quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

"Focos de Tensão" de George Friedman


"Focos de Tensão" de George Friedman, filho de uma família judaica do leste da Europa refugiada nos Estados Unidos, é um ensaio onde o autor, académico, procura evidenciar que a paz na Europa não é um facto definitivo, existindo muitos aspetos em que este continente possui tensões que podem fugir ao controlo dos seus dirigentes, nomeadamente: nacionalismos (o caso da Catalunha nem é lembrado), interesses económicos, receios, crenças e particularidades que são explosivas e cujo um incidente pode levar a guerras.
Assim, após se compreender os caminhos que levaram a Europa a dominar o mundo cultural, política, económica e militarmente, Portugal não é esquecido, este continente, pela sua filosofia e tensões internas, em 3 décadas no século XX tornou-se marginal e desinteressante para as várias potências do século XXI, um mero rico fraco, incapaz de se defender de ameaças de guerra ou de se impor para salvaguardar os seus interesses: um cadinho cujos equilíbrios em que assenta a sua paz, inclusive na União europeia, a qualquer momento pode entrar em rotura. Um ensaio que é uma lição de história e um aviso aos europeus. Li-o em formato ebook, mas existe também a versão em livro de papel.

domingo, 24 de dezembro de 2017

O cerne do Natal está no nascimento de uma Criança - Jesus


A palavra natal vem de nato, nascido; por isso natalidade indica número de nascimentos. Quando em Roma se celebrava o sol de inverno como fonte de vida e a natureza parecia morta os Cristãos aproveitaram a festa para celebrar o Nascimento de Jesus, a quem consideravam a verdadeira Vida e fonte de Luz. Se o Natal lembra esperança e amor é porque associamos estas ideias ao ver um recém-nascido como o Menino Jesus. Votos de um FELIZ NATAL  a todos os leitores de Geocrusoe.
Foto: Pormenor do presépio do  Agrupamento 973 do CNE no exterior do centro de culto de São Mateus na Ribeirinha.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Lincoln no Bardo de George Saunders


Sabia que o vencedor do Booker Prize 2017 seria um livro diferente de todos os que já lera e foi a curiosidade que me levou a arriscar a ler "Lincoln no Bardo" de George Saunders, norteamericano, e neste aspeto, após a leitura, assumo a originalidade da estória e da escrita do romance que em nada se assemelha a nenhum outro. Assim, não admira que no início tenha estranhado, mas ao contrário do que por vezes acontece ao continuar a ler, aqui não "entranhei".
A estória arranca com a morte de Willliam (personagem histórica) filho do Presidente Lincoln após este, perante a enfermidade da criança, manter o baile na casa branca por o considerar importante para animar a comunidade da cidade, tensa com a guerra civil que os Estados Unidos então atravessam. Segue-se o funeral e a receção da criança na comunidade dos que já abandonaram esta vida mas resistem em permanecer no cemitério, onde vamos conhecendo o que os mais marcou individualmente enquanto estiveram na terra. Atordoado, William não reconhece a situação em que está, é visitado pelo pai durante a noite, depois há uma luta dos anjos do mal para conquistar os resistentes e o recém-chegado, este não cede ancorado na promessa da volta do Presidente. Assiste-se assim a s estratégias de solidariedade das almas, enquanto vamos descobrindo todos os seus vícios e defeitos privados do passado de que ainda não se libertaram. Assim, durante uma noite, vê-se o esforço coletivo para fazer o bem a alguém recém-chegado por parte de gente que se sabe estar condenada pelo que antes fizera, nalguns casos condutas bastante chocantes, tentando inclusive agir sobre o visitante vivo de forma metafísica.
Passando agora à escrita, novamente se entra numa texto diferente de tudo o que já li, o período respeitante à vida dos Lincoln desde a doença, baile, morte de William e sentimentos do Pai são narradas como uma coletânea de testemunhos, por norma de um parágrafo, cujos autores são referenciados ou como excertos de notícias ou livros de memórias novamente com a origem identificada (mesmo que fictícia), enquanto no além temos como que um texto dramático onde os atores vão referindo as suas partes e construindo uma peça que se assemelha a uma representação macabra cujos intervenientes têm de se recolher ao seu sarcófago com o nascer do sol e  onde cada personagem ou testemunho tem características sintáticas, lexicais e níveis da pessoa em si, o que dá uma mistura de estilos e formas de expressão variada, desde o formal até ao brejeiro, afinal na sociedade tudo isso coexiste como no livro e apesar de mais de 300 páginas a leitura é rápida pelo espaço livre entre textos para teatro.  O livro intercala por vezes capítulos referentes ao período em casa dos Lincoln com outros passados no sobrenatural, montando-se assim o conjunto da obra.
Técnica e imaginação não faltam no romance, se gostei? A minha resposta é não!
Há pontos incoerentes, o autor quis mostrar a ligação de cada um aos seus vícios e hábitos que nem no além se conseguem libertar, não sei se quis condenar indiretamente alguns comportamentos que hoje são aceites ao contrário do passado, além de mostrar a dor íntima de um pai que luta com o dever público e a discrição privada, mas que a obra dá lugar a muitas questões, lá isso permite, como exercício de escrita é uma jóia e talvez seja isso que justifica tão importante prémio.

sábado, 16 de dezembro de 2017

"Homer & Langley" de E. L. Doctorow


O romance "Homer & Langley", do escritor americano E. L. Doctorow, ficciona a vida dos dois personagens reais, os irmãos Collyer cujos nomes dão o título à obra. Estes nascidos na década de 1880, filhos de um casal de classe média alta noviorquina que após a morte dos pais e da cegueira de Homer, já no século XX, foram progressivamente se isolando do exterior e recolhendo-se na sua luxuosa vivenda na 5.ª Avenida de Nova Iorque à custa da confortável herança, tal aconteceu não só por quezílias destes com as autoridades e vizinhos, mas, sobretudo, por Langley com traumas vindos da 1.ª Grande Guerra Mundial ter passado a sofrer de uma desordem psicológica de acumulação compulsiva que o levava a trazer para casa um grande número de bugigangas e todos os jornais publicados na cidade enquanto cuidava do seu irmão que fora pianista de cinema mudo.
O escritor imagina a vida destes dois irmãos narrado pelo cego Homer, sobretudo o quotidiano dentro de casa e as obsessões de Langley. Todavia Doctorow extravasa em muito a vida dos irmãos, uma vez que morreram vítimas da sua situação em 1947, enquanto na obra a sua vida estende-se até à década de 1980, servindo assim de meio para contar o evoluir da sociedade, da tecnologia e a sucessão dos grandes acontecimentos locais e mundiais, até o aparecimento de movimentos juvenis ao longo de quase um século de história dos Estados Unidos.
A biografia ficcionada é contada sempre na primeira pessoa na perspetiva de Homer, incluindo as suas paixões e interpretações do que assistia, até às suas adaptações para compensar a cegueira, passando pela crítica subtil do evoluir da sociedade e ainda o impacte dos novos utensílios que só conhecia por descrição de terceiros e fins a que se destinavam.
A escrita é de uma grande elegância e beleza narrativa, mas sempre com um tom nostálgico de quem gostou de coisas agradáveis da vida, o que confere um enorme prazer de leitura a quem aprecia um bom texto bem escrito que relata 100 anos em apenas 172 páginas. Gostei muito.

domingo, 10 de dezembro de 2017

"Os Milagres do Anticristo" de Selma Lagerlöf


O romance: "Os Milagres do Anticristo", da escritora sueca Selma Lagerlöf, a primeira mulher vencedora de um prémio Nobel da literatura, é uma obra que usa o fantástico tomando lendas e crenças para criar uma sátira e levar a uma reflexão sobre a confusão entre comportamentos sociais, ideologias políticas e fé religiosa.
A partir de uma crença generalizada na Sicília de que o anticristo terá a mesma aparência que Cristo e dum acontecimento que Selma conheceu numas férias naquela ilha, da substituição (à socapa) de uma imagem de altar por outra falsa; a escritora cria uma parábola de reflexão com humor e ironia sobre a confusão da ideia política de socialismo e da mensagem do cristianismo, ambientada à terra siciliana e com recurso aos mitos, religiosidade, disfunções sociais, vícios culturais, sede de justiça e paixões que formam a imagem coletiva do estilo de vida siciliano.
Na colina romana do Capitólio uma sibila profetizou a César Augusto que ali se adoraria Cristo ou o anticristo, mas não o homem fraco. Após a conversão de Roma ali construiu-se a igreja Aracoeli (eu conheço-a e para mim o seu interior é um dos mais belos e ricos da cidade), onde uma imagem de Cristo menino é venerada durante séculos para evitar a adoração do mal, mas no de 1800 uma inglesa ambiciona a sua posse e procede à sua troca, com o embuste descoberto fica com a falsa e viaja por muitos locais onde se operam maravilhas, até ir parar a um altar numa pequena e pobre cidade da Sicília e nesta comunidade esquecida muito muda com o patrocínio de uma devota apaixonada por um revolucionário e o sucesso do povoado é um exemplo para a região do Etna, até que se descobre a verdade das origens da imagem "milagreira" que só agia a favor do interesse mundano.
A escrita é muito fácil e cativante. A forma de explorar mitos e hiperbolizar acontecimentos fantásticos faz parte do estilo desta escritora nórdica, que neste romance deixa os de origem pagã da Escandinávia e pega nos associados às crenças Católicas e denúncia subtil dos defeitos estruturais da sociedade latina, com aproveitamentos religiosos e políticos nas questões de ideologia e fé, No fim a obra dá um grande abanão a quem vai pensando que se emite alguma opinião de fundo sobre religião, mas não deixa de ser mordaz a quem quer aproveitar o cristianismo para fins ideológicos. Como todo o romance que mexe com religião, valores e estilos de vida, o livro pode chocar, mas no fundo é uma excelente reflexão a brincar com a crendice popular e o aproveitamento político e social desta. Gostei muito.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

"Perguntem a Sarah Gross" de João Pinto Coelho


Apesar de "Perguntem a Sarah Gross" ser um romance escrito por um português contemporâneo, João Pinto Coelho, a obra nada tem relacionado com Portugal, nem sequer uma referência ao país.
A trama desenrola-se com duas estórias ocorridas em tempos diferentes que se vão alternando na sequência dos capítulos. A mais recente é contada na primeira pessoa pela narradora, esta expõe a sua entrada num colégio de elite no Connecticut fugida do Oregon, as lutas que tem de enfrentar entre o conservadorismo de alguns da instituição na década de 1960, a dificuldade de aceitação de negros no estabelecimento, um problema pessoal que esconde, mas tudo merece a genial proteção da diretora, a mulher exemplar Sarah Gross, da qual ela pouco sabe.
A outra estória percebe-se que tem um narrador distinto, começa no final da I Grande Guerra quando  Henrick Gross, um americano judeu de ascendência polaca, decide alistar-se e contribuir para a independência da Polónia, estabelecer-se na cidade de origem do pai, tornando-se numa importante figura e onde a sua filha Sarah cresce até que a terra é tomada pelos nazis, mudam-lhe o nome para Auschwitz e quase tudo se desmorona, mas a excecionalidade de Sarah floresce. Depois, os dois tramas fundem-se várias décadas depois com suspense, memórias, proteção, dor e se percebe quem contou e quem foi Sarah Gross.
O romance com uma escrita escorreita, e agradável, sem malabarismos de sintaxe ou a seguir as tendências criativas da modernidade, é de fácil leitura, mesmo nas páginas negras do preconceito então reinante nos Estados Unidos ou na descida aos infernos do genocídio judaico. Apesar de recheado de informações históricas, onde os polacos não surgem tão alheios ao antissemitismo, gera suspense na luta de sobrevivência contra a desumanidade enfrentada por Sarah ou nas ameaças sentidas pela narradora e tem um final que em vários aspetos surpreende o leitor. Gostei muito.