segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

"Perguntem a Sarah Gross" de João Pinto Coelho


Apesar de "Perguntem a Sarah Gross" ser um romance escrito por um português contemporâneo, João Pinto Coelho, a obra nada tem relacionado com Portugal, nem sequer uma referência ao país.
A trama desenrola-se com duas estórias ocorridas em tempos diferentes que se vão alternando na sequência dos capítulos. A mais recente é contada na primeira pessoa pela narradora, esta expõe a sua entrada num colégio de elite no Connecticut fugida do Oregon, as lutas que tem de enfrentar entre o conservadorismo de alguns da instituição na década de 1960, a dificuldade de aceitação de negros no estabelecimento, um problema pessoal que esconde, mas tudo merece a genial proteção da diretora, a mulher exemplar Sarah Gross, da qual ela pouco sabe.
A outra estória percebe-se que tem um narrador distinto, começa no final da I Grande Guerra quando  Henrick Gross, um americano judeu de ascendência polaca, decide alistar-se e contribuir para a independência da Polónia, estabelecer-se na cidade de origem do pai, tornando-se numa importante figura e onde a sua filha Sarah cresce até que a terra é tomada pelos nazis, mudam-lhe o nome para Auschwitz e quase tudo se desmorona, mas a excecionalidade de Sarah floresce. Depois, os dois tramas fundem-se várias décadas depois com suspense, memórias, proteção, dor e se percebe quem contou e quem foi Sarah Gross.
O romance com uma escrita escorreita, e agradável, sem malabarismos de sintaxe ou a seguir as tendências criativas da modernidade, é de fácil leitura, mesmo nas páginas negras do preconceito então reinante nos Estados Unidos ou na descida aos infernos do genocídio judaico. Apesar de recheado de informações históricas, onde os polacos não surgem tão alheios ao antissemitismo, gera suspense na luta de sobrevivência contra a desumanidade enfrentada por Sarah ou nas ameaças sentidas pela narradora e tem um final que em vários aspetos surpreende o leitor. Gostei muito.

5 comentários:

Pedrita disse...

não conhecia. fiquei curiosa. beijos, pedrita

Bárbara Ferreira disse...

Olá, Carlos,
Gosto de ver uma opinião positiva sua, pois valorizo bastante as suas opiniões e tenho muita curiosidade quanto a esta obra e este autor. De momento, tenho à minha espera em Portugal o seu livro mais recente, o premiado "Loucos da Rua Mazur".

Carlos Faria disse...

Pedrita
Normal, é um escritor que só começou a publicar esta década, este foi o seu primeiro livro e segundo já é deste ano e foi premiado por um dos maiores grupos editoriais de Portugal.

Bárbara
Optei por comprar o primeiro por já ter ouvido muitas críticas positivas e de ter ouvido o autor dizer que muito do que acontece no segundo já existem indícios em Perguntem a Sarah Gross. Fico a aguardar impressões sobre esses loucos...

Kelly Oliveira disse...

Oi Carlos, você sentiu o efeito que muito sentimos aqui no Brasil ao ler a nossa literatura... inúmeros livros de escritores nacionais não fazem a mínima referencia ao país rsrs. (nada contra).

Carlos Faria disse...

Sim, nada contra, mas não em Portugal não é habitual e por isso referi o facto. Agora sei que o escritor estudou o holocausto na Polónia e viveu também nos EUA, ele vai buscar territórios e temas que conhece bem e a regra é que os nossos escritores que quase sempre viveram cá a sua realidade seja Portugal, mesmo os grandes clássicos dos grandes escritores por norma centram a maioria dos seus livros nos respetivos países natais.
Contudo é um bom livro e fácil de ler.
Também notei que o autor não se refugiou numa tentativa forçada de escrita criativa que muitas vezes esconde uma trama fraca. Aqui elogio o autor