sexta-feira, 13 de outubro de 2017

"Os mandriões do vale fértil" de Albert Cossery


O romance "Os mandriões do vale fértil" do egípcio francófono Albert Cossery narra de forma irónica e sarcástica o estilo de vida de uma família que vive numa povoação dos subúrbios de uma cidade cujo pai incutiu nos três filhos o orgulho de ser de classe burguesa sem necessidade de trabalhar e a virtude que é passar o tempo a dormir sem necessidade de se misturar com a restante sociedade onde imperam os perigos daqueles que têm de trabalhar para sobreviver.
Assim conheceremos o filho que apenas acorda para comer e outras funções biológicas que ainda por vezes pede ajuda para não ter de sair da cama, o outro que desistiu do amor para que o descanso não fosse perturbado pela obrigação de chefe de família do terceiro que visita uma fábrica inacabada para justificar a impossibilidade de satisfazer a sua vontade de arranjar trabalho e as estratégias para impedir que o pai velho volte a casar devido às perturbações que tal traria ao ócio, bem como as pessoas que circundam este núcleo.
À semelhança dos dois anteriores que li, eis outra pérola literária, uma pequena obra com uma ironia requintada e inteligente onde a preguiça é elevada a um estatuto social só acessível a alguns perante a banalidade dos desprezíveis e perigosos humanos que têm de trabalhar. A obra ainda toca de forma sarcástica noutros comportamentos que a sociedade do politicamente correto contemporâneo sacraliza, tudo isto feito com um humor e qualidade de escrita e se percebe o grande prémio literário da francofonia pelo conjunto da obra atribuído pela França a este egípcio que preguiçosamente se estabeleceu por décadas num hotel de Paris. Adorei e não conseguia parar.

2 comentários:

Pedrita disse...

não li. anotado. beijos, pedrita

Carlos Faria disse...

Sei que está pouco traduzido no Brasil, mas também sei que já aí chegou. Não são obras profundas, mas são deliciosas, outro tema predileto de Cossery é a pobreza e mendicidade e respetiva dignidade.