sábado, 26 de agosto de 2017

"O Ruído do Tempo" de Julian Barnes


Acabei de ler o "O Ruído do Tempo" do escritor inglês Julian Barnes. Um romance que tenta expor os prováveis receios e complexos de consciência da vida da personagem histórica Shostakovitch (Chostakovitch), o compositor erudito mais famoso que viveu e compôs sempre sob o regime soviético sem nunca tentar fugir do País e alvo de enormes pressões para que as suas obras obedecessem às diretrizes do PCUS.
O livro dá destaque às atitudes de Shostakovitch no período de terror de Estaline e depois nas reviravoltas da época de Kushchev e como terá sido usado como exemplo da supremacia artística da União Soviética pelos dois líderes.
A obra é escrita numa sucessão de textos, como bilhetes postais, onde Julian Barnes vai mostrando a biografia de Shostakovitch em peças soltas que se colam e montam a vida deste, as suas relações com mulheres, os casamentos e as suas ideias musicais e sociais avançadas cercada pela cobardia de as pôr em prática. Exibe ainda as suas eventuais reflexões e exames de consciência. Um momento chave é quando ainda jovem vê a sua grande ópera após um sucesso estrondoso na União Soviética e Mundo ser ostracizada pela crítica, que pode ter sido escrita por Estaline, e o leva a optar por não dormir e a esperar a sua prisão e morte à porta do elevador para a família não assistir.
"Ser herói era muito mais fácil do que ser cobarde. Para ser herói só é preciso ser bravo por um momento... ...mas ser cobarde era embarcar numa carreira que durava toda a vida. Nunca podíamos descansar."
A partir de então toda a sua vida foi sobreviver com a sua cobardia e continuar a compor pretendendo agradar ao sistema para ser ouvido e com medo de pôr as suas ideias na música, em paralelo renega artistas que admirava ou heróis de resistência. Chega a assumir discursos discursos que não escreveu e opiniões que nem concordava no País e no Estrangeiro e quando da abertura do regime uma nova humilhação que não previra.
Há escritores que produzem obras-primas de literatura sendo originais e bons em estilos e géneros diferentes, depois de "O sentido do Fim", que li este ano, agora outra obra-prima nada semelhante à anterior. Um texto com uma dose contínua de ironia, por vez sarcástica, bem redigido e num estilo brilhante, Julian Barnes é um escritor que quero continuar a ler e descobrir o que já publicou ou venha a publicar.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

"Terra de Neve" de Yasunari Kawabata


Acabei de ler o pequeno romance ou novela, "Terra de Neve" do escritor japonês e vencedor do prémio Nobel da literatura Yasunari Kawabata. 
A obra narra uma relação amorosa entre um homem casado de Tóquio, sensível, estudioso de teatro, música e dança que visita anualmente uma termas de montanha na época da neve, aonde vai mantendo uma ligação com uma gueixa que por ele se apaixona, igualmente culta e sensível.
A estória é descrita com metáforas originais para um ocidental, onde a pureza envolvente desta terra de neve, misturada com a loucura deste amor sem futuro de uma pessoa singular, levam à criação de um texto literário com imagens e referências de grande beleza poética e cores que lembram um quadro nipónico original, entretanto, vão sendo destiladas informações do estilo de vida oriental, alguns dos seus costumes, arquitetura, mobiliário e até tecidos japoneses.
Gostei e é sem dúvida um texto que permite o encontro e compreensão de culturas oriente no ocidente, com uma fórmula que para mim é única até ao momento, apesar de não ser uma simples narrativa ou com um tom a que estejamos habituados nestas culturas dos continentes que bordejam o Atlântico.

domingo, 20 de agosto de 2017

"Terra Abençoada" de Pearl S. Buck



Acabei de ler "Terra Abençoada" de Pearl S. Buck, escritora norteamericana galardoada com prémio Nobel da literatura.
A estória passa-se na China no rural, distante dos grandes centros e deduz-se que deve ter início no final do século XIX e estende-se por várias décadas e embora se fale de uma revolução não é claro que seja a comunista, apesar de algumas das ideias emanadas por esta por vezes transpareçam na narrativa.
Wang Lung um pobre filho de um pequeno lavrador solicita ao pai que lhe arranje uma mulher, sem defeito, não bela e trabalhadora para o ajudar no seu sonho de se tornar proprietário de terras e lhe dar filhos. É-lhe então entregue uma escrava da casa senhorial mais importante da cidade próxima. Enquanto ele trabalha arduamente, compra terras, a companheira servilmente o ajuda e lhe dá filhos, tornando-se num pequeno caso de sucesso, mas vem uma seca e emigra só não volta a encontrar meios para melhorar-se, regressa com a família e vários acasos transformam-no num dos homens mais ricos da região e ele procura criar a sua dinastia alicerçada nos filhos homens numa sociedade onde as mulheres são vendidas e mais não são que meras reprodutoras, concubinas ou servas, por isso não admira que arranje outras nestas condições para sua casa e honrar o seu nome e assim o seu sucesso sempre ligado ao amor à terra e ao trabalho e em desprezo pelas mulheres serve para conhecermos a vida rural e a mentalidade daqueles tempos na China.
A narrativa é feita numa linguagem simples, fácil como de um relator que conhece os pensamentos das suas personagens mas não julga procedimentos, mesmo que choquem os ocidentais, a obra torna-se num primeiro volume de uma saga que noutros romances relatará a vida das gerações seguintes e foi um grande sucesso de vendas em meados do século XX. Gostei, não me fascinou a escrita, mas aprende-se muito do que era a China num passado pouco antes de se tornar na República atual.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

"Reino do Amanhã" de J. G. Ballard


Terminei a leitura do "Reino do Amanhã" do escritor inglês J. G. Ballard, uma distopia que evidencia os risco presente de escravatura e de ditadura que pode resultar da combinação do consumismo atual com o desporto interesseiramente organizado nas comunidades, neste caso a região suburbana de Heathrow - Londres, onde apenas há valores para uma sobrevivência oca e materialista sem as referências coletivas tradicionais.
Na sequência de um tiroteio num megacentro comercial em Brooklands é morto o pai de Richard Pearson, um publicitário recém-despedido e este desloca-se à periferia onde descobre um aglomerado habitacional descaracterizado cuja vida se desenrola em torno da autaestrada e das grandes superfícies comerciais: "uma estação de serviço junto a uma estrada com duas faixas de rodagem imprimia um sentido de comunidade mais profundo que qualquer igreja ou capela, uma maior consciência de cultura partilhada do que uma biblioteca ou uma galeria municipal poderiam oferecer... ...o estacionamento estava prestes a tornar-se uma das maiores necessidades espirituais da população britânica."
Na cidade, Pearson descobre o mal-estar do subúrbio, aproveitado pelo Metro-Centre com publicidade incutida à população articulada com equipas desportivas suportadas por aquele templo do consumo e geradores de uma violência oca e xenofobia em espiral crescente e onde o pai ora pareceu uma vítima ora uma peça eliminada quem fomentava uma revolução e guerrilha em Brooklands.
Pearson decide mudar-se e investigar o fenómeno e a morte, alia-se tacitamente ao Metro-Centre e, numa evolução do vazio, a loucura da ditadura consumista instala-se como uma nova religião, extrema-se em revolta com exércitos civis em defesa do seu deus comercial e um Estado sujo que procura conter uma situação descontrolada.
A obra evolui para uma tensão extrema e denuncia a violência das periferias urbanas, torna-se sombria e repetitiva na demonstração exaustiva da semelhança entre os crentes desta nova religião do consumo com o desporto organizado através dos seus símbolos e ritos paralelos às fés tradicionais... mas "As pessoas são capazes da mais maravilhosa demência." uma obra atual da sociedade numa evolução mais sombria que a do "Admirável mundo novo" de Huxley. Um romance, com uma escrita crua, por vezes ácida, que incomoda pela denúncia do caminho que estamos a seguir. Um alerta contra a alienação em que o ocidente consumista está a cair.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

O Mendel dos Livros e A viagem ao Passado de Stefan Zweig


Acabei de ler os dois contos O Mendel dos Livros e A viagem ao Passado, publicados no mesmo livro, de Stefan Zweig, um escritor de origem austríaca, mas que passou os seus últimos dias no Brasil.
O primeiro conto de algumas dezenas de páginas é relativo à vida de um alfarrabista (sebo): Mendel, que era capaz de se isolar do mundo para viver apenas para os seus livros, que fazia a sua vida profissional centrada num café barulhento sem se aperceber do que se passava à sua volta, inclusive este alheamento levou-o a cometer infantilidades em momento de guerra só compreensíveis a quem ama os seus alfarrábio mais que tudo. É uma estória lindíssima. Uma narrativa que vale não só pela forma de escrita, cheia de adjetivos, poesia e beleza , mas também por ser uma grande homenagem a este grupo de pessoas capaz de encontrar pérolas para os bibliófilos, mas vistos muitas vezes apenas como uns comerciantes de obras usadas, quando podem ser os maiores peritos no tema com que nos cruzamos.
O segundo conto, também de dezenas de páginas "A viagem ao passado", que praticamente termina com dois versos de Verlaine, é um puro Zweig, onde as paixões extremadas são exploradas como tema, as quais se confrontam com situações que levam a uma mudança brusca e à tomada de atitudes que no futuro levarão a um outro choque e possíveis remorsos sobre o passado. Neste caso um amor que a carreira e a guerra separou, mas depois dá-se o reencontro quando já tudo é diferente desse tempo anterior.
Gostei muito dos dois, mas o primeiro marca qualquer bibliófilo a que acresce a beleza da escrita e o valor da homenagem efetuada. Recomendo a todos que gostam de beleza literária em ficções curtas.

domingo, 6 de agosto de 2017

Festa do Livro 2017 na cidade da Horta

Não há Semana do Mar na Horta sem Festa do Livro, em 2017 a boa tradição repete-se.
Já fiz a minha visita e recomendo: Diversidade de livros, ficção, ensaio, divulgação científica, análises política, história, religião, new wave e outras ondas, boas e más nos seus géneros.
Fui com a minha lista de obras a comprar, mas como quando a escolha de livros é grande, lá chegou à dúzia e com apenas dois da seleção levada.
Se passar pela Horta aproveite esta oportunidade.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

"Bombaim - a um mundo de distância" de Thrity Umrigar



Acabei de ler "Bombaim a um mundo de distância" da escritora indiana Thrity Umrigar, um romance com ma escrita simpática, agradável e cheia de sentimentos, sem ser "meladamente" sentimental, que narra a vida de duas mulheres já no final da vida adulta, de condições sociais distantes mas cuja vida foi durante muitos anos próximas. A obra recorre a frequentes memórias de cenas passadas por cada uma delas, dando assim saltos no tempo que permite conhecer o que foi a vida delas e as feridas e cicatrizes que se vão abrindo com problemas do presente.
Uma das mulheres é pobre, hindu, residente num bairro de lata, trabalhadora incansável e uma mãe coragem perante as adversidades dos desprotegidos intocáveis; a outra é de uma família culta, instruída, parsi (seita zoroastriana), com uma vida não menos sofrida psicologicamente que teve a primeira como criada durante décadas e de quem se sente amiga com todas as barreiras que as separações por castas, religiões e preconceitos impõem. A primeira enfrenta a gravidez imprevista da neta orfã e por ela acolhida na sua miséria. A segunda alegra-se com a gravidez de um casamento de sonho da filha, mas só que este momento de infelicidade e felicidade pela vinda de um filho a cada um destes lares vai ser razão para se abrirem ainda mais divisões e virem mais injustiças a nu típicas da sociedade de Bombaim.
Gostei, o texto é de fácil leitura e mesmo sem ser de uma genialidade literária que mereça neste campo outros encómios é uma história de denúncia social bem narrada e por vezes de elevada tensão. Recomendo a quem quer conhecer melhor a sociedade indiana e muitos dos seus problemas estruturais geradores de divisões, desconfianças e injustiças que distanciam pessoas aparentemente próximas.