sábado, 24 de março de 2018

"Os despojos do dia" de Kazuo Ishiguro


Excerto
"Certamente só pode ser um «grande» mordomo aquele que está em condições de apontar para os seus anos de serviço e dizer que empregou os seus talentos a servir um grande cavalheiro - e, através dele, a servir a humanidade."

Há vários anos recomendaram-me "Os despojos do Dia" como uma prova da excelências da literatura japonesa. Anotei, o tempo passou e não comprei, até que o último Nobel atribuído a Kazuo Ishiguro me levou à compra e então deparei-me com um livro sobre a sociedade conservadora inglesa, narrado pela personagem mais obsessivamente britânica que li até hoje e numa escrita magnífica, sem artificialismos estilísticos, mas de uma beleza pura que confere um equilíbrio difícil de encontrar num texto das memórias e ideias preconcebidas de um mordomo sobre a sua profissão.
Stevens sente que está a cometer pequenos erros profissionais desde a mudança para o seu atual patrão, um norteamericano que comprou a residência de lord Darlington, a quem ele sempre servira como mordomo até à morte daquele. Ao aperceber-se da tensão, o novo proprietário que pretende ir por uns dias aos Estados Unidos recomenda-lhe uma viagem para espairecer e conhecer a Inglaterra. Setvens que tem em mente aventurar-se a contratar uma ex-governanta que lhe escreveu, aceita a recomendação e faz uma viagem de uma semana até à cidade da antiga colega, ao longo desta reflete sobre o que são os deveres profissionais de um grande mordomo, como foi a sua vida ao entregar-se ao distinto lord, recorda outros que optaram por aproveitar a sua vida, enquanto ele cumpria servir alguém em quem pôs todas as suas esperanças para através dele estar ao serviço do mundo, só que que ao logo da deslocação vai-se apercebendo de falhas neste processo, vai encontrando gente que lhe desperta para outras realidades e descobre a beleza do mundo que o rodeava e desconhecia. Um verdadeiro exame curricular sobre a validade da sua vida e da sua forma de pensar.
A partir desta história fica claro que Ishiguro, filho de japoneses, nascido no Japão e imigrante na Inglaterra desde os 5 anos, é um escritor inglês, talvez o único aspeto nipónico neste livro é descobrir que a cultura conservadora inglesa e japonesa compartilham a sobriedade no mostrar os sentimentos, no falar e no agir em sociedade e ambos têm a obsessão dos rituais de pormenores no mais diversos atos comuns do dia a dia e nisto este livro é também uma mostra genial do que é ser"british".
Uma reflexão psicológica sobre o sentido da vida, mas relatada de uma das formas mais belas que li em literatura, com momentos onde o choque de sentimentos com o dever desrespeita a humanidade que há em cada um em nome de uma pretensa perfeição de saber estar em sociedade. Um livro de uma grande beleza e subtileza. 

5 comentários:

Pedrita disse...

quero muito ler. linda capa. fiquei curiosa mais ainda. beijos, pedrita

Kelly Oliveira disse...

Gostei dos comentários Carlos, pretendes ler outros títulos do autor?

Eu li poucos livros de autores que ganharam o Nobel, ainda vou corrigir isso.

Abs.
CAFÉ E BONS LIVROS

Carlos Faria disse...

É possível que leia outros livros de Ishiguro, mas também sei que alguns deles não foram tão agradáveis como este para alguns dos meus amigos.
Eu já li muitos Nobel, incluindo Saramago e o seu ateísmo militante. Há alguns que sou mesmo grande fã Thomas Mann, que até tem uma tetralogia bíblica "José e os seus Irmãos" que infelizmente não consigo encontrar à venda em Portugal.
Contudo Tolstoi representa o exemplo que há escritores que não ganharam o Nobel por defenderem um cristianismo e uma moral que incomodava as elites, neste exemplo Ressurreição e Ana Karenina e sobretudo Guerra e Paz são livros que por si só valem dezenas de Nobel.

Kelly Oliveira disse...

Seus comentários sempre me agregam muito, obrigada!

Carlos Faria disse...

Obrigado eu também