíveis, alguns de laureados com o Nobel, mas a riqueza de informação neste livro sobre a vida da população urbana nigeriana, a caracterização da integração da emigração atual africana nos Estados Unidos e Reino Unido, além do facto de ser uma obra que mostra que na atualidade ainda se escrevem grandes e bons livros, pelo que ainda há esperança na continuação da literatura, incluindo a partir de países de grande dificuldade social e pouco admirados no ocidente, levaram-me a selecionar "Americanah" de Chimamand Ngozi Adichie.

Mais Apreciada Leitura de obra Canadiana


Apenas li três obras canadianas, "The origin of species", de Nino Ricci, foi lida na língua original  e ganhou GG prize do Canada em 2008. É sem dúvida um excelente romance que mostra muito do que é a vida multicultural do meu país natal, onde também ocorrem desencontros pelas diferenças, buscas de identidade e do significado da vida nesta biodiversidade de povos que segue muito das mesmas regras materializada na teoria da evolução de Darwin. Uma obra que me despertou interesse em ler outros título do autor e por isto eleita nesta categoria.

sábado, 22 de abril de 2017

22 de abril - Dia Mundial da Terra

Vulcão do Pico visto da Ribeirinha, Faial

Porque a Terra é a nossa casa comum, este Planeta é único e este Astro é lindo, temos de o preservar para que a sua diversidade biológica e geológica persistam em equilíbrio entre o seu sistema ambiental e o Homem.
O blogue Geocrusoe, como tem sido tradição, comemora o Dia Mundial da Terra e, como Geólogo, desejo a todos um dia feliz e responsável para com o nosso Planeta.

terça-feira, 18 de abril de 2017

"A um deus desconhecido" de John Steinbeck



"A um Deus desconhecido", do norteamericano laureado com o Nobel John Steinbeck, é um romance onde, além da ligação do agricultor à terra e das suas dificuldades de sobrevivência face à insegurança dos seus rendimentos e à dependência dos caprichos meteorológicos que habitualmente é abordado em muitas obras deste escritor, mergulha também nas raízes religiosas do homem colocando em confronto visão vertical do cristianismo com a os antecedentes animistas que explicam o equilíbrio da produção agrícola com uma perspetiva horizontal do espírito que atravessa todas as coisas da natureza.
Joseph Wayne de uma quinta do leste dos Estados Unidos sonha com uma nova herdade na Califórnia cuja terra está aberta à ocupação de novos exploradores, pede a benção ao pai para cumprir este objetivo que no ocaso da vida lha concede e promete estar sempre a acompanhá-lo de cima depois da vida o deixar. O protagonista parte para o oeste, adquire um prometedor campo, tem conhecimento de histórias de secas passadas, encontra indícios de cultos índios à fertilidade da terra e encanta-se com uma árvore na qual sente expressar-se toda força da vida do vale. A morte do pai leva os irmãos a se juntarem à exploração marcada pelo sucesso.
A visão de fanatismo religioso de um dos irmãos e as preocupações de um padre face os sinais animistas levam a que a sua árvore seja abatida e desde de então tudo declina: a seca, a fome a miséria, a migração, mas Joseph resiste no terreno que assumiu proteger, nem que para isso tenha de se tornar no sacerdote capaz de oferecer o supremo sacrifício a esse deus que dá a vida à terra.
Steinbeck para mim é o escritor que melhor mostra o modo como o agricultor vê o campo, a paisagem e interpreta o sinais meteorológicos e descreve a atividade da agricultura tradicional e a vida rural na primeira metade do século XX, fazendo tudo isto com uma escrita perfeita, plena de beleza e de metáfora originais e este romance cria imagens que são quadros perfeitos neste domínio. A temática saudosista de uma crença abandonada mas em pleno equilíbrio com a natureza em choque com uma fé contemporânea desenraizada da terra na alma de um agricultor leva a uma história onde o misticismo e as dúvidas sobre o espírito que controla o mundo atravessam toda a obra como uma luta entre o racionalismo, a religião, a ternura pelo que nos rodeia e o amor sob a a dureza da vida rural. Um pequeno romance que é uma pérola literária.

sábado, 15 de abril de 2017

"Bíblia" Na nova tradução de Frederico Lourenço - Cristo Ressuscitou!


Não importa se a tradução é do grego, canónica ou não, em todas elas, incluindo nesta tradução dos Quatro Evangelhos de Frederico Lourenço, prémio Pessoa 2016, o texto continua claro a comunicar: Cristo Ressuscitou - Feliz Páscoa a todos

terça-feira, 11 de abril de 2017

"RESSURREIÇÃO" de Lev Tolstói


Acabei de ler "Ressurreição" do grande escritor russo Lev Tolstói, um romance onde o autor expõe a sua filosofia de vida, a sua moral e fé de forma clara, com um apelo de conversão ao bem e tendo como referência a denúncia da injustiça que domina a sociedade que cria vítimas permanentes, não reabilita, nem resgata as pessoas do mal, proclamando uma visão do cristianismo muito própria e livre das interpretações oficiais das religiões cristãs tradicionais.
Nekhliúdov é um príncipe e com um bom coração amolecido pelo bem-estar da sua classe e luta permanente entre o ideal que busca e os hábitos e vícios a que se afeiçoou que o seu estrato social apoia e tem como a norma. No seio disto apaixona-se e abusa de uma doméstica órfã que engravida, é ostracizada e levada para a prostituição, vendo-se anos mais tarde envolvida num crime e sujeita a um tribunal de júri onde, por coincidência, ele se senta como jurado.
O príncipe, acobardado entre a vergonha e o dever, além dos interesses pessoais das personagens judiciais, assiste à condenação da inocente ao desterro e trabalhos forçados. Começa então a luta do herói para resgatar e reabilitar a mulher de que se sente culpado da sua situação, enquanto abdica das suas terras por ideais de justiça e se dedica completamente à condenada, inclusive oferece-se em casamento. Todavia a burocracia judicial, os seus intervenientes e os preconceitos dificultam a reparação dos próprios erros da justiça, o que o leva a acompanhar a sua vítima para a Sibéria e a conhecer os horrores do sistema prisional e a quantidade de inocentes que a sociedade condena e se desfaz e não salva.
Tolstói faz uma crítica forte do sistema económico e social da Rússia de então, expõe com crueza o sofrimento intolerável do regime judicial e, à semelhança de Victor Hugo, denuncia a aplicação cega da Lei contra as pessoas que mantém o sistema. Propõe o modelo económico de Henry George, que tem uma perspetiva mais rural do que o proposto por Marx para o seu proletariado urbano, a que associa a necessidade de uma prática do Evangelho livre da estrutura eclesial, mas ligada a Cristo.
Ao contrário de "Guerra e Paz" e "Anna Karénina", aqui Tolstói tem uma única linha narrativa, não havendo histórias paralelas a atravessar toda obra e servem de comparação a opções de vida alternativas. Todavia Nekhliúdov conhece muitas prisioneiros, de crimes a razões políticas, cujas vidas são comunicadas para destacar os defeitos do sistema vigente. Sem dúvida um grande romance, menos consensual que os outros citados, pois em Ressurreição as ideias do escritor são ditas diretamente sem preocupação de ferir ou divergir do leitor. Tolstói quer mesmo agitar a consciência de quem lê e tirar os acomodados da sua situação de conforto. Gostei e recomendo.

quinta-feira, 30 de março de 2017

"The Origin of Species" de Nino Ricci


Após uns tempos sem ler obras de literatura de ficção canadiana no original, espreitei a minha prateleira dedicada a estes livros e selecionei "The origin of Species" estreando-me em Nino Ricci, um escritor contemporâneo que foi premiado com o Governor General Prize for English fiction lpgo no seu primeiro romance em 1990, o galardão nacional literário mais prestigiante do País, e voltou em 2008 a ser o vencedor deste prémio com este título influenciado no trabalho e na personalidade de Charlles Darwin.
The Origin of Species" apesar de parecer complexo pelo número de temas abordados abaixo, introduzidos pelas diversidade das personagens, o enredo desenrola-se com uma narrativa fácil de se ler.
Alex Fratarcangeli de Toronto, com as suas raízes italianas pouco assumidas, em 1986 encontra-se a fazer a sua tese de doutoramento em Montreal sobre a influência da evolução das ciências na literatura, isto numa cidade sujeita à tensão linguística, política e cultural do Quebec
Alex vê-se então confrontado entre uma separação recente que o leva a consultas psiquiátricas em que omite o essencial; dúvidas sobre a via a desenvolver no seu trabalho universitário e ainda com as perturbações fruto das suas paixões passageiras com mulheres; as relações com estudantes de inglês refugiados no Canada devido à guerra de El Salvador, sobretudo María e o irmão; o apoio a dar ao seu orientador checoslovaco, desalojado por um divórcio e com problemas dos atos de cabeça-rapada do filho; o modo de manter o convívio com um aluno particular francófono, homossexual não assumido e o temor difundido na época pelos noticiários dos efeitos de Chernobyl e da epidemia da SIDA.
Já no debate de todas estas tensões cruza-se com um inquilina do prédio que sofre de Esclerose Múltipla avançada com quem desenvolve uma amizade e recebe uma carta de uma sueca mais velha com quem teve uma relação anterior a comunicar-lhe que ele tem um filho com cinco anos o que o leva a refletir sobre o significado da sobrevivência, das relações humana, da vida confrontado com a memória de uma viagem desastrada a acompanhar um investigador botânico inglês de difícil trato numa expedição ilegal nas Galápagos cujas memórias dos seus ditos se tornam pistas para as suas reflexões sobre o essencial das suas opções.
Nino Ricci mostra-se um mestre em gerir tensões psicológicas, dúvidas interiores e temas sensíveis face a uma sociedade diversificada com preconceitos, em competição e cheia de problemas, através de uma narrativa com recurso a uma linguagem simples, frequentes saltos no tempo a partir da memórias de Alex e as descrições de desventuras do dia-a-dia apresentados de uma forma irónica e divertida mas que abrem a porta a introspeções, autoanálise, crítica social e política e comparações com os dilemas da vida de Charles Darwin com os choques das suas investigações com as mentalidades e crenças religiosas na sua vida familiar e social e onde o confronto com o trabalho em preparação de Alfred R Wallace fará quebrar todas as amarras à semelhança do que ele mesmo terá de fazer face à descoberta de um filho que será como as madalenas da obra de Proust.
Afinal todos resultamos desta evolução e seleção natural onde compartilhamos genes entre anglo-saxónicos e franceses, entre machistas latinos no seio da guerra, a suecas desinibidas convertidas aos dilemas de Alex e Darwin. 
Nino Ricci em 27 anos apenas publicou 6 romances, destes 5 foram premiados com 8 prémios nacionais, além de um best-seller com a biografia de Pierre Trudeau, mostrando que apesar de pouco traduzido fora do Canada se está perante um dos escritores mais importantes do País. Gostei muito, apesar de já não estar habituado à leitura em inglês mas é uma excelente obra para imersão nesta língua e na cultura Canadiana.

quarta-feira, 15 de março de 2017

"Aparição" de Vergílio Ferreira


Acabei de ler "Aparição" aquele que, segundo muitos, é o romance mais emblemático do importante escritor português da segunda metade do século XX: Vergílio Ferreira, prémio Camões pelo conjunto da sua obra em 1992.
A estória relata a experiência de integração social e profissional do primeiro ano de professor do beirão e recém-licenciado Alberto, colocado em Évora, uma cidade que lhe é estranha, tendo como meio o relacionamento que ele desenvolve com uma família local amiga do pai e com o grupo social das filhas. Aqui as suas reflexões e declarações existencialistas encontram eco em duas das raparigas e num aluno com impactes psicológicos que afetam os contactos entre os membros desta tertúlia, dando lugar ao aparecimento de desconfianças, receios, ciumes entre os elementos de um grupo típico de uma pequena comunidade fechada e provinciana. A situação agrava-se ainda com a ocorrência de um acidente e dos problemas individuais que conduzem à hostilização e  ostracização do estranho e culpabilização destes pelos efeitos das suas ideias referentes à importância do autoconhecimento do eu.
À semelhança de outras obras literárias até ao terceiro quartel do século XX, o cuidado pela perfeição do estilo de português na sua forma gramatical e sintática tradicional é uma marca importante do texto, onde as roturas com as regras, típicas da escrita criativa das últimas décadas em Portugal, estão ausentes. Acresce a este perfecionismo escolástico, a qualidade e a elegância de escrever de Vergílio Ferreira. Mas este romance é em simultâneo uma narrativa e um tratado de filosofia existêncialista, onde, intercalado com a narrativa dos acontecimentos e dos diálogos contidos na memória de Alberto e referentes a um ano de um passado já longínquo existem textos de pura reflexão sobre o "eu", onde as formas reflexivas do pensamento para destacar a autoindentificação no conhecer-se e no sentir-se é uma marca para estes pensamentos filosóficos e ideias que afetam todas as personagens da história: ora também em busca deste eu como em Alberto, ora como rejeição desta perturbação gerada por este tipo de análise.
Assumo que gostei do romance como história, apesar de o existencialismo ser uma forma de pensamento filosófico com a qual nunca senti  empatia e entrosamento, pelo que em determinados parágrafos fiquei mais pela apreciação da forma bela de escrever do que pelo conteúdo das ideias e para alguns leitores pode mesmo parecer partes coladas ao enredo incómodas à leitura do livro.

sexta-feira, 10 de março de 2017

"Submissão" de Michel Houellebecq


Decidi ler "Submissão", do escritor francês contemporâneo Michel Houellebecq, tendo em conta a situação eleitoral agora em curso naquele País Europeu, uma vez que este livro é um romance recente e onde se disserta sobre o futuro da França resultante de umas eleições presidenciais em 2022 cujos candidatos na segunda volta (segundo-turno no Brasil) são apenas o da extrema-direita e o de um futuro partido dos muçulmanos.
Sendo Houellebecq um escritor frequentemente polémico, esta obra também tem elementos discutíveis e ideias que pretendem mesmo agitar consciências e levar à reflexão, contudo não deixa de apresentar o risco de uma evolução distópica da atual civilização ocidental a partir de França. François, um professor universitário na Paris III - Nova Sorbonne, especialista no escritor, não fictício, francês do século XIX Huysmans (que de amigo de Zola e satanista se converteu ao catolicismo, deixando plasmado nas suas obras a sua evolução pessoal). O protagonista e narrador é um fruto típico da época ocidental atual, um niilista e hedonista que segue desinteressadamente a política do seu país sem se envolver e sem se aperceber do evoluir da situação e dos  riscos de mudança possíveis na sua terra preparadas nos bastidores pelas forças ideológicas e religiosas em presença, Num repente, o mundo em que viveu muda radicalmente, o poder é tomado por um líder forte de uma das fações da segunda-volta que negoceia e salvaguarda os interesses dos políticos adversários tradicionais fracos, comodistas e egoístas, que aceitam um conjunto de mudanças no sistema onde se retiram o atual papel da mulher na sociedade e levam uma campanha simpática de mudança de mentalidade através do ensino, que à semelhança da distopia de "O admirável mundo novo", de Aldous Huxley, pode levar a que a submissão seja entendida pelos submetidos a uma nova forma de se sentirem felizes neste mundo em que uma parte da humanidade não tem voz nem estatuto social.
Embora Houellebecq não escreva de uma forma bela, antes pelo contrário, estamos perante um texto cru e por vezes chocante, mesmo quando descreve crueldades de uma forma ardilosamente simpática, a leitura é fácil pela clareza colocada no texto. Pontualmente, na vida íntima do protagonista, o escritor não se limita a um erotismo subtil, avança para uma linguagem e pormenores que podem mesmo ferir a suscetibilidade do leitor, todavia é evidente que tal é a intenção do escritor.
Fiquei curioso por conhecer a obra de Huysmans, que também se deduz ter sido muito importante na literatura francesa do século XIX, mas cuja importância foi intencionalmente abafada por a sua evolução colidir com a estratégia em rumo de uma civilização laica onde as questões de fé são retiradas do espaço coletivo.
Como livro que fala de um futuro próximo e a partir dos dados da data da sua publicação inicial, 2015, alguns pormenores previstos em 2017 sofreram vários desvios, além de terem surgido alguns aspetos maus não considerados, mesmo assim no cerne a obra mantém-se bem atual e a sua mensagem não perdeu qualquer atualidade. 
Apesar de um futuro negro apresentado em tons cor de rosa e de algumas opções descritivas que não são do meu inteiro agrado, que considero quase pornografia na literatura, gostei mesmo muito do livro, que procura agitar e despertar consciências que vivem como sonâmbulas nesta sociedade laica, onde os valores religiosos são silenciados enquanto outros procuram impor as suas crenças e modelo sem que o cidadão comum se aperceba.

domingo, 5 de março de 2017

"A Ponte sobre o Drina" de Ivo Andric

O romance "A ponte sobre o Drina", do bósnio croata e prémio Nobel da literatura em 1961: Ivo Andric, tem como protagonista esta obra de arquitetura, ou seja, a história da sua origem, construção e posterior importância desta infraestrutura, que é Património Mundial da Humanidade, na vida da cidade de Visegrad, a qual serviu de ligação entre o mundo islâmico/turco e o mundo cristão/sérvio e entre a cultura ocidental e oriental da Europa através dos Balcãs desde meados do século XVI, até à sua primeira destruição parcial na I Grande Guerra Mundial do século XX.
À semelhança do anterior livro que li deste autor "A crónica de Travnik", o mesmo caracteriza-se por uma escrita muito elegante, rica de adjetivos e metáforas em série e por vezes prolixa de pormenores, o que dá lugar a uma narrativa que se desenrola a um ritmo lento, como a vida na província. No presente romance não há um protagonista, o narrador faz desfilar uma série de personagens desde o não ficcionado sérvio raptado pelos turcos, que ocupavam a zona no século XV, para torná-lo militar forçado ao serviço do islamismo, ou seja um janízaro, que se tornou Mehmed Paxá, com um cargo equivalente a Primeiro-ministro governando todo o vasto Império Otomano, o qual decidiu mandar contruir esta ponte na sua província natal, prosseguido com personagens reais e lendárias, bem como a origem das lendas associadas à sua construção e ao imóvel, para depois ao longo de três séculos relatar estórias relacionadas com cidadãos sérvios, bósnios e judeus desta cidade, desde as suas paixões, investimentos, desgraças, amizades e tensões entre os vários credos e com as mudanças de mão dos povos que ocuparam e lutaram pelo domínio ou independência desta zona multiétnica da antiga Jugoslávia: turcos, austríacos, sérvios e bósnios; tudo isto sempre à sombra desta imponente ponte que marcava o pulsar cultural e social de Visegrad, unia mundos tão diversos e assistiu a mudanças muito significativas no modo de viver das populações e assistiu ao nascer de novas tecnologias industriais.
Assim, numa obra única e como numa passarela desfilam aventuras de juventude, reflexões de velhice, discussões de ideias, gente ébria e sóbria, exércitos, amores, paixões, ciúmes, desconfianças, rivalidades e ódios que em momentos de paz são mutuamente toleráveis, por vezes ridículos ou causadores de incidentes divertidos, mas que em períodos de guerra atingem extremos de desumanidade que deixam marcas para sempre.
Um grande livro, que dá a conhecer a complexidade do que é a mistura multicultural da Bósnia-Herzegovina tendo como ponto de união esta ponte secular Património da Humanidade, isto num romance que é também uma obra de arte global.
Visegrad e a sua ponte (wikipedia)

quinta-feira, 2 de março de 2017

Aniversário de Geocrusoe: 2 de Março desde 2007 a 2017: Dez anos de vida deste espaço

Geólogo - pintura de Carl Spitzweg (wikipedia)
Comecei a página Geocrusoe numa experiência para verificar como funcionava isto de fazer um blogue, mesmo sem ter qualquer ideia editorial definida. Os primeiros posts foram incoerentes por falta de uma estratégia - meros frutos do acaso. Depois dei ao site um rumo com objetivos: divulgar à população em geral aspetos da geologia do Faial e um pouco também das outras ilhas dos Açores, relatar eventos culturais que me agradassem e ocorressem nesta terra ou que eu assistisse e ainda curiosidades sobre Ambiente, a área em que trabalho há décadas, sem esquecer o meu Canada natal e a minha freguesia  de residência: Ribeirinha, Horta. A paisagem destas ilhas e o seu património mereceram destaque, sobretudo naquela onde vivia e das que, entretanto, ia visitando e onde recolhia fotos, sem esquecer a respetiva geologia. Assim se passaram cerca de cinco anos após uma regularidade quase diária neste primeiro período.

Com assunto quase esgotado, no ano de 2012 Geocrusoe deu uma grande volta, já não dava mais para falar da geologia de modo menos profundo e desta terra mantendo uma forma acessível a um não especialista e em paralelo a redução da agenda cultural tão rica como então tinha acontecido no Faial, pensei em fechar o espaço, mas em boa hora optei por centrar-me no meu mundo de leituras de ficção, que por norma atinge quase meia centena de livros por ano, estes passaram a ter uma apreciação pessoal e uma resenha para eventuais interessados numa perspetiva de um simples leitor não formado em letras, mas novos leitores fixos surgiram e daqui saíram dicas que foram seguidas que me foram comunicadas, sendo que a Geologia e o Ambiente escassearam com novos posts, mas os antigos nunca saíram dos que são diariamente visitados neste blogue.

Tive o prazer em ler citações deste blogue em revistas, jornais e  rádio e em viagens conheci pessoas que me referiram o blogue como um espaço em que recolheram informações sobre o Faial, o Triângulo e outras ilhas dos Açores, descobri a pronúncia de Geocrusoe em inglês e francês e fui questionado sobre a origem do nome, explico: veio do facto de durante anos ter estado no Faial sem mais geólogos amigos para conversar sobre as Ciência da Terra, sentia-me um geólogo Robison Crusoe, isolado numa ilha que amava, mas sentia a falta de conversas sobre geologia, não apenas leituras de livros e o blogue permitiu trocar opiniões nestas áreas com o interessado comum e colegas que entretanto fui descobrindo na blogosfera, este espaço passou a ser o meu Sexta-feira.

10 anos é muito tempo a manter viva uma página sem nela falar de política ou de futebol. Foi um projeto onde já tive períodos de entusiasmo, como quando falei da história geológica do Faial e as celebrações dos 50 anos da erupção do vulcão dos Capelinhos, tive incentivo de pessoas ligadas a eventos culturais, com destaque para o extinto Faial Filmes Fest. Por aqui estabeleci novos contactos, conheci outros leitores e ouvi sugestões de escritores e obras que sem ser por esta via talvez não viesse a conhecer incluindo as do mundo da literatura lusófona.

Obrigado a todos os que de alguma forma contribuíram para que este projeto atingisse uma década.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

"O Rei Lear" de William Shakespeare


Acabei de ler a única das grandes tragédias de William Shakespeare que desconhecia o texto e o enredo: "O rei Lear", numa edição e tradução recentes que segundo os autores faz parte de um projeto em curso que pretende publicar todas as obras deste génio mundial da literatura dramática em português, tentando conciliar o estilo original do autor com uma linguagem contemporânea, respeitando a forma e a estrutura poética sempre que possível. Pelos excertos que li do texto original pela internet para comparar esta versão, penso que o objetivo está a ser conseguido, pois o tom, a cadência, o ritmo e o texto na língua de Camões fizeram-me sentir o mesmo de quando li as mesmas passagens da obra em inglês e as ideias base eram as mesmas, mostrando uma fidelidade muito boa. As notas finais permitem ainda pormenorizações sobre publicações antigas de referência da obra e algumas particularidades para as soluções encontradas neste livro.
O Rei Lear desenvolve o tema do engano e do aproveitamento da senilidade e do amor paterno por filhos interesseiros em prejuízo de honestos, não bajuladores e respeitadores dos princípios e deveres filiais.
Duas histórias correm em paralelo, a do rei Lear, que divide o seu reino pelas duas filhas mais velhas que o ludibriam, deserdando a mais nova que o admira sem mentiras, bem como o caso de um nobre, Gloucester, que se deixa levar pela intriga de um filho bastardo em prejuízo do legítimo honesto e ingénuo na maldade. O desenrolar do drama levará não só à descoberta dos erros de interpretação tanto no rei louco pela idade, como no conde, e as tentativas de repor a justiça, mas a guerra levada a cabo com os maquiavélicos traidores, como não poderia deixar de ser numa tragédia, termina com a morte de muitos dos que intervieram nesta luta entre a justiça ou o bem e a injustiça ou mal.
A obra talvez não tenha as frases isoladas fortes do texto de Hamlet, o desenlace é bem mais negro que o de Macbeth, não é o ciúme como em Otello que se deixa alimentar pela maldade mas somente a fragilidade da velhice que é vítima da ganância dos novos e nem há o romantismo de Romeu e Julieta, todavia é uma grande obra que levanta igualmente numerosas questões sobre a esperteza das trevas face à crendice das palavras de quem ama e é justo e onde, sem o conflito de gerações, ficamos perante a crueza da ingratidão filial face ao declínio físico e psíquico dos progenitores que os trouxeram à vida.
Pequena no tamanho, é uma tragédia grande em mensagem, estrutura e complexidade moral, uma obra-prima que gostei e vale a pena ler, enquanto este projeto Shakespeare, levado a cabo pelos tradutores da Universidade do Porto, motivou-me a descobrir mais obras deste génio.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

"O Clube Dumas" de Arturo Pérez-Reverte


O romance "O Clube Dumas" do escritor espanhol Pérez-Reverte é uma obra de suspense e mistério que envolve a busca de livros históricos raros, a validação de um manuscrito de Alexandre Dumas pai, aventura, ocultismo, perseguições, charadas e crimes, numa narrativa onde existe preocupações de juntar a literatura como objeto de lazer sem desvalorizar a qualidade de escrita e em paralelo fornecer informações ao nível de histórias de literatura, sobretudo, do autor que cujo nome consta no título.
Como todos os livros de suspense e aventura, este lê-se bem e desperta curiosidade para cenas futuras, algumas destas são em Portugal, o que já não é primeira vez nos livros que leio deste escritor. Uma obra sobre livros, amantes de destes e fãs de um escritor, cruza o secretismo associado a obras de ocultismo e os artifícios que os seus crentes fizeram para manter viva as suas mensagens e no desenlace Pérez-Reverte fala da importância do leitor em se deixar envolver pelo mundo das obras e o risco que quando se mistura realidade e ficção, um jogo romanceado bem feito que diverte, alimenta o gosto pela leitura e divulga factos da história de escritores e da adoração dos livros como objeto de culto. Gostei e acessível a qualquer tipo de leitor. 

sábado, 11 de fevereiro de 2017

"As Naus" de António Lobo-Antunes


O romance "As Naus", de António Lobo-Antunes, publicado em 1988 e agora reeditado na coleção Livros RTP, cruzou-se casualmente comigo numa papelaria quando estava lá por outros motivos e então despertou-me a curiosidade o modo como este original escritor lusitano trataria o cruzamento do tema das descobertas com o dos retornados após a independência das colónias portuguesas na sequência da revolução de Abril.
Num romance pouco extenso, com a escrita típica de António Lobo-Antunes, onde  se intercalam tempos diferentes, mudanças de sujeito e de espaço ao longo de longos parágrafos, o autor desfila um conjunto de personagens que no passado foram os heróis, escritores ou figuras das crónicas do período das descobertas e da expansão cultural portuguesa, nomeadamente Luís de Camões, Pedro Álvares Cabral, Diogo Cão, São Francisco Xavier e Manuel de Sousa Sepúlveda, reis de Portugal,entre outros, sem esquecer a sombra marcante de D. Sebastião e o seu mito, descrevendo muitas das dificuldades, loucuras e glórias daquela época áurea que viveram, mas que mais tarde os mesmos se tornaram colonos em Goa, Moçambique, Angola e Guiné, com todos os vícios de que são muitas vezes acusados e ainda alvo dos ódios e das bajulações dos povos indígenas e que por fim ainda passam para o papel de retornados a Portugal, expulsos dos locais onde criaram raízes, sendo mal-aceites na pátria de origem com uma organização de acolhimento viciada pela embriaguez dos conceitos de liberdade e socialismo onde neste ambiente se adaptando aos mais variados géneros de personalidades e papéis: desde o que se transforma em oportunista, às vítimas de espoliações, aos que entram no mundo negro da prostituição e dos proxenetas, aos desadaptados e às perdas de identidade onde tudo isto se vai cruzando de forma absurda ao longo da obra.
Apesar das numerosas denúncias contidas na obra, que ora se subentendem, ora são ditas de forma dura, nua e mesmo cruel, por vezes misturadas com alguns preconceitos de mentalidade da nossa sociedade, o livro consegue criar um tom irónico e divertido no seio das desgraças expostas, mas não se furta a mostrar a necessidade de os portugueses em todas estas épocas precisarem de um D. Sebastião para manter a esperança e viabilizar a sobrevivência deste Povo... apesar deste salvador sempre na sombra que no fundo dos lusitanos nunca morreu ele nunca aparece, apenas nos levou a uma derrota marcante.
Gostei do livro, mas reconheço que estou habituado à escrita de António Lobo Antunes e para quem não a entranhar este romance torna-se difícil, se não mesmo incompreensível.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

"O Sentido do Fim" de Julian Barnes


Acabei de lei o pequeno romance vencedor do prémio Man Booker Prize de 2011: "O Sentido de Fim", do escritor britânico Julian Barnes, a primeira obra que leio deste autor.
A história está dividida em duas partes: a primeira narra as memórias do protagonista do seu tempo de liceu até à universidade, a sua envolvências com os seus três amigos mais próximos, as reflexões saídas das aulas de alguns professores marcantes, a relação com a sua primeira namorada e a família desta, bem como seu fim quando foi sucedido pelo amigo que ele mais admirava pela sua inteligência, lucidez, visão de vida e o elemento mais promissor do grupo, mas que entretanto foi capaz de um ato extremo.
A segunda parte começa cerca de 40 anos depois, quando já divorciado e avô é surpreendido por uma doação em testamento da mãe da sua antiga namorada, na qual também está incluído o diário do seu admirado amigo. Começa então a tentativa de obtenção da obra e de descobertas estranhas que mostrarão como a memória de uma pessoa o pode atraiçoar sobre a realidade do foi o seu próprio passado e denunciar as suas escolhas medíocres após uma juventude onde se foi capaz de ser cruel para com aqueles que mais se amou sem se ter noção do nível a que se baixou e até à última página haverá sempre surpresas que fecham o ciclo da vida do narrador e a perspetiva deste do que é o sentido das opções de um indivíduo para os seus fins.
Destaco desde já que este romance contém um dos melhores textos literários que li até ao momento para obras do século XXI. Praticamente todos os seus parágrafos e diálogos são de uma perfeição de escrita e de uma beleza estilística clara que concilia a estética com a discussão de ideias num nível a que não estou habituado a ler em obras contemporâneas, que muitas vezes trabalham a escrita e esvaziam o conteúdo ou valorizam este e comprometem a forma de escrever. Aqui existe uma harmonia perfeita entre a reflexão e a arte de narrar, sem deixar de ser uma obra profunda e uma lição de vida cuja genialidade só se revela completa e clara nas últimas páginas do livro. Uma obra-prima!

sábado, 4 de fevereiro de 2017

"Pais e Filhos" de Ivan Turguéniev


O excelente romance"Pais e Filhos" do russo Ivan Turguéniev, escrito em meados do século XIX, além de ser um dos clássicos mais importantes da literatura deste país, é uma obra marcante na literatura mundial, pois é ele que define e cria o termo "niilismo" como forma de pensar e de ser de uma personagem que questiona e rejeita, à priori, qualquer autoridade, instituição ou  costume de modo a querer revolucionar a sociedade, tema que posteriormente será desenvolvido por Dostoievski e outros importantes escritores, com todas as suas forças e fraquezas, benefícios e perigos e ainda alvo de linhas filosóficas, nomeadamente Nietzche, aspetos que moldaram profundamente a literatura global no último século e meio.
Escrito de uma forma fácil, mas elegante, e com pormenores descritivos subtis, que não só embelezam o texto como também caracterizam situações e sentimentos; a história é essencialmente marcada pelo conflito das formas de pensar em duas gerações: a dos filhos no final da juventude, então com todo o vigor, espírito de contestação e vontade de mudar o mundo, insatisfeitos com a dos pais, onde estes com as lições da vida se tornaram já conservadores, acomodados e inseguros perante os seus descendentes, para quem vivem e a quem admiram, sem saber como gerir este desacordo geracional.
Centrado sobretudo em duas famílias diferentes mas de pais recatados e filhos de espírito revolucionários ou influenciados por estes ideais, junto com algumas personagens, incluindo femininas fortes que vão criar o choque não só entre as ideias geracionais como também com a natureza biológica da vida e dos sentimentos. A história coloca a nu o conflito geracional de séculos e as suas limitações da própria natureza e realidade que leva a que ora uns saiam vencidos pela crueza do acaso, embora com um futuro promissor e vítimas de aspetos menores do destino e outros se arrumem perante a força do mundo, tornando-se em pessoas com carreiras consideradas modelos para o comum dos mortais na sociedade em que se inserem.
Um livro não muito grande, fácil e muito rico não só em mensagens, como influente filosoficamente que marcou o futuro da literatura. Gostei muito e recomendo.

sábado, 28 de janeiro de 2017

"O leilão do lote 49" de Thomas Pynchon


A experiência de leitura deste pequeno romance "O leilão do lote 49", do norteamericano Thomas Pynchon, teve a particularidade de apesar de muitas vezes me ter feito sentir como que perdido na narrativa, ao me cruzar com personagens paranóicas, situações absurdas, uma mistura de informação científica séria com aspeto de fantástico junto com irrealidades que se parecem verdades, além de uma série de cenas cuja lógica aparentemente está ausente, levou-me a um livro que me cativou desde a primeira página. O evoluir das situações onde a coerência está como que ausente gera uma história que toma um aspeto de mistério a resolver na tentativa de decifrar um conjunto de pistas que parecem loucas.
Oedipa é informada que foi nomeada testamenteira de um ex-namorado, multimilionário e que para as suas funções poderá contar com a ajuda de um advogado de um escritório com quem o falecido trabalhava. Surpreendida parte para a localidade deste e onde ele era o maior proprietário e investidos da zona. A partir daqui as peripécias sucedem, cada uma mais estranha do que a outra, desde a interferência do seu psiquiatra que enlouquece, ao advogado com quem ela trai o marido mas que a seguir foge com uma adolescente, passando pela envolvência do esposo como homem da rádio, mas que tem alucinações com LSD, ao contacto com um grupo musical de adolescentes denominado Paranoids cujo o nome é coerente com a respetiva forma de ser, até um grupo de teatro cujo ator principal e encenador adapta uma peça antiga deixando pistas que se combinam com elementos encontrados na coleção de selos do morto, que apontam para a existência de uma rede de correios secreta instalada na sociedade para se autonomizar das redes oficiais que Oedipa tenta descobrir através de investigadores de literatura, cientistas que trabalham na entropia dos sistemas e filatelistas, levando tudo isto a uma série de situações de paródia, com informações subtis de análise social e psicológica nos Estados Unidos.
A obra parece uma evolução dos livros de Kafka, juntando cultura pop e erudita, clássica e contemporânea, além de ciências, num mundo absurdo com análises psicológicas que geram um estilo original, por alguns denominado de pós-modernista, que a mim parece-me trazer para a literatura as correntes artísticas da pintura pop-art de Warhol, do surrealismo de Dali, entre outros, mas sendo prolixa em informações como um quadro de Pieter Bruegel, gerando-se assim uma mescla onde nos enredamos que apesar de labiríntica me deu muito prazer em sentir-me perdido em situações por vezes de difícil compreensão, se não mesmo incompreensíveis.
Gostei, contudo só recomendo a quem os esforço de análise do que se está a ler e da apreciar a forma de escrita e narrativa dão prazer, mas não a um leitor que se entusiasme apenas com enredos e textos fáceis de seguir sem esforço.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

" A República dos Sonhos" de Nélida Piñon


Nélida Piñon, escritora brasileira de origem galega, galardoada pela sua obra com o prémio Príncipe das Astúrias, foi a primeira  mulher a presidir à Academia Brasileira de Letras e neste seu extenso romance (mais de 700 páginas em letra miúda) "A República dos Sonhos" faz em simultâneo uma homenagem à imigração para o Brasil das pessoas da Galiza, ressuscita a memória da sua família, bem como expõe de uma forma ora crítica, ora amarga, ora com ternura: o pensar, a cultura, a sociedade e a política deste país Sul-Americano, desde o início dos século XX até à década de 1970, destilando as virtudes, defeitos e sonhos, bem como as raízes desta mistura que originou uma mescla social única no mundo, unida pela língua Portuguesa na sua variante deste continente.
A história arranca quando Eulália decide que chegou a hora de se deixar morrer - a matriarca da família de Madruga, o imigrante pobre de 1913 e criador de um império no Rio. As memórias dos que a cercam levam então à narração de acontecimentos sem respeitar uma sequência cronológica, que vão saltando por vezes bruscamente desde o avô do protagonista, o galego que conta as estórias do seu povo para manter viva a cultura da sua nação e língua que marcou o protagonista, passando pelo sogro deste, a versão aristocrática decadente de quem marcou o passado da Galiza e de quem ficaram as histórias, passa pelo pais, filhos e a neta mais velha do herói do livro, sempre na companhia do seu amigo fiel e companheiro da viagem na primeira travessia do Atlântico, mas de comportamento oposto: Venâncio, que representa os derrotados desta imigração mas é necessário para viver os sonhos para que Madruga possa ter a frieza de vencer na vida real.
Um grupo familiar com membros tão díspares que vai do ambicioso, ao preocupado com os desfavorecidos, à mulher obediente, à que se refugia em Deus mas vê tudo em torno, passando pela serva acolhida e pela que rompe com as regras que escravizam o género feminino, sem faltar o homem cujo a importância reside na virilidade de macho, ao que os valores dos contos e das tradições são o cerne da cultura do País e das raízes ibéricas, a uma agregado que vê passar as principais figuras políticas do Brasil: como Janos, Getúlio e Juscelino, sofreu com a guerra civil de Espanha e desejou a autossustentabilidade económica brasileira, assistiu à democracia com as suas esperanças, passou pela ditadura e desilusões, medos e fugas possíveis nesta América e República de sonhos alcançados e também de falhados.
Uma obra de grande profundidade, por vezes densa e prolixa em pormenores, com dois narradores principais e outros que se escondem atrás do escritor. É um hino ao Brasil, à língua Portuguesa, à Galiza, a Espanha e um tributo aos imigrantes vencedores e louvor aos vencidos e àqueles cujo contar histórias marcam a cultura dos Povos. Grande Obra Literária.

sábado, 7 de janeiro de 2017

"Lillias Fraser" de Hélia Correia


"Lillias Fraser" da escritora portuguesa Hélia Correia, cuja obra ganhou o prémio PEN clube de Portugal em 2002, enquanto a autora foi galardoada com prémio Camões de 2015, é um romance histórico que começa na Escócia em 1746, onde a protagonista, ainda criança e antes de uma derrota dos escoceses católicos interessados em conquistar o trono protestante da Inglaterra, tem a visão da morte do pai e foge antes do morticínio da suas gentes, salva-se e é depois protegida por várias pessoas de estatuto diverso destes dois povos em conflitos. Na sequência da sua odisseia vem parar a Lisboa, prossegue a sua vida entre vários protetores, sobrevive ao terramoto de 1755, novamente devido ao seu dom de ver a morte, passando depois na sua juventude por novos tormentos resultantes desta catástrofe entre gente que a acolhe e a persegue como uma pessoa diferente: loura, de olhos e pele clara; desembocando no período da guerra dos Sete Anos, onde Portugal se alia à Inglaterra e ela volta a cruzar-se com líderes militares dos povos da sua ilha. 
O romance envolve-se no realismo mágico, tem vários acontecimentos e personagens reais: desde a batalha inicial do livro, ao terramoto, clero influente do monarca português e militares do Reino Unido, tem muitos pormenores do que terão sido as dificuldades da população após a destruição de Lisboa e o caos social de então, bem como a ação da Inquisição e de Marquês de Pombal na época, tanto nas vertentes positivas como negativas deste.
A estória surge numa sequência de cenas que por vezes fornecem pistas futuras e outras vezes recusam prosseguir, originando um tratamento do tempo em forma de peças soltas descontínuas que por vezes abrem caminhos que fecham de seguida, além de em momentos ser uma narrativa de alguém do presente que investiga o passado e noutras a ação entrar dentro das personagens como se fossem estas os autores, paralelamente a imagem sobre os Portugueses e Portugal é frequentemente depreciativa da sua cultura e mentalidade, o que me criou algum desconforto, contudo é um romance onde aprendi factos sobre acontecimentos históricos e que sem me ter entusiasmado também não desgostei de ler e penso que valeu a pena conhecer esta obra.