quinta-feira, 24 de novembro de 2016

"História da Menina Perdida" de Elena Ferrante - Volume IV de "A amiga genial"


"História da Menina Perdida" de Elena Ferrante corresponde ao quarto e último volume da tetralogia "A amiga genial" e completa a história de uma amizade de vida inteira vista pelos olhos da amiga que se tornou culta e escritora mas que nunca deixou de ter uma admiração e até talvez um complexo de inferioridade face a outra companheira que apesar de não ter tido a mesma oportunidade de estudo lutou com todas as forças para sobreviver, ascender socialmente e revoltada criar um mundo à sua medida à sua volta e enfrentar dificuldades pessoais difíceis de ultrapassar.
Neste livro, após uma primeira metade ainda muito novelesca com amores e ódios, percursos políticos e sociais, bem como conflitos típicos da cidade berço da obra, não só das personagens que acompanhámos nos volumes anteriores, mas também agora dos seus filhos que assim passam de crianças a adolescentes a jovens; segue-se uma segunda parte mais instrospetiva, madura, com reflexões sobre a vida e marcada pelas desilusões, visualização da repetição dos mesmos erros nos mais novos após o calo e o saber dos mais velhos, as relações sociais, a amizade, os problemas socioeconómicos dos desfavorecidos, a corrupção económica e social na Itália e uma descrição nostálgica do que é Nápoles, bem como as mudanças de estilo de vida desde os anos 1990 até à atualidade fecham o ciclo.
Ideologicamente o livro já não promove um idealismo de esquerda, neste campo também com o tempo muitos se acomodam e torna-se evidente que certos ídolos tinham pés de barro e eram oportunistas de uma classe com privilégios que não estão dispostos a prescindir, apesar do discurso solidário. A escrita também se adapta à idade da pretensa narradora, tornando-se ela mesmo mais madura.
São inclusive dadas explicações do essencial da obra de uma forma indireta, isto quando se abprdam o conteúdo de publicações da narradora a falar da amizade, surgindo assim objetivos dos livros dentro do livro que não são mais que a tradução dos da tetralogia, numa perspetiva de alguém que os expõe arreigada a valores humanos fortes, mas libertos de tabus religiosos e pudores tradicionais muito característicos de alguém que viveu a revolução sexual dos anos 1960/70. Valeu a pena a maratona.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

"História de Quem Vai e de Quem Fica" Volume III de "A Amiga Genial" de Elena Ferrante


"História de Quem Vai e de Quem Fica", o volume III da tetralogia de "A Amiga Genial", da escritora italiana Elena Ferrante, aborda, sobretudo, o início da vida de casada da narradora e da sua experiência de mãe nos anos de 1970, sendo neste mais escassas, frias e desconfiadas as referência à amiga sobre quem se centraram essencialmente o olhar da pretensa autora do texto nos dois anteriores livros.
Além da continuação da trama novelesca de amores, ódios, ciumes e traições, a componente de confronto ideológico esquerda direita, as sombras do terrorismo na sociedade de Itália e a contra ofensiva fascista, que caracterizou de facto a época em questão, têm agora um papel muito mais forte neste volume, todavia o livro não é isento, praticamente todas personagens conotadas com a esquerda têm bons princípio na sua conduta, enquanto o outro lado são sempre exploradores ou corruptos e limitam a liberdade dos seus opositores.
Para além do estilo elegante que caracteriza a escrita, a partir deste volume passa a ter um papel importante a exposição realista de pormenores descrições das sensações dos atos íntimos da narradora, como para vincar a liberdade e fundamentar a atitude da mulher na sua emancipação na sociedade, como também se intensifica a linguagem grosseira para tornar claro a forma de expressão e de pensar natural das pessoas sem o verniz pudico que muitas vezes cobre a literatura. Curiosamente o papel desse tipo de relatos na literatura é de forma indireta discutido na obra pelo impacte que provoca nos leitores.
Continuo a gostar do romance, apesar da sua extensão para a conclusão da obra, poder por vezes dar-me saudades de outros géneros onde pese menos o olhar feminino e sentimental do mundo. Já a ler o IV volume.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

"História do Novo Nome" ou Vol. II de "A Amiga Genial" de Elena Ferrante


O segundo volume da tetralogia "A Amiga Genial", agora intitulado: "História do Novo Nome", de Elena Ferrante, vem numa sequência perfeita do final do primeiro romance, que narra o nascimento e fortalecimento de uma amizade desde a infância escolar até à adolescência dos protagonistas exposta de forma integrada na vida social de um bairro pobre de Nápoles, terminando o anterior na mesma cerimónia de casamento que dá início ao presente livro que estende a estória destas relações e percursos individuais até ao final dos estudos da narradora, quando esta irá passa a ser uma jovem pronta para uma vida independente.
Tal como já dera a entender, a escrita é muito agradável e de fácil leitura, sendo que a trama se aproxima do desenrolar de uma telenovela popular, só que a escritora faz na obra análises individuais que permitem criar personagens complexas, cheias de virtudes e defeitos, expor as dificuldades de quem vive em meios sociais pobres, falar das barreiras que têm de se ultrapassar para uma integração num estrato cultural e económico mais elevado, incluindo os complexos de inferioridade de origens, e ainda mostrar a corrupção, vícios políticos e preconceitos que minam a vida dos cidadãos em Nápoles, sem esquecer as principais lutas ideológicas que marcaram a juventude na década de 1960.
Esta reunião de aspetos permite que se crie um romance acessível e fácil a leitores pouco atraídos para escritas e enredos complexos, que se limitem a estórias de paixões e ódios, mas sem deixar de interessar a apreciadores de obras mais profundas pela riqueza de informações e o pormenor com intervenientes, intensamente caracterizados e detentores de fortes em personalidade com potencialidades de serem referências na literatura.
Elena Ferrante, despe-se de preconceitos, faz uma obra realista nos aspetos públicos e pormenores da vida privada e íntima das suas personagens, sem apagar experiências marcantes da juventude associadas à descoberta e entrada na vida sexual ativa. Continuo a gostar muito da obra e a recomendar a qualquer leitor, sabendo que por questões de moral podem existir divergências do exposto no livro em termos de ideias e atos. Para já a avançar no terceiro volume desta narrativa.

domingo, 6 de novembro de 2016

Curiosidades geológicas: Efeito colateral do último sismo no centro de Itália - erupção de vulcões de lama

Voltando novamente ao tema geologia há muito arredado deste blogue que se tem dedicado sobretudo a livros, mas o principal que esteve na origem de Geocrusoe, apresento hoje uma curiosidade recente de que não ouvi falar nos noticiários nacionais, um efeito colateral dos tremores de terra no centro de Itália da passada semana: estes desencadearam a entrada em erupção de seis vulcões de lama, os quais podem ocorrer na sequência de chuvas muitos intensas, sismos com magnitude superior a 6 graus Richter e furos para a exploração de recursos geológicos, nomeadamente hidrocarbonetos.



Sobre esta tipologia de fenómeno geológico, pouco divulgado pelas populações em geral, já falei neste post, bem como aqui, aqui e aqui há quase 6 anos atrás.

Outro vídeo sobre o mesmo fenómeno ocorrido agora na Itália.


Embora sem a regularidade de há uns anos atrás, espero voltar novamente aos temas geológicos neste blogue, nem que seja para honrar a razão inicial da sua criação e do seu nome.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

"Não-Humano" de Osamu Dazai


"Não-humano" do japonês Osamu Dazai é um pequeno romance, sob a forma de cadernos de memórias, onde o protagonista conta a sua vida desde criança e a sua repulsa pelos outros por se sentir diferente, um ser não-humano, não compreendendo as pessoas com repulsa pela vida comum dos outros concidadãos.
Escrito pouco depois da II Grande Guerra, momento difícil em que os nipónicos perderam o orgulho no confronto, a obra reflete a insegurança e o receio pela sociedade em que a pessoa está inserida, neste caso o protagonista elabora uma estratégia de fuga: primeiro através de um comportamento de humor divertido que disfarça a angústia, para na juventude enveredar também pelo álcool e a exploração das mulheres que se apaixonam por ele em virtude da sua beleza e aspeto desprotegido. Logicamente tal comportamento atrai não só dificuldades financeiras, como amizades dúbias, rejeição e leva ao ostracismo e à degradação do indivíduo, que sobrevive por existir quem lhe estenda a mão, nem sempre com as melhores intenções, mas igualmente acompanhado pelo mau agradecimento a quem se esforça com uma boa ajuda humana.
A texto está magnificamente escrito e foi a última obra do autor que pouco depois se suicidou, um tipo de solução que o protagonista também procura por vezes no romance que, pontualmente, recordou-me "Cadernos do Subterrâneo" de Dostoiévski, embora o atual livro seja bem menos negro, talvez porque o narrador não procura o mal como livre escolha, mas sim é vítima de si mesmo por não compreender o mundo e, como tal, está mais aberto ao relacionamento humano que gostaria de entender, tornando-se até pouco sombrio numa caminhada de solidão e degradação pessoal. Gostei do livro, lê-se muito bem e é uma pequena grande obra de literatura.