quarta-feira, 22 de novembro de 2017

"A Queda" de Albert Camus


Acabei de ler "A Queda" o último romance do francês Albert Camus, prémio Nobel da Literatura.
Num bar de Amesterdão um cliente habitual reconhece a entrada de um francês estranho ao local, um compatriota, e logo o interpela, apresenta-se, traduz-lhe o pedido de bebida e começa a narrar a sua vida desde o início da sua carreira de advogado brilhante em Paris, associada a um comportamento farisaico cheio de amor-próprio, sempre disposto a transmitir uma imagem de bondoso e altruísta, para ser admirado em sociedade, mas também com uma vida de conquista de mulheres, permitindo correr a sua fama, para se aproveitar do género feminino e ser plenamente admirado por todos, isto tudo até a sua vida dar uma grande volta e se tornar num juiz-penitente exilando na capital da Holanda, atividade que explica no fim do livro.
A obra é uma reflexão filosófica sobre a futilidade do estilo de vida em sociedade em torno da idealização da imagem pública de sucesso e a consciência do mal que praticamos enquanto se é pessoa de bem e se julga o outro.
O texto está brilhantemente escrito, cheio de força e ritmo. Todavia, a narrativa só não é um monólogo por sabermos pelos comentários do narrador o teor de algumas intervenções do outro ouvinte. Isto torna a linguagem típica de um falador que abafa qualquer outra voz. A técnica fez-me lembrar o romance "Cadernos do subterrâneo" de Dostoievsky, simplesmente agora é a tentativa de socializar e de se salientar em sociedade e não de ostracização e autoflagelação do protagonista no livro russo... pelo menos até à queda e conversão em juiz-penitente de Jean Baptiste Clemance.
Apesar de ser pequena esta obra e da força do texto, a partir de certo momento esta pode tornar-se cansativa, tal como quando ouvimos alguém que ininterruptamente não se cala, só que este fala-barato diz muito e desmonta a futilidade desta sociedade sem valor e corrompida farisaicamente pelo mal.

3 comentários:

Pedrita disse...

ah, vc fez a mesma relação que eu com a obra do dostoievski. tb gostei muito e comentei aqui http://mataharie007.blogspot.com.br/search?q=camus

Carlos Faria disse...

Não conseguia deixar de pensar no outro livro. Gostei mais de Peste e de O Estrangeiro

Pedrita disse...

carlos, eu tb pensei muito em memórias do subsolo. o estrangeiro não gosto tanto. meu preferido é mesmo a peste. falei de livro no meu blog.